Beatriz Figueiredo

Psiquiatra e escritora, Natália Timerman construiu uma trajetória literária atravessada por temas como vínculos afetivos, intimidade e memória. É autora de Desterros: histórias de um hospital-prisão (2017), do livro de contos Rachaduras (2019), finalista do Prêmio Jabuti, e dos romances Copo Vazio (2021) e As pequenas chances (2023). Desde 2022, é colunista do Universa, onde escreve sobre literatura, relações afetivas, maternidade e questões da vida contemporânea. Em 2026, publicou pela Companhia das Letras o romance Antes que apague.
No livro, uma narradora-personagem, escritora e psiquiatra, acompanha a mãe com Alzheimer e o apagamento gradual de suas memórias. Construída em fragmentos, a narrativa aborda as mudanças provocadas pela doença nas relações familiares e na percepção da memória, enquanto articula ficção e experiência pessoal.
Em entrevista ao Caderno Expressões, a autora detalha o processo criativo de Antes que apague, a influência da prática clínica em sua escrita e as relações entre literatura, memória e luto.
CADERNO EXPRESSÕES — Como foi o processo criativo e de escrita de Antes que apague?
NATÁLIA — Antes que apague foi sendo planejado e escrito ao longo de alguns anos. Em 2025, estive por quatro semanas na Art Omi, uma residência literária em Ghent, Nova York, e mergulhei mais profundamente em sua escrita. Saí de lá com uma primeira versão pronta, que foi incansavelmente reescrita nos meses seguintes. Sendo um livro composto por fragmentos, houve um grande trabalho de montagem, que durou até o final do processo de edição e foi se aprimorando conforme eu apurava a noção do todo do livro.
CADERNO EXPRESSÕES — De que maneira sua experiência como psiquiatra e o contato com a prática clínica atravessam sua escrita literária?
NATÁLIA — Uma escritora escreve com tudo o que é, mesmo que o livro não parta da matéria de sua vida. Não consigo me despir do fato de ser psiquiatra ao escrever. Talvez a especificidade da minha voz literária se relacione com minha prática clínica, alcançando labirintos de pensamento e nuances emocionais das personagens.
CADERNO EXPRESSÕES — Você já mencionou o uso dos diários no processo de escrita do livro. Quando esse hábito começou e como esses registros contribuíram para sua formação como autora e para a construção de Antes que apague?
NATÁLIA — Sempre mantive cadernos, mas tenho dificuldade de sustentar o hábito de escrever todos os dias. Para a escrita de Antes que apague, coletei anotações ao testemunhar a perda de memória de minha mãe, acometida pelo Alzheimer, assim como a personagem Alice. Essas anotações, depois, viraram a costura do livro. Elas não estão em ordem cronológica, porque privilegiei o fio temático, também obedecendo ao modo errático com que a memória aparece e desaparece em seu caminho para a total desintegração em um quadro demencial.
CADERNO EXPRESSÕES — A protagonista compartilha alguns aspectos de sua vida pessoal: é psiquiatra, escritora e acompanha a mãe com Alzheimer. O que significou transformar uma experiência tão próxima em literatura?
NATÁLIA — Antes que apague é um livro de ficção. Ainda que eu compartilhe com a narradora o fato de ser psiquiatra, escritora e ter uma mãe com Alzheimer, a composição familiar dela é diferente da minha, há personagens e fatos inventados, e minha vida não é necessária para a compreensão do livro. Ainda assim, a escrita me causou angústia em diversos momentos e me fez levantar questões éticas. Lidei com isso incorporando o sentimento de angústia e as dúvidas ao próprio livro.
CADERNO EXPRESSÕES — Se a memória é afetada pela doença, a escrita pode se tornar uma maneira de preservar aquilo que está desaparecendo? Que relação o livro estabelece entre escrita, memória e luto?
NATÁLIA — A escrita é uma tentativa sempre falha de preservar aquilo que está desaparecendo e também uma tentativa fracassada de se comunicar com essa mãe já num estágio avançado da demência, mas não deixa de ser, como toda literatura, um gesto de esperança.





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