O ruir de um homem

Conto por Pedro Linhares

Pedro Linhares

Ilustração por Guilherme Monteiro.

John já passara por muita coisa, mas esse seu trabalho mais recente certamente lhe dava nos nervos. Durante dois anos as Ruínas não lhe revelaram nada. Durante dois anos respirou poeira de séculos passados, polindo lentamente rochas e tijolos insignificantes — talvez um geólogo, coisa que não era, ficasse feliz com as rochas magmáticas sem datação encontradas; mas não ele. Sofrera um sequestro internacional durante alguns dias, e tivera mais emoção nessas horas do que até então. E depois veio Joanne… e o casamento do irmão… e a Ilha Wyckerth… a pirâmide… tantas memórias desordenadas…

Talvez não devesse estar pensando em tantas distrações de seu trabalho, não na posição delicada em que estava. E John percebeu isso logo que uma lágrima tímida, mas perfeitamente colocada, escorreu-lhe pela bochecha, ao lembrar de seus últimos momentos com Joanne. Sua casa ficara tão… silenciosa…

As Ruínas não poderiam ser mais desinteressantes — relativamente falando, é claro, considerando que se assemelhavam a quaisquer aldeias abandonadas construídas sobre pedras e sinais de civilização que não deveriam estar ali, considerando a localização e a provável data de formação da Ilha. Este era o único detalhe que atraía a atenção para o lugar, sua origem aparentemente inexplicável.

Prédios com não mais que dois andares, dadas as fundações rasas, plantações de policultura familiar no entorno, templos pequenos e discretos preenchiam o horizonte daquele sítio arqueológico no escuro. John não deveria estar ali, mas, sendo seu próprio chefe, não queria voltar para casa. À casa onde Joanne não mais estava. Onde sua cama ficava vazia pela metade.

Com sua lanterna a óleo, John continuou iluminando a parede, analisando os escritos do que pensava — e os outros arqueólogos de sua pequena equipe concordavam — ser um templo. Não restava muito, já que a vila, a triste e fracassada Drooēnhäl, cujo nome diziam ter vindo dos sussurros do vento nas noites mais frias e que acabou por ser reduzido coloquialmente a Droe, retirara qualquer vestígio de pedras minimamente paralelepipédicas para que construísse suas próprias construções. Era como um quebra-cabeça espalhado, com as peças viradas e encaixadas a bel-prazer. O trabalho de catalogar cada uma pensando de qual construção ela, provavelmente, fora retirada foi longo e árduo, por isso dois anos sem descobertas impressionantes.

Agora que elas já poderiam ser “encaixadas” novamente, em suas posições corretas, John não poderia simplesmente ficar na cidade — ou em sua casa. Precisava fazer algo, e talvez até ser o primeiro a finalmente lançar uma luz sobre a neblina que cobria os segredos das Ruínas.

Ele só gostaria que Nicholas não tivesse construído sua vilazinha usando as construções antigas, uma tremenda irresponsabilidade, apontada veementemente a Oliver em algumas ocasiões, e, mais discretamente, ao próprio Nicholas uma ou outra vez. Se ninguém tivesse roubado as pedras, talvez John não precisasse interagir com os moradores, explicando-lhes por que precisava entrar em suas casas com um carregamento de bandeirinhas brancas e o motivo de precisar espetá-las na parte interna das paredes, como uma instalação de arte estranha. Seria tudo tão mais fácil.

Ao menos era noite e aquele templo em específico fora deixado intocado. Não pela Natureza, mas ainda intocado — a chapada ao lado ajudou nesse ponto.

A luz amarelo-âmbar da lanterna bruxuleante iluminava as ranhuras na pedra, que se assemelhavam a gravações medievais europeias, dada a incapacidade do escultor de desenhar uma pessoa de perfil que parecesse com uma pessoa. Os egípcios eram mais precisos e elegantes nesse quesito, mas John não estava ali para julgar a arte, e sim o conteúdo do que quer que estivesse gravado nas letras estranhas, mas com raízes romanas

A primeira coisa que notou foi a simetria do templo. Não somente a arquitetônica, como o esperado, mas também os desenhos feitos e as escritas, ambos espelhados, estas últimas ilegível em metade da construção se o leitor não tivesse um espelho. Tais letras pareciam versar em inglês arcaico, em seus primórdios — mas como algum saxão teria chegado à Ilha, dada sua posição em correntes difíceis e a desorientação magnética de volume toroidal que causava?

