As estações de uma palhaça

Das primeiras apresentações no semáforo à popularidade nas redes sociais, a trajetória de Vitória Lizo e da Palhaça Filomena atravessa trabalho, afeto e identidade

Ibrahim Khan

“Eu tenho muita sorte de trabalhar com algo que sonhei desde criança”, diz Vitória Lizo. Foto: Acervo Pessoal

À noite, a neblina esconde o topo dos arranha-céus e espalha o brilho das luzes pelas ruas de Balneário Camboriú (SC). No Calçadão Central, uma palhaça surge com bambolês apoiados no ombro e um tripé debaixo do braço; na outra mão, puxa uma mala de rodinhas. Ela chega sozinha, mas não passa despercebida: é cumprimentada por comerciantes e outros artistas que trabalham por ali. Ela retribui as simpatias, ergue o tripé, encaixa o celular e inicia uma transmissão ao vivo. Em seguida, retira da mala uma lona, bolas, clavas, balões e um banquinho. Pouco a pouco, os objetos ocupam o espaço e transformam aquele trecho do calçadão. É entre uma loja de chocolates e um carrinho de pipoca, que a Palhaça Filomena, interpretada por Vitória Lizo, monta seu picadeiro.

Cinco minutos depois, um garoto passa brincando com uma bola. Ele para, põe a bola debaixo do braço e observa a palhaça de longe. Filomena percebe a curiosidade, acena e rompe a distância com uma pergunta: “Você quer um balão?”. O garoto se aproxima. Enquanto conversa com ele, a palhaça retira da mala um balão comprido, enche-o com uma bomba manual e, com algumas torções, dá forma a uma espada. Entre uma interação e outra, conversa com quem acompanha a transmissão ao vivo.

Filomena foge da imagem convencional do palhaço: não usa sapatos grandes, peruca nem nariz de borracha. As tranças e os cachos são naturais, a maquiagem é simples e o nariz é pintado diretamente no rosto. O chapéu vermelho, a gravata roxa e algumas peças comuns do guarda-roupa compõem o figurino colorido da palhaça. A personagem chama atenção pelo visual menos caricato e pela simpatia com que aborda quem passa.  “Ela é muito alegre e natural. Às vezes, você tá num dia ruim e, quando passa por aqui e vê ela, abre um sorriso. É revigorante”, diz Ítalo Henrique, empresário paulista que frequentemente visita Balneário Camboriú a trabalho.

Durante a apresentação, a Palhaça Filomena improvisou uma oficina de bambolês. Foto: Ibrahim Khan

Às 19h10, várias crianças se reúnem ao redor de Filomena. A palhaça distribui bambolês entre elas e se junta à brincadeira, ensinando alguns truques. Passados alguns minutos, a maioria das crianças vai embora, mas Davi Policeno, curitibano de 10 anos, permanece e pergunta se a palhaça sabe fazer malabares. Ela pega três bolas pequenas e começa a jogá-las no ar. O garoto dá alguns pulinhos e diz que quer aprender. Filomena empresta suas bolas e diz que vai ensiná-lo, enquanto isso a família sorri e acompanha as tentativas.

“Gostei do carinho e da paciência dela. Ela é legal. É uma menina prodígio aí no mundo do circo”, diz Davi. “E você sabe o que é uma menina prodígio?”, pergunta a avó, Ivonete Policeno. O garoto faz questão de responder na hora: “Claro que sei, né, vó? Ela é boa no que faz. É mais ou menos isso, né?”.

Pouco tempo depois, Filomena começa a guardar seus objetos de trabalho de volta na mala. Antes de encerrar a transmissão, aproxima-se do celular e cochicha para os espectadores: “Tem um jornalista acompanhando meu trabalho hoje”. Depois de dobrar a lona e colocá-la na mala, agradece e termina a live. Naquela noite, o expediente durou até às 19h50, menos que o habitual, que costuma prolongar até depois das 22 h. Perguntada sobre o motivo, responde, rindo: “Senti um pouco de pena de você. Não queria te deixar plantado no banco”.

A primavera de Vitória

Um dia antes daquela noite no Calçadão Central, Vitória Lizo conversou com a reportagem em uma cafeteria no centro de Balneário Camboriú. Sem o figurino e a maquiagem, falou em voz baixa e manteve uma postura mais reservada enquanto compartilhava um pouco de sua história.

