Ibrahim Khan

Escritor, editor e curador, Carlos Henrique Schroeder divide seu trabalho entre a criação literária e a organização de espaços dedicados à circulação da literatura. Em 2026, foi curador da Bienal Internacional do Livro de Jaraguá do Sul e participará do projeto Biblioteca Inquieta, do Serviço Social do Comércio de Santa Catarina (Sesc-SC), que promove residências literárias.
Natural de Trombudo Central, no interior de Santa Catarina, Schroeder é autor de As certezas e as palavras (2010), As fantasias eletivas (2014), História da Chuva (2015) e Aranhas (2020). Seus livros já foram apresentados em espaços como a Sorbonne, na França, a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, e a Casa Catalunya, na Espanha. Schroeder também atua há quase duas décadas na curadoria de eventos literários e já ministrou oficinas de criação em diferentes estados brasileiros.
Em entrevista, Schroeder fala sobre sua formação como leitor e escritor, detalha seu processo criativo e reflete sobre os efeitos dos prêmios em sua carreira, o mercado editorial e a produção literária fora do eixo Rio-São Paulo.
O Caderno Expressões ouviu Schroeder por videochamada, no começo da tarde de uma sexta-feira.
Caderno Expressões – Como foi o começo da sua trajetória na literatura? Em que momento você percebeu que a escrita poderia deixar de ser apenas um interesse e se transformar em carreira?
Carlos – Desde a mais tenra idade, sempre tive facilidade para me expressar de forma escrita, até melhor do que de forma oral. Quando era criança, meu grande sonho era ser quadrinista, por que eu gostava muito de histórias em quadrinhos. Gostava de escrever histórias e fazer os quadrinhos, os balões de fala. Quando começo a entender a literatura e aquilo que ela pode fazer dentro de uma pessoa, é que ela entra de fato na minha vida. Comecei a pensar: “Poxa, acho que quero isso para mim”.
Minha falecida avó, foi minha primeira grande incentivadora. Ela e meu avô tinham uma biblioteca muito interessante, com Flaubert, Guy de Massapant, vários clássicos franceses e coleções de vencedores do Prêmio Nobel de Literatura. Eu era um dos netos mais velhos e não conseguia me conectar com os primos mais novos, então passava boa parte da adolescência com o nariz enfiado nos livros.
Em paralelo, na casa da minha avó materna, nas horas vagas eu lia uns livretinhos de faroeste. Meus tios eram alcoólatras, e dois moravam com a minha avó. Quando não estavam bêbados, ficavam lendo essas historinhas de faroeste, e eu também passei a dividir esse meu tempo lendo essas histórias. Foi por ler essas coisas que comecei a escrever contos para lá e para cá e não parei mais. Chegou uma fase, aos 20 anos, em que comecei a entender: “Opa, acho que tem algum sentido nisso que estou produzindo, tem algum valor”.
Caderno Expressões – Qual é o gênero literário com que você mais se identifica?
Carlos – É o conto. Minha zona de conforto é o conto. Tenho muita facilidade e gosto muito. Poderia escrever dois, um de manhã e um à tarde. Um à noite, tranquilamente, se o tempo me permitisse, se as obrigações corriqueiras da vida não me não me ofuscassem. Eu poderia passar a vida escrevendo contos.
Mas chega um momento em que algumas histórias não cabem dentro de uma narrativa breve. Elas têm outras ramificações e aí tenho que mergulhar na novela ou no romance. Às vezes fico anos imerso em uma. Meu último livro é de 2020. Não estou preocupado com essa angústia da relevância, de ter que ficar publicando e aparecendo. Estou preocupado é com o processo mesmo. Estou trabalhando há seis anos em um livro, entendendo no que ele se desdobra e a forma como vai se desdobrar.
Qual é o sentido de você perder seis anos escrevendo a porcaria de um romance que não sabe se as pessoas vão ler, se vai ser publicado? Então, querendo ou não, acho que o escritor é um grande otimista. Os personagens podem ser pessimistas, mas acho que o escritor é um grande otimista.
Acho que não deveríamos mercantilizar e acelerar tudo isso. O mundo digital já nos acelera de tantas formas, a rotina tenta nos acelerar, mas a escritura ainda é um processo que pede artesania, uma ourivesaria. Você precisa voltar ao texto, aos personagens, à estrutura, ler os contemporâneos, mas voltar aos clássicos sempre.
Caderno Expressões – Em 2010, você recebeu o Prêmio Clarice Lispector por As certezas e as palavras. O que mudou na sua carreira depois dessa premiação?
Carlos – Em termos materiais e de visibilidade, mudou. Em termos de entendimento da escrita e da pesquisa, ainda sou o mesmo cara de 2010, com o mesmo encantamento. Tenho o mesmo encantamento e a mesma ingenuidade daquele Carlos Schroeder que deixa de dormir para ficar escrevendo um conto ou um romance.