John, mesmo assim, ignorou a inconsistência e decidiu ler, esforçando-se muito, pulando os olhos de uma pedra a outra a cada dúzia de letras, o texto que tiveram o trabalho de escrever na parede do templo.

Aquele que aqui pisar e os nossos segredos encontrar
pode até tentar compreender, mas não nos resta nada a prever.
Nosso Fim está para chegar, nada podemos fazer,
mas lembra de Nosso Tempo, e teme o Monte, o Firmamento.

John descobriu, ao menos, que a civilização que vivera ali há tanto tempo devia possuir oráculos ou profetas. Era a primeira descoberta, de verdade, desde que as escavações tinham começado. Talvez até ganhasse algum prêmio…

(Por algum motivo, os membros da família Callisto sempre gostaram muito da ideia de ter seus nomes gravados em objetos dourados e exibíveis.)

As palavras sucintas foram as únicas gravadas nas paredes do templo. De resto, apenas desenhos feios.

O vento soprou pelas montanhas, surpreendendo John, que ouviu atentamente os sons produzidos, esperando verificar se era verdadeira a raiz do nome.

— Uuuueeeeaaaallll — ele pôde ouvir por entre as árvores que cresciam ao redor, balançando suas folhas por entre a neblina noturna. — Uuuueeeeaaaallll!

Desanimado com as vogais longas, continuou analisando as pedras.

Nada de interessante se revelou durante muito tempo, e o óleo da lanterna já estava acabando. John se levantou de onde estava — uma pequena plataforma, suspensa a um metro e meio do chão do lado de fora da parede mais distante do templo — e pulou, pousando no chão suavemente. Pegou a garrafa de óleo e apagou rapidamente a lanterna, preenchendo o que faltava completamente no escuro e logo em seguida reacendeu a chama, uma habilidade desenvolvida com o tempo. Reascendeu na escada da plataforma e voltou a observar atentamente as pedras da parede.

A tarefa tediosa e insone foi interrompida quando ele esbarrou no martelo de precisão que algum dos outros escavadores devia ter deixado fora da caixa. A incompetência alheia sempre o perseguia, não importava a tarefa ou sequer a presença de outras pessoas.

O martelo flutuou pelo ar até aterrissar sobre o piso de pedra da construção sem teto, rachando-o com o peso da cabeça. Agora John teria de explicar uma rachadura nova nas pedras: “ótimo”, pensou.

Ele desceu novamente de seu assento, a fim de averiguar os estragos, e se dirigiu à área de pouso do objeto. A rachadura devia ter uns quarenta centímetros de comprimento, e mais uns quinze só em largura. Aquilo não poderia estar certo, afinal era um chão de pedra. John apalpou o chão, retirando os pedregulhos e pincelando os farelos para longe, parecendo um cirurgião limpando uma ferida, pronto para começar o procedimento.

O martelo foi posto de lado, revelando um buraco no chão de pedra. Ele aproximou a lanterna do buraco, iluminando seu interior com a luz amarela, e ficou muito interessado no que viu.

Era um livro velho, de poucas páginas, capa de couro quase completamente apodrecida, páginas carcomidas nas extremidades, tinta desbotada na maioria dos lugares e uma caligrafia artística muito bonita, versando uma história depois de algumas páginas.

John, extremamente delicado, retirou o objeto de seu túmulo e o trouxe à luz novamente, colocando-o sobre uma das mesas de madeira montadas ali há muito tempo. A luz da lanterna foi ajustada e John começou a ler.

Escrevo isto para quaisquer gerações vindouras,
pois a minha não sobreviveu às numerosas previsões,
contando o que aconteceu, mesmo às poucas cenouras,
esperando que de fato se mudem as futuras decisões,
para que as vidas se tornem bem mais duradouras,
para que se tirem as corretas e salvadoras conclusões,
para que se salvem as tantas existências porvindouras
e para que não se acabe tudo em terríveis furacões

Fui a última criança a nascer em toda nossa comunidade,
há dezessete anos, nem uma lua a mais ou lua a menos.
“Não vale o esforço, as crianças não chegarão à idade”,
os governantes disseram, e nossos pais ouviram plenos.
Meus irmãos de nascimento, sem nenhuma felicidade,
viram nossa comunidade ruir sem mais nem menos,
exatamente como frisaram os Primeiros, com acuidade,
com seus profetas, visionários e prescientes serenos.

