Asas do desejo: quando a fotografia dá cor ao cotidiano

André e Douglas Sielski, pai e filho, fundaram o Elo Foto Clube há dois anos e, desde então, montaram uma legião de apaixonados por fotografia

Texto e fotos por Iara Rocha

Fernanda tira fotos com o auxílio de André no refletor de luz e na observação de Douglas. Foto: Iara Rocha

O francês Joseph Niépce decidiu que a primeira foto da história seria a vista da janela do seu quarto. Isso, depois de deixar uma folha exposta ao sol por oito horas, dentro de uma caixa de madeira, há exatos 200 anos. Mas a evolução da fotografia foi tão eficiente que para tirar uma foto em um celular hoje é necessário um tempo quinhentas vezes menor que esse – milésimos de segundo. Para uma atividade tão instantânea, existe quem procure dar significado para um momento tão pequeno: aqueles que participam dos clubes de foto.

André e Douglas Sielski chegam pouco depois das 9h no café Taipei, em frente à praia do Cacupé, em Florianópolis. Pai e filho se preparam para o encontro do Elo Fotoclube, fundado pela dupla há dois anos. Começam a montar os equipamentos que trouxeram em duas grandes bolsas pretas, cheias de acessórios. Tiram dali luzes contínuas, tripés, carregadores, extensores e a câmera digital de cada um.

O primeiro membro a chegar é Carlos Eduardo dos Reis, conhecido como Carlão. Os cabelos crespos e brancos vão presos em um rabo de cavalo, que combina com o cavanhaque e os olhos muito atentos. Depois de sentar e pedir um café, ele escuta André falar sobre a memória fotográfica na era da foto digital. “Já são duzentos anos de foto. Mas hoje, se o celular estraga, tudo se perde”, defende indignado. “Até Robert Capa tem fotos borradas, e o que se faz hoje? Apaga tudo”, responde Carlão, em referência ao célebre fotojornalista de guerra.

Enquanto Douglas explica, Fernanda e Carlão escutam atentamente. Foto: Iara Rocha

Carlão é o participante mais velho do grupo. Com 66 anos, ostenta um esforço em aprender e se atualizar admirável. Ele preza pelo registro palpável da história. Durante o encontro, puxa da bolsa um caderno branco da UFSC, com capa reciclada, muito conhecido entre a comunidade universitária do campus Trindade. Ali, ele imprimiu e colou algumas fotos tiradas em aulas passadas, com pequenas anotações sobre que técnica usou, data e local. Ele confessa que tem outro caderno, mas com desenhos que registram a posição da luz.

Apegou-se pela fotografia no começo dos anos 1980, enquanto ainda estava na graduação em História, na cidade de São Paulo. Após sua formatura, um mestrado e mais um doutorado, se mudou para Florianópolis em 1996, e deixou a câmera — na época,  analógica — para trás. Passados quase 20 anos, viu-se um pouco saturado. “Eu era professor, 40 horas de vida acadêmica por semana. Até que eu pensei que estava faltando alguma coisa da minha essência”. Em 2014, decidiu pelas aulas de fotografia do SENAC e, dessa vez, começou com a digital, uma modalidade ainda não explorada por ele. 

O historiador defende que cada vez mais os fotógrafos têm diminuído a quantidade de fotos que tiram. De 500 pula para 250, até tirar só 100, para chegar em suadas 50 fotos. “Porque senão você não tem espaço, né?”. Para prevenir essa situação, em que não tem mais memória no HD e é preciso escolher o que se guarda, Carlão montou sua própria biblioteca de ensaios fotográficos em casa. Apenas edita a luz da foto, se for necessário, e assim separa vinte imagens de cada saída. Imprime-as em formato 15×21 e as coloca em diferentes álbuns, separadas por “teminhas”.

Após dar aula por 25 anos, Carlão se aposentou quatro anos atrás. Sua dedicação à foto, no entanto, não tem planos de deixar de lado. “É voltar a dar asas pro desejo”.