A Editora da Casa era uma editora que eu tocava com alguns amigos. Era muito pequena, feita de proximidades. Não deixava de ser quase uma autopublicação, porque era um livro da minha editora. Quando o livro recebeu o Prêmio Clarice Lispector, ele me deu uma certa visibilidade. Uma agente literária me procurou, gostou do livro e me apresentou aos editores da Record. Então, de certa forma, o prêmio me levou a uma editora maior. Hoje desencanei um pouco dessa questão de prêmio. É claro que é legal quando se ganha, mas a gente não deve se pautar por isso.
Caderno Expressões – Você é um autor de fora do eixo Rio-São Paulo. Isso influenciou a maneira como você escreve ou como conquistou espaço no cenário da literatura nacional?
Carlos – Acho que somos influenciados por tudo e por todos. Tem uma frase, que acho que é do Gonçalo Tavares, que diz: “Prefiro ser influenciado por mil autores do que por um só”. Estou nessa também. Gosto de me influenciar e procuro me influenciar. Somos a soma das nossas referências. Tudo aquilo que vivi no interior de Braço do Trombudo, Trombudo Central, os anos que morei em Rio do Sul, em Agrolândia e os anos que estou em Jaraguá do Sul, tudo isso acaba nos influenciando. A sonoridade, por exemplo. Moro muito perto do rio aqui em Jaraguá do Sul e tem uma ponte que atravesso todos os dias. Todos os dias, quando passo, o rio está com outra coloração, outra forma, outro volume de água. Isso para mim é um exercício.
Tudo me influencia. Agora, a gente tem que saber o que fazer com essas coisas. É muita coisa. Você bota tudo dentro do liquidificador e bate, mas precisa saber o que fazer. Também é importante buscar referências e saber onde está pisando. A literatura tem uma linha do tempo muito clara. Não vou inventar a roda. A literatura também é um terreno de reverência, em que precisamos reverenciar quem veio antes da gente e aprender com eles.
Caderno Expressões – Como funciona seu processo de criação? Você costuma saber a história inteira antes de começar ou a descobre enquanto escreve?
Carlos – Cada vez estou mais lento em relação aos processos. É sempre em camadas, nunca é uma coisa horizontal, é sempre um mergulho. Tenho um conto chamado Tempo que resta, em As certezas e as palavras. A história nasceu de uma viagem que fiz. Voltando de uma palestra, passei de ônibus por uma região próxima a Imbituba e vi uma família acendendo uma vela e rezando nos trilhos do trem. Aquela imagem ficou comigo durante muito tempo.
Anos depois, passei por pequenas localidades que estavam recebendo asfalto e linhas de ônibus e vi toda aquela paisagem mudar. Depois me pediram um conto para uma coletânea sobre a Legião Urbana e veio a música Tempo Perdido, que eu escutava muito na adolescência. Tudo isso foi se juntando e virou o conto. As ideias vão se aglutinando e se colando. Mas meu processo de escrita é calcado na disciplina. Quando estou escrevendo um romance, é algo muito fisiológico, muito físico. Demanda muitas horas por dia no computador. Precisa ter disciplina.
Existem duas formas de contar histórias: sabendo exatamente tudo que você vai contar ou descobrindo no meio do caminho. Às vezes já sei como começar, terminar e que tipo de recurso vou usar. Às vezes não. As fantasias eletivas, por exemplo, começou de uma forma e mudou completamente quando uma personagem entrou na narrativa. Às vezes sei onde quero chegar e às vezes não. E a beleza está nesse processo de descobrir. Acho que está sobretudo em descobrir. Senão fica tudo muito matemático, muito esquemático.
Caderno Expressões – Neste ano você fez a curadoria da Bienal Internacional do Livro de Jaraguá do Sul. Como é montar uma seleção que busca dialogar com diferentes públicos?
Carlos – Em 2027 completo 20 anos fazendo curadoria de eventos. Em 2007 fiz a curadoria da primeira Feira do Livro de Jaraguá do Sul. Então já tenho certa experiência. A curadoria é muito interessante porque os autores que preciso escolher não são necessariamente os autores do meu gosto pessoal. Tenho um dever como curador: atender uma demanda da cidade, do município e do público-alvo do evento.
A Bienal foi pensada para leitores iniciantes, intermediários e avançados. Então eu precisava atingir esses três nichos. Foram meses de trabalho para chegar aos nomes. Precisávamos ter autores internacionais, nacionais, alguém mais ligado à cultura pop e também trazer autores catarinenses relevantes. Como curador, preciso conectar uma programação internacional e nacional e também dar espaço para os autores do estado. É sempre muito difícil, porque, quando você escolhe alguém, naturalmente deixa de escolher outra pessoa.
O curador tem o dever de atender essas demandas primárias e fazer com que o evento tenha público e repercussão. Se fosse para trazer apenas autores do meu gosto pessoal, certamente não teria um grande público. Ficaria super nichado. Foi muito trabalhoso, mas também adoro receber essas pessoas. Sou um cara que fica trancado escrevendo, lendo e fazendo texto o dia inteiro. Quando tenho a oportunidade de receber um monte de gente, conversar em outros idiomas e encontrar outras formas de pensar, é genial.





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