Durante muitos anos, em bonança vivemos, lá moramos,
usando somente o que a terra que avistávamos provia.
Então precisamos de mais, e pela Floresta e Mar procuramos.
Ele ficou irritado, Ele não gostou, Ele tampouco a nós sorria.
Ouvi certa vez minha mãe dizer: “A promessa quebramos,
por isso a previsão.” Ninguém nos contou sobre a profecia,
mas meus pais a frase repetiam, sem que nada entendamos.
Não nos contaram, até que pedi: “Mãe, anda, o pai contaria”.

“Durante doze meses, depois da próxima coroa solar,
punidos seremos nós, por Ele e por seus ajudantes,
sem ter como, com quem fugir ou para onde escapar
todos seremos findados, em muitos e longos instantes.
Fizemos uma promessa e sob ela não pudemos continuar,
agora por nossa imperdoável afronta e vidas arrogantes
devemos, como exatamente mandam as regras, pagar
da melhor maneira possível, com todos os habitantes.”

No primeiro mês da Punição, como os adultos chamaram,
tivemos uma infestação de insetos, por todos os lados.
Comeram as paredes das casas e as plantações minguaram.
Perdemos treze, mas pior ficaria, pregavam os postulados.
“Não é o fim”, “Podemos sobreviver!” e “Acabou!” soaram,
ditas por muitos dos adultos, incrédulos e muito enganados.
“Ainda não acabou, ainda tem mais”, os sábios falaram,
e de forma alguma poderiam estar mais acertados.

No segundo mês, vieram as aranhas, e todos os insetos comeram.
Uma a uma, elas tomaram seu lugar, até não sobrar mais nada.
Criaram suas tocas em nossas paredes e se multiplicaram,
tornando nossas casas perigosas, de ameaça inominada.
Ao ar livre dormimos, as nossas paredes elas tiraram,
guardados por vigias, com atenção à Mata direcionada.
Nenhum de nós morreu, tampouco as aranhas pereceram,
mas lembro de minha mãe triste, sempre preocupada.

No terceiro mês, vieram os pássaros, e as aranhas comeram,
nossas casas e cabeças rondavam, tentando nos atacar.
As plantações, revitalizadas por um tempo, cavoucaram,
mamíferos pequenos e grandes roedores a caçar.
Uma vez, um de nós, um bebê, repentinamente levaram,
a criança, aninhada no colo da mãe, a mamar
não estava preparada, e de lá eles a arrancaram.
Morte outra não houve, mas continuamos a chorar.

No quarto mês, os bons peixes sozinhos se apequenaram,
minando-nos com a grandiosa e temida fome,
pararam de subir os rios e deles não mais desceram.
Os adultos mal comiam, disse minha mãe: “Tome”,
quando das frutas vivemos e os peixes não vieram.
Perdemos lentamente mais outros para a terrível fome,
quando as sementes mascamos e os peixes não vieram.
Resistindo com pouco, sua comida, fracos, davam-me.

No quinto mês, as chuvas, agora inimigas, vieram
inundando nossas frágeis casas, enchendo-as de lodo.
As águas do céu sem pena, piedade ou misericórdia caíram,
afogando as pobres plantas, como se fossem incômodo.
Os rios se encheram e as árvores ao Mar arrastaram,
as Florestas e todos nós sofremos como um todo,
quando os raios luminosos e fatais confundiram
o corpo de um ancião com um grande eletrodo.

No sexto mês, veio a seca e as águas embora ela levou.
Ficamos muito felizes nos primeiros dias, agradecendo,
mas o solo rachou, os rios secaram, o Sol nos queimou
e os mais frágeis restantes tiveram sede, assim morrendo,
ficando o mais jovem sobre o pó, que o sepultou.
As plantas cinza, mortas e secas, ao toque arrefecendo,
rarearam os animais, e o vento apenas tudo agravou.
Assim, nossa comunidade, aos poucos, foi aquiescendo.

No sétimo mês, veio o montanhoso frio cortante,
das Montanhas desceu ele lentamente com a neve,
congelando os rios e matando as plantas, triunfante,
findou mais outras de nossas vidas, sendo breve.
A situação ficou cada vez mais e mais periclitante,
disse minha mãe: “Cuidar dos fracos você deve,
pois a Punição será, além de tudo, a nós impactante,
e, dos que não puder salvar, apenas preze.”

