Rifferama: onde a música catarinense ganha espaço e memória

Criado pelo jornalista Daniel Silva, projeto reúne milhares de artistas e acompanha lançamentos de diferentes regiões do estado

Tamiris Flores

Daniel Silva, jornalista e fundador do portal Rifferama, durante o Festival Rifferama 2025. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Nas manhãs de sexta-feira, Daniel liga o computador sabendo que terá mais um dia cheio pela frente. Álbuns, EPs e singles lançados por artistas de Santa Catarina ao longo da semana são analisados. Ele ouve, avalia e alimenta um acervo dedicado à música independente do estado. O trabalho faz parte do Rifferama, portal criado em agosto de 2013 para catalogar produções que raramente encontram espaço na mídia.

A ideia começou a tomar forma quatro anos antes da criação do site. Em 2009, quando trabalhava no Notícias do Dia (ND), então pertencente ao Grupo RIC, Daniel observava a redução dos espaços dedicados à cultura regional. A situação o incomodava por razões profissionais e pessoais. Na adolescência, frequentava shows e acompanhava bandas locais, cultivando o desejo de escrever sobre música. Ao perceber que aquela produção não era registrada, enxergou uma lacuna. Além de divulgar artistas locais, era preciso documentar uma cena inteira.

“Como jornalista pensava: ‘Pô, por que ninguém dá espaço para a música daqui, se a gente tem tantos artistas bons e legais?’ Queria poder fazer algo. Ajudar de alguma forma”.

O Rifferama começou como um blog hospedado no