Vitória Lizo compartilha um pouco de sua vida profissional e pessoal nas redes sociais. Foto: Instagram

Nascida e criada em Balneário Camboriú, Vitória tem 26 anos e se interessou pelo mundo artístico desde cedo. Durante a infância, fez aulas de teatro por meio do Instituto Sentir e do Projeto Oficinas, no Centro Educacional de Atendimento no Contraturno. A música também esteve presente em sua infância. Seu pai, pastor e integrante na banda da igreja Renovo de Deus, encorajou-a a fazer aulas de canto para que também pudesse apresentar louvores nos cultos.

Quando adolescente, trabalhou como auxiliar de recursos humanos pelo programa Jovem Aprendiz, mas foi demitida na primeira semana. “Eles não falavam nada. Pensei que estava fazendo tudo certo, mas daí me chamaram no escritório e gritaram que estava tudo errado, que eu não fazia nada direito. Foi bem traumático”, lembra. Depois dos 18 anos, passou por outros empregos: foi atendente em uma loja de chocolates e em uma ótica, deu banho em cachorros em um pet shop e vendeu brigadeiros caseiros na rua. “Sempre tive dificuldades com esses trabalhos de carteira assinada, não ficava muito tempo no mesmo lugar”, diz.

Durante a primavera de 2023, Vitória passou três meses como voluntária no Paraíso Hostel, na Praia do Rosa, em Imbituba (SC). Em troca do trabalho, recebia hospedagem. “Foi uma época bem transformadora. Pude treinar bastante bambolê e foi quando comecei a fazer um curso de palhaçaria em Garopaba”, lembra. Ao mesmo tempo, o interesse pelo malabarismo foi estimulado pela mãe, que enviava vídeos de artistas de rua se apresentando nos semáforos. Suas primeiras tentativas foram com limões.

O curso a que Vitória se refere era uma oficina experimental de palhaçaria realizada no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), como parte do projeto Risonautas. O gaúcho Diego Deodato, formado em artes visuais e atuante na prática circense desde 2010, foi convidado a ministrar as atividades. “Pelo que me lembro, entraram cerca de 15 pessoas. Ficaram oito até o final. Duas atuaram como palhaça depois. Uma delas foi a Vitória”, relata Diego. Ele diz que a oficina priorizava exercícios de descoberta artística em vez do ensino de técnicas rígidas. “O palhaço é um estado de energia. A ideia era que o aluno descobrisse sua energia de palhaço”, diz.

Os Risonautas. Vitória está no centro, agachada e com um bambolê. À Direita, com as mãos apoiadas nas pernas, está Diego Deodato. Foto: Instagram

Na pousada, os treinos de Vitória chamaram a atenção do argentino Daniel Matar, que administra o local com sua filha. Ele lembra que a artista passava o dia inteiro praticando bambolês e que ela criou vínculos de amizade com toda a equipe. Certa vez, Vitória voltou caracterizada da aula de palhaçaria, usando um nariz de palhaço e com o cabelo preso em duas “marias-chiquinhas”. “Quando vi ela daquele jeito, falei: ‘Vic, você me fez lembrar da Payasa Filomena, lá da Argentina, que apareceu na televisão’”, diz Daniel. A referência era a participação da palhaça interpretada por Nina Lenze, em uma ação do Ministério da Saúde da Argentina no Dia das Crianças, durante a pandemia, voltada a orientar o público infantil sobre a quarentena.

Segundo Daniel, às vezes Vitória desaparecia de repente e reaparecia caracterizada como Filomena, interagindo com a equipe e os hóspedes da pousada. “Lembro da Vic dizendo: ‘Agora sou a Palhaça Filomena’. Jamais imaginei que ela adotaria o nome”, diz. Certa vez, ela voltou de Garopaba com um nariz de palhaço extra e passou a colocá-lo em Daniel de vez em quando. Quando estava caracterizada, chamava-o de “papito”, como demonstração de afeto por ele ter nomeado a personagem.

Mas a convivência também teve momentos de conflito. Daniel lembra que, em uma ocasião, perdeu a paciência com as dificuldades de Vitória em realizar tarefas na cozinha, como cortar batatas e cenouras. “Fiquei irritado e gritei. Ela chorou e depois me entregou uma carta de desculpas. Guardo essa carta comigo até hoje”, relata. Depois de ler a mensagem, ele se sentiu mal pela forma como havia reagido, pediu desculpas e os dois se reconciliaram.

Na primavera de 2023, Garopaba recebeu diversas atividades ligadas às artes circenses. Entre elas estavam o Primavera em Cena, organizado pelo Coletivo Das Flor, e o Sarau de Primavera, promovido pelo Quintal do Encanto, do qual Vitória participou. Ainda em outubro, fez uma apresentação de bambolês no Sarau Quintal, em Balneário Camboriú. Ao voltar a sua cidade, passou a dedicar mais tempo ao trabalho artístico e a se afastar gradualmente dos empregos que costumava ter. A primavera é frequentemente associada à renovação e à transformação. Para ela, aquela primavera marcou a descoberta de um novo estado de ser.

A apresentação no Sarau Quintal ocorreu na Praça Higino João Pio. Vitória se apresentou duas vezes no mesmo dia. Foto: Instagram

O verão de Filomena

No começo, a plateia era de motoristas e passageiros parados no sinal vermelho. Seu palco cabia no intervalo de uma troca de cores. Com o trânsito parado, Filomena se apresentava sobre o asfalto, fazendo malabarismos e truques com bambolês. Nos últimos segundos do vermelho, recolhia seus materiais e passava o chapéu entre os carros. Quando o verde brilhava, voltava para a calçada, de onde interagia com as pessoas que a acompanhavam pela transmissão ao vivo.

Além das apresentações no semáforo, Vitória trabalhou com bambolês no Barco Pirata, atração temática de Bombinhas (SC) bastante procurada durante a temporada turística. Nesse período, passou a frequentar mais os espaços e eventos circenses da região. Por meio de uma amiga, conheceu a gaúcha Jacqueline Martinez, conhecida artisticamente como Jacques Babalu, produtora cultural e idealizadora do projeto Temos Circo, que reúne artistas circenses locais.

As duas se aproximaram, e Jacqueline começou a convidá-la para diferentes apresentações de seu projeto. Uma delas foi a peça teatral Baú Mágico, na qual Vitória interpreta A Menina, protagonista da trama. O espetáculo narra, de forma lúdica, a trajetória de uma criança que dá vida a um baú de brinquedos por meio da imaginação. “Estava realizando um sonho e fiquei comovida com a atuação da Vitória. Realmente, aquele papel não poderia ser feito por mais ninguém. Parecia até que a personagem tinha sido escrita especificamente para ela”, lembra Jacqueline.

O Baú Mágico. À esquerda, Vitória interpreta A Menina. À direita, Jacqueline Martinez dá vida à Borboleta. Foto: Instagram

Nesse período, Vitória conheceu o argentino Maximiliano Echavarría, artista de rua itinerante que interpreta o Payaso Koky há mais de dez anos. “Acho que era na época da Páscoa, porque lembro que a cidade estava bem enfeitada. Nós estávamos trabalhando na Praça Tamandaré, ela de um lado e eu do outro. Daí pensei: ‘Por que não trabalhar juntos, se somos dois palhaços?’. Foi assim que a gente se conheceu”, relata Maximiliano. Os dois desenvolveram uma parceria profissional e fizeram algumas apresentações juntos. Ele ensinou Vitória a moldar balões em diferentes formatos, enquanto ela o ajudou a utilizar as redes sociais para divulgar o trabalho.

Payaso Koky e Palhaça Filomena realizando uma apresentação beneficente em Camboriú. Foto: Instagram

A familiaridade de Vitória com as redes sociais vinha de antes. Ela já fazia transmissões ao vivo no TikTok antes de atuar como palhaça, quando ainda dava banho em cachorros em um pet shop. O público, porém, cresceu depois que ela passou a interpretar Filomena. Em maio de 2026, suas redes somavam cerca de 40 mil seguidores. No início de agosto, reuniam mais de 200 mil no Instagram e 150 mil no TikTok. As transmissões ao vivo costumam ultrapassar mil espectadores simultâneos. “Meus perfis cresceram bastante quando um vídeo contando quanto dinheiro consegui no semáforo viralizou”, lembra.

Em suas redes, a artista costuma publicar cortes das transmissões, reflexões sobre o próprio trabalho e episódios de sua vida pessoal fora da personagem. É nessa linha tênue entre atuação cênica e influência digital que Diego Deodato, que ministrou a oficina frequentada por Vitória, situa o trabalho de Filomena. “O trabalho que vejo é o de influencer, como se fosse a figura da palhaça sendo uma influenciadora”, avalia. Acostumado a uma prática construída no encontro presencial, Diego considera a presença física, a energia e as circunstâncias do momento elementos centrais do ofício. “É muito difícil fazer palhaçaria através de uma tela”, afirma. Ele reconhece, porém, que esse universo comporta múltiplas possibilidades e vê no trabalho de Filomena um modo diferente de expressar essa linguagem artística.

Na prática, a rua e as redes ocupam o mesmo expediente. Vitória costuma trabalhar à noite e prefere se apresentar no Calçadão Central, onde o movimento de pedestres e o comércio fazem com que se sinta mais segura. Durante as apresentações, divide a atenção entre quem se aproxima na rua e o público que acompanha a transmissão pelo TikTok. “No começo era mais difícil equilibrar os dois públicos. Percebi que quem assiste pelo celular, gosta de ver a minha interação com as pessoas na rua”, diz. Em dias de chuva, prefere não se apresentar ou encerra a performance mais cedo.

Vitória e Filomena compartilham o mesmo guarda-roupa. Em vez de vestir o figurino tradicional de palhaço, a artista mistura diferentes peças até encontrar uma composição que combine com a personagem. A maquiagem também é simples: base branca no rosto, um coração é desenhado em cada bochecha, os olhos recebem brilho e sombra colorida, e o nariz é pintado diretamente sobre a pele. Para ampliar o repertório das apresentações, ela compra novos materiais e dedica parte da rotina ao treinamento de outras habilidades, como tocar ukelele e andar de monociclo.

Vitória demora cerca de 30 minutos para se transformar em Filomena. Foto: Acervo Pessoal

Como outros artistas de rua, Vitória depende da contribuição espontânea do público. Nas apresentações presenciais, o dinheiro vem das contribuições deixadas no chapéu; nas transmissões ao vivo, das doações enviadas pelos espectadores. Atualmente, ela afirma arrecadar mais com as lives do que pelo chapéu.

Vitória deixou de se apresentar nos semáforos por questão de segurança. Ela diz ter presenciado situações perigosas e ouvido relatos de outros artistas de rua que trabalhavam entre os carros. “O semáforo é onde eu acho que é mais perigoso. Você pode ser atropelado, ainda mais quando encontra um motorista embriagado ou nervoso. Já aconteceu de eu ser xingado e ameaçado”, relata Maximiliano.

Para mulheres que trabalham como artistas de rua, os riscos não se limitam ao trânsito ou à instabilidade da renda. Durante as apresentações, Vitória também precisa lidar com aproximações invasivas e situações de assédio. “Quando alguém vem me abraçar ou tocar, principalmente homem, eu já corto na hora”, diz. Nas transmissões e nas ruas de Balneário Camboriú, alguns homens comentam repetidamente sobre sua aparência e insistem em conseguir seu número de telefone, mesmo depois de ela deixar claro que não pretende passá-lo.

A exposição de Vitória continua depois que sai da rua. Pela seção de comentários, pelas mensagens diretas do Instagram e pelo WhatsApp comercial, ela recebe abordagens insistentes e mensagens de teor sexual. “Como irmã, fico preocupada. Também vejo que a Vitória fica abalada quando recebe esse tipo de mensagem”, afirma Brenda Lizo, irmã da artista.

Segundo Daiani Brum, pesquisadora da palhaçaria feita por mulheres, a violência contra as mulheres é estrutural no Brasil. No campo da palhaçaria, ela explica que parte do repertório tradicional foi construída por homens e para homens, com cenas em que mulheres aparecem ridicularizadas e objetificadas. A sua análise permite compreender a sexualização sofrida por palhaças como parte de uma tradição que historicamente reservou às mulheres o lugar de objeto da comicidade. Ao comentar situações de violência presenciadas na rua, a pesquisadora identifica também “uma fetichização da condição da mulher”.

Meia-estação: entre Vitória e Filomena

Há momentos em que Vitória prefere não interpretar Filomena. Quando passa por períodos difíceis, evita assumir uma personagem que precisa permanecer alegre e disponível ao público. Foi o que aconteceu durante o luto pela morte de seu gato. “A melhor parte de ser Vitória, depois de ser Filomena, é que eu posso ser invisível. A Filomena tem que estar sempre feliz, sempre sorrindo. Se a Vitória quiser ficar em silêncio, ela pode”, diz a artista em um vídeo publicado nas suas redes.

O relógio marca quase 20 h, o tempo começa a esfriar e Filomena veste seu casaco. Dessa vez, a palhaça encerrou sua apresentação mais cedo. “Sei que você deve ter perguntas, mas estou com fome. Não prefere jantar primeiro?”, questiona. Ela segue na frente, puxando a mala de rodinhas; com um tripé debaixo de um braço e alguns bambolês apoiados no outro. Um casal de Blumenau (SC), também convidado pela artista, acompanha a palhaça até o restaurante. “Lá tem umas massas muito boas, gosto do molho pomodoro”, comenta. Perguntada se é vegetariana, responde: “Evito comer carne faz alguns anos… por quê? Não me diga que até isso vai para a matéria”, brinca.

Sentados à mesa, o casal e a palhaça conversam sobre a Praia do Rosa. Ao relembrar a época em que Filomena surgiu, Vitória sorri e fala com brilho nos olhos. Depois, o assunto muda para algumas influenciadoras que ela acompanha nas redes. Entre os comentários sobre os vídeos e a vontade de produzir o próprio conteúdo, a distinção entre a artista e a personagem perde nitidez. “Gosto muito desses vídeos de vlog. Já até tentei fazer alguns”, diz. A conversa é interrompida pela filha da proprietária do restaurante, que se aproxima timidamente e pede um abraço a Filomena. Vitória retribui o gesto e posa para uma foto com a garota.

Entre um assunto e outro, a conversa chega à religião. Vitória diz que seu pai é pastor e que, quando era mais jovem, tornou-se uma conselheira para outros fiéis da igreja. “Às vezes algumas pessoas vinham falar comigo. Falavam que eram homossexuais. Eu não sabia o que responder. Não dá para você obrigar uma pessoa a ser o que ela não é. Tive conflitos internos com minha religião”.

O jantar termina, e o casal se despede. Vitória retorna ao Calçadão Central e segue até a entrada de um hotel, onde costuma pedir um motorista por aplicativo. Sentada em um degrau, fala sobre si e faz perguntas sobre a reportagem. A invisibilidade, porém, dura pouco. Enquanto conversa, é reconhecida por algumas pessoas, molda um balão, posa para uma foto e conversa com famílias que se aproximam. Antes de ir embora, sugere continuar a conversa em um bar próximo.

Vitória deixa suas coisas ao lado de uma mesa e vai ao banheiro retirar a maquiagem. Quando volta, o nariz vermelho desapareceu. Longe do movimento mais intenso do calçadão, ela reflete sobre sua personagem: “Todo mundo gosta da Filomena… não tem o que não gostar, né? Ela é fofa, querida, acolhedora…”. Perguntada sobre como enxerga as diferenças entre Vitória e Filomena, responde: “A Vitória é mais melancólica, mais quieta e reservada. A Filomena é alegre, aberta e amigável.” Naquele momento, porém, sem o nariz vermelho e à vontade, Vitória parecia reunir traços das duas descrições.

O carinho recebido pela personagem também interfere na forma como ela se enxerga. “A Filomena é mais amada, mas também faz a Vitória se sentir amada”, diz. Quando fala sobre o futuro, distingue os próprios desejos daqueles que atribui à personagem. Vitória quer terminar de construir sua casa, ajudar a família e estudar mais produção audiovisual. Filomena pretende viajar pelo Brasil e levar sua apresentação a outros estados.

“Acho que Vitória e Filomena seriam boas amigas”, diz a artista. Foto: Instagram

As caixas de som do bar começam a tocar “Sutilmente”, de Skank, e Vitória acompanha o refrão. “Essa é muito especial. Eu cantava escondida do meu pai, ele não gostava que escutássemos músicas seculares. Mas eu praticava mesmo assim, daí eu cantava para minha mãe”, lembra. Depois, comenta que é geminiana e ri da coincidência. “É até irônico né? Por causa da Filomena”, brinca, referindo-se à associação popular entre o signo de gêmeos e a dualidade.

O relógio já marca quase meia-noite, e o Calçadão Central já não tem o mesmo movimento de antes. O dono do bar recolhe os bancos e as mesas, preparando-se para fechar. A conversa chega ao fim. Vitória chama um carro por aplicativo e recolhe os materiais deixados ao lado da mesa. Ela segue até a Avenida Atlântica. O som das ondas preenche o silêncio daquela madrugada neblinosa. Antes de se despedir, vira-se com um sorriso: “Agora quem vai fazer a pergunta sou eu. Comparando a Vitória e a Filomena, o que que você achou?”.

Ibrahim Khan

Estudante de Jornalismo na UFSC, com interesse em política e nas histórias de quem encontro pelo caminho.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas publicações