No oitavo mês, veio o calor úmido, vencendo o frio,
a água voltou, as plantas vingaram, o Sol tonteou.
Um amigo refrescante virou o nosso querido rio,
enquanto o calor nos oprimiu e nos permeou.
Todos reclamaram e comentaram sobre o calafrio
que atingiu a todos nós ao ver quem se desnorteou.
O menino acalorado aos poucos ficou sombrio,
sem ver e sem ser visto, sua vida, por fim, falseou.

No nono mês, vieram as chamas, pelo impiedoso calor trazidas
e fortificadas, devastando rapidamente nossas plantações.
As árvores não aguentaram, incendiando-se ignizadas,
queimando logo em seguida todas as nossas provisões,
a cinzas insignificantes, incomestíveis e insossas reduzidas.
As labaredas varreram a Floresta, causando atribulações,
as árvores, outrora verdejantes, jaziam, só troncos, esparzidas:
nada podíamos mudar, nem mesmo com nossas boas intenções.

No décimo mês, muitos de nós simplesmente desapareciam,
sem que ninguém soubesse para onde ou quem os levava,
da noite para o dia, de hora para outra, desvaneciam,
e minha mãe, temendo por mim, sobrevivente, à noite louvava,
soltando suas palavras enquanto os ventos as distorciam.
“Por favor, por favor”, eu ouvia, quando suas preces lançava.
Durante as noites, com os gritos, muitos empalideciam
e eu, ali, sobre a vida e sobre seu triste fim ponderava.

No décimo primeiro mês, vieram os visitantes, elucidando:
descobrimos quem tinha levado nossos familiares e amigos.
Eles chegaram lentamente, vindo da Praia, caminhando,
pareciam inofensivos, mas percebemos serem inimigos,
pois, usando apenas a fala, pedras estavam movimentando,
sem nem as tocar, mostrando serem grandes perigos.
Devastaram a praia, pelas árvores caminho cortando;
finalmente encontráramos nossos Arqui-inimigos.

No décimo segundo mês, último mês da Punição,
os últimos restantes, os ainda de pé, deixaram de viver,
pois os guerreiros lancinantes usaram uma munição
que não podíamos sentir, nem mesmo perceber;
que atravessava o ar com a mais silenciosa discrição
até nossos corpos inanes, fracos e frágeis corroer.
Morreram todos, doentes, cumprindo a premonição,
restando de nosso grupo apenas eu, o único a sobreviver.

Restei sozinho para poder contar às pessoas futuras,
para uma mensagem importante, ouvida ou não, deixar.
Aqui vai um aviso a todas essas pessoas imaturas:
dizendo que não ajam sem antes no depois pensar,
que não confiem em suas tristes e incorretas conjecturas,
que não tentem fazer o impossível ou o uns aos outros matar,
e que ainda viverão muitas, terríveis e inevitáveis desventuras.
Agora, cumprida a tarefa, posso partir e, em paz, descansar.

John, lacrimejando com tanta tristeza e lamento postos em palavras, parou de ler e largou os papéis. Recompôs-se em um momento, parando para pensar claramente. O Sol já estava nascendo, escondido tímido atrás de uma das montanhas, revelando o quão amarelos os papéis estavam. Aquilo sim era uma descoberta que lhe renderia um prêmio. O inglês arcaico serviria como prova de sua autenticidade cronológica. Precisava avisar alguém, qualquer um, de sua descoberta. O Woodville, a imprensa da Inglaterra, os redatores do mundo todo! Todos precisavam saber daquilo!

Um som estranho soou quando algumas pedrinhas caíram no chão, perto de John, deixando-o curioso. Pareciam grãozinhos de areia, um pouco menos arenosos e de pelotas maiores. De onde elas teriam caído?

Mal sabia ele que a resposta descia do altiplano ali perto, escorregando da rachadura na terra, que soltou as pedras mais altas e mais pesadas.

John ouviu outro som, dessa vez o vento, correndo por entre as árvores.

— Uuuuaaaa! — pareceu dizer. — Uuuuaaaa!

Fuja.

John olhou para cima, onde o teto do templo deveria estar, e avistou o que o futuro lhe reservava, por entre as nuvens da noite que quase virava dia. Não houve tempo para pegar a lanterna, ou o livro, nem mesmo para se mover dali. Não houve tempo para se despedir. Não houve tempo para comunicar sua descoberta. Não houve tempo.

Sua sepultura não esperou sua morte.

Pedro Linhares

Estudante de Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e escritor quando há tempo.

Guilherme Monteiro

Estudante de Museologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ilustrador freelancer.

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