Caderno de anotações de Carlão, com detalhes de técnicas, data e local. Foto: Iara Rocha

André Sielski, funfador do Clube, relembra que aos 15 anos a câmera, ainda analógica, foi sua paixão à primeira vista. Após o ensino médio, migrou para a Publicidade e trabalhou com ensaios fotográficos durante décadas. Eventualmente, o analógico ficou obsoleto, e desativou seu laboratório em 2002. Dessa época, ainda mantém vivos os negativos, coloridos e em preto e branco. E, no mesmo ano, começou a dar aulas de fotografia. “Me apaixonei pela sala de aula de uma forma que eu não imaginava que fosse tão bacana”.

Com a mudança radical na educação com a pandemia da Covid-19, André saiu das salas de aula para fundar o clube com seu filho. Douglas usa óculos marrom e compartilha dos mesmos olhos claros do pai. Ele é quem lidera o encontro de hoje, com um tema muito próximo ao seu trabalho: a fotografia de alimentos e bebidas. Como filho, seguiu para uma área publicitária diferente da de André, mas pai e filho ainda se alinham sempre que o assunto é fotografia. “As linguagens são diferentes, mas o modo de pensar não. É o antes de clicar, olhar”, afirma Douglas.

No analógico, tirar foto é um processo longo, fora as limitações. Com apenas 36 fotos por filme, é obrigação do fotógrafo saber de técnica para garantir uma boa imagem — caso este tenha apreço pelo valor e material. Depois, esperar por um processo químico que envolve revelador, interrompedor, fixador, água fria e secagem do filme.

Pai e filho acreditam que a melhor foto, por mais digital que seja, é aquela com um pé no analógico. Para eles, existe ainda uma concepção muito errônea das pessoas de acharem que o digital torna a foto mais automática.

 

André e Douglas compartilham a vocação pela fotografia. Foto: Arquivo pessoal

A fotografia ainda é um processo que envolve criatividade, cálculo, precisão e reflexão. André, apegado à sensibilidade que a foto leva, acha que banalizar um processo, tão minucioso e intrínseco à essa arte, é uma das carências da evolução tecnológica. “Eu acho um pouco cruel. Pelo valor do clique, pela autoria da imagem. Isso se perdeu um pouco”, critica.

O que faz uma pessoa tirar foto? “É uma coisa que você tem ou não”, defende André. “Tem pessoas que se juntam para andar de bicicleta, outras para fazer trilha, e tem pessoas que se juntam para sair e fotografar”.

Participaram do clube em 29 de agosto um professor aposentado, um advogado, dois homens que trabalham com logística e apenas uma mulher, que trabalha com Marketing e usa a fotografia no trabalho, a Fernanda.

Douglas ajusta a luz contínua, enquanto Fernanda tira fotos. Guto e Márcio esperam logo atrás. Foto: Iara Rocha

O advogado Márcio começou a aprender fotografia na mesma época que André, e hoje vem pro clube não necessariamente para aprender, mas por lazer. “É meu momento de psicanálise”. Guto, que trabalha com logística, diz que é seu ‘hobby terapêutico’. Aos 37 anos, é um dos mais novos no clube e o mais novato com a ferramenta, iniciou quando pegou a câmera ‘parada’ do pai ano passado.

No começo, era isso que André e Douglas queriam. “A fotografia tem esse poder de conexão, de interação, de perder a timidez. É uma potência artística gigante”, afirma o filho. Essa troca entre diferentes pessoas é o que faz a engrenagem do Elo continuar viva. “A foto contagia”.

Em 14 de setembro, o Elo Fotoclube completa dois anos. Um grupo que realiza dois encontros por mês, em lugares distintos de Florianópolis, com estilos diversos para quem gosta de fotografar. Esse nome, Elo, eles explicam que vem do laço entre um pai e um filho e da relação dos dois com a câmera. “Eu sinto que tem um caminho gigante pela frente do Elo. Esse é o nosso objetivo”, assegura Douglas, e seus olhos sorriem por trás dos óculos.

Iara Rocha

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.

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