Nathalia Luna

No palco, tudo é efêmero: cada fala, cada cena, cada movimento. O ator traduz a duração do tempo em gesto, voz e performance. A cada apresentação, a cena é diferente; não existe uma sequência de momentos perfeitos.
Talvez, fechar as cortinas seja eliminar o único vestígio da entrega de um ator que, por inteiro, doa corpo e alma, sem defesas. Não há como reconstituir a expressão no rosto ou a inflexão da voz apenas lendo o texto ensaiado, nem registrar em uma foto tudo aquilo que acontece em cena. O teatro nasce do detalhe que ninguém registrou.
Um monólogo é a primeira chance de um ator revelar sua personalidade em cena. Jamil Vigano é ator e produtor cultural de Florianópolis e explica que agências de elenco e produtoras costumam pedir um vídeo de apresentação: um monólogo de no máximo um minuto. “Tem que chamar a atenção, tem que fisgar a pessoa. Mesmo que você não fale nada, tem que convencer”, diz. Para o ator, é preciso mostrar que está pronto: “Atuar é esse desafio de te colocar à prova”.
O “artista camaleônico”, como ele mesmo se define, é formado em interpretação para TV, cinema e teatro pelo JP Instituto. Atuou em musicais da Cia Grito de Teatro e, em 2022, venceu o concurso Voz Diversa, da Acontece Arte e Política LGBT. Também trabalha como escritor, diretor de produção e coreógrafo, além de ser jurado da banca do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de Santa Catarina (SATED/SC)
A vida em cena
Filho de pais evangélicos, Jamil nasceu em uma comunidade tradicional do Campeche, em Florianópolis. Desde criança, teve uma ligação forte com a arte. O pai cantava em terno de reis e a mãe era rendeira. Entre seus sete irmãos mais velhos está Joel Vigano, professor de teatro; a irmã mais nova, Julie Vigano, também é atriz.
Na infância, teve referência de atuação. Além da veia artística da família, Jamil cresceu vendo apresentações perto de casa. No bairro onde morava, aconteciam esquetes teatrais e mostras culturais com artistas como Marcos Palmeiras e José Ronaldo Faleiro, professor de Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).
As primeiras aulas de teatro vieram aos nove anos, com o irmão Joel. “Ele foi meu primeiro diretor, muita coisa do que eu construí como ator, aprendi com ele”. Joel era severo e cobrava técnica e justificativa para as escolhas em cena. “Fazer a cena não como eu bem quero, mas entender por que a cena precisa daquilo”, explica.
Foi na Igreja Batista que teve o primeiro contato com musicais, ensaios, preparação de figurino e maquiagem. O teatro de rua no bairro e as aulas com o irmão começavam a ganhar outra dimensão. A igreja foi o pontapé para reforçar o desejo de viver profissionalmente da arte: ali, Jamil pôde cantar e atuar pela primeira vez diante de um grande público.
Aos 36 anos, Jamil decidiu deixar o trabalho com carteira assinada para viver somente da arte. Durante a entrevista, pergunto em tom de brincadeira quantos prêmios tem e aponto para ele. “Uns oito, nove prêmios. Na área da cultura, com projetos de trajetória artística, álbuns, festival, produção cultural, atuação, várias coisas.”
Fica claro para mim que Jamil captura, em sua própria trajetória, a essência de artistas que buscam seu lugar no mundo, entre as transformações da carreira e a necessidade de se reinventar. Sua história se entrelaça com o cenário da arte LGBT da capital e com a luta por pertencimento. Quando o mundo não oferece uma chance, diz ele, é preciso observar, se reinventar, criar e tentar de novo.
Jamil conta que muitas vezes se sentiu enjaulado na carreira. De um ex-professor de teatro, diz ter ouvido repetidamente que “você não pode ser muito gay, não pode mostrar que é gay, não pode assumir que é gay”. Para ele, artistas LGBT ainda enfrentam a cobrança de se provar o tempo inteiro, como se precisassem “compensar” a própria identidade.
“Temos que provar que a diversidade não é bagunça. Muitas vezes é o que a galera tem de sinônimo, que a gente vive de improviso, não estuda, que é só bate-cabelo, chegar montada”, explica. “Eles não querem ver pessoas que se desafiam, querem ver deuses, um espetáculo sem erros.”
No fim da entrevista, Jamil explica por que se define como camaleônico. “Eu sou uma fusão entre mim, pessoa física, e esse lado camaleão. Não é ruim pegar cor, sabor, temperatura, gestos, trejeitos, porque é isso que constrói.”
O lado observador do artista permite que o camaleão venha à tona. Repara nos estilos, no modo como as pessoas andam, escuta conversas na rua e chega a refazer diálogos em espanhol na própria cabeça. Guarda essas observações numa espécie de bagagem que leva a qualquer lugar. “Tudo eu pego e trago para uma catarse. O ator realmente vê o mundo de forma diferente.”
Atualmente, Jamil desenvolve uma nova dramaturgia voltada ao litoral catarinense e à cultura açoriana, com suas lendas e crenças. Também trabalha na composição de canções autorais para um futuro EP e álbum solo. Em 2027, segundo o ator, ele dará voz a Santiago, protagonista da série de animação Medievália, produzida pela Além da Imagem. “Faço a voz original de Santiago, o protagonista da série. Um jornalista palestrinha. Aquele que tenta acertar, mas comete inúmeras trapalhadas.”
O ponto de partida para muitos atores talvez seja o texto. Nas duas horas em que conversei com Jamil, percebi que o dele é a vida: o cotidiano, o mar, para onde vai quando a angústia aparece, a escrita, a criação e os momentos que não se repetem mais de uma vez, ao menos não da mesma forma, assim como no teatro. São esses elementos que Jamil recolhe pelo caminho e leva para a cena, entre tudo aquilo que um camaleão pode ser.
“Tudo eu pego e trago para uma catarse, o ator realmente vê o mundo de forma diferente“
Jamil Vigano





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