Samarah Susie e Victor Hugo Viegas

Em maio de 2026, foi iniciada uma revitalização polêmica que transformou a antiga estrutura da Concha Acústica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em um monumento em homenagem aos 40 anos do Movimento Sem Terra (MST) em Santa Catarina. A obra gerou manifestações de repúdio de políticos e influenciadores de direita no estado em vídeos para as redes sociais. No entanto, o assunto rapidamente perdeu relevância, a obra continuou e o debate que poderia partir deste fato, envolvendo o apagamento dos espaços culturais na universidade, não aconteceu.
A Concha Acústica esteve presente no dia a dia de quem frequentava a UFSC por pelo menos vinte anos. Inaugurada em 1994, consistia em um palco de concreto com uma estrutura circular que garantia a acústica para os shows realizados no campus. Foi usada para apresentações de todos os tipos: música, saraus, teatro e manifestações. Chegou a integrar a programação cultural fixa da UFSC, por meio do projeto 12:30 — todas as quartas-feiras, apresentações gratuitas ocupavam o horário do almoço, atraindo estudantes, servidores e visitantes. A iniciativa reuniu centenas de artistas e um público anual estimado em mais de 10 mil pessoas.
Se por duas décadas o local foi motivo de orgulho e se tornou um exemplo de espaço cultural democrático para a comunidade universitária, há mais de dez anos foi esquecido e segue fora do radar de discussão na Universidade. Com a estrutura desgastada, o uso precisou ser restringido e a desativação definitiva ocorreu em meados de 2014, apesar de manifestações estudantis pedirem uma reforma. A estrutura foi retirada definitivamente em 2018, por apresentar risco de queda, restando apenas o palco, de concreto, descaracterizado.

Desde então, a Concha Acústica seguiu na UFSC um caminho parecido com o do Centro de Convivência. Teve momentos de uso independente, promessas de revitalização, se tornou pauta de várias chapas em eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e a Reitoria, mas um projeto de reforma nunca foi, de fato, colocado em pauta e em prática.
Para Andréa Ventura, da Secretaria de Cultura, Arte e Esporte (SeCArtE), a discussão sobre o futuro da Concha não envolve apenas a recuperação física da estrutura, mas também a sua localização dentro do campus. “O principal motivo do desmonte da Concha original era o local, porque ela ficava bem de frente pro CCE [Centro de Comunicação e Expressão] e as dinâmicas mudaram com o tempo. Agora tem aula e trabalho em horário de almoço e o barulho atrapalhava as pessoas”, justificou em entrevista feita no mês de maio.
Além disso, uma das razões que teriam levado ao fim da Concha como local de apresentações foi a falta de público observada no período imediatamente anterior à desativação. “No final, você passava ali e tinha três, quatro pessoas vendo a apresentação. Era muito caro e dava pouco público”, diz Andréa.
Passados mais de dez anos sem propostas sólidas de reforma, o que restou da Concha foi a estrutura de concreto, usada pelos estudantes como local de descanso nos intervalos, sem que soubessem que antes existia ali um dos mais importantes equipamentos culturais da universidade. “Eu já frequento o CCE e a cafeteria faz pelo menos dois anos e não tinha ideia que ali era um lugar de shows”, afirma o estudante de Matemática da UFSC, Juan Cuello.
Revitalização Inesperada

No início do primeiro semestre letivo, a UFSC passou por uma eleição polarizada para a reitoria, na qual pouco ou nada foi debatido sobre pautas de cultura, e locais como a Concha Acústica e o Centro de Convivência não tiveram qualquer protagonismo nas discussões.
Em maio, uma união entre a UFSC, a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e o MST resultou no projeto Pontes da Esperança, que, para comemorar os 40 anos do movimento em Santa Catarina, promoveu uma série de atividades. Além de oficinas e palestras, o coletivo teve a ideia de realizar uma intervenção artística, com a construção de um monumento que celebrasse a parceria entre a Universidade e as lutas populares. O local escolhido foi a antiga Concha.
Apesar da inexistência de uma assembleia, consulta pública ou discussão no Conselho Universitário, o pedido do projeto foi aprovado pela SecArte e pela reitoria e a obra teve início em maio. O galês Dan Baron, artista plástico responsável pelo projeto, afirma que a proposta prevê uma nova estrutura inspirada no modelo original da Concha, mas adaptada a conceitos contemporâneos de sustentabilidade e integração com o ambiente. A base de concreto será reforçada e um mosaico será montado. Os recursos para a obra são estimados em R$ 200 mil, provenientes de emenda parlamentar do deputado federal Pedro Uczai (PT).
A polêmica em torno da obra se resumiu a manifestações de figuras políticas, páginas e influenciadores de movimentos de direita da cidade e do estado, além de uma nota de repúdio da Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF). Entretanto, mesmo com algumas pessoas tentando classificar a pauta como “escândalo” ou “injustiça política”, o debate não se popularizou e logo foi esquecido.

Futuro incerto
Enquanto o Pontes da Esperança transformou o local em monumento, a promessa da construção de uma nova Concha Acústica na UFSC segue no papel. O novo reitor, Amir Oliveira, que tomou posse no dia 06 de julho, ao ser questionado pela reportagem, reafirmou compromisso com a cultura e os equipamentos culturais. Sobre a concha especificamente, disse: “Aquele local precisa ser devidamente avaliado. Pelos aspectos estruturais e funcionais. A recuperação não parece ser uma saída válida. Mas as atividades e projetos que ali já ocorreram podem e devem ser acolhidos na sua essência, de modo a oferecer alternativas de lazer cultural e artístico no campus.”
Andréa Ventura, da SecArte, confirmou que a nova reitoria entrou em contato com a Secretaria ainda durante o processo de transição e disse que a mudança de local e construção de uma nova concha vão depender principalmente da captação de orçamento específico para a obra. Isso já ocorreu em casos recentes na UFSC, como a futura transformação do auditório da reitoria em uma sala de cinema para a comunidade. “Já estamos pensando em outro lugar para ela [Concha Acústica], mas não está na lista de prioridades, nem para projeto arquitetônico, nem para recursos do orçamento”.
A previsão para a inauguração do monumento no local da antiga Concha Acústica era para o final do primeiro semestre de 2026, ficando pronta para a volta às aulas, em agosto. A dúvida sobre o futuro da concha, que agora perde em definitivo também o local onde esteve por mais de 20 anos, não foi respondida pela gestão atual da reitoria. Assim como outros equipamentos culturais da UFSC, resta saber se seu futuro será seguir, apenas, como memória.

Reportagem produzida para a disciplina de Jornalismo Especializado em Cultura e orientada pela professora Tattiana Teixeira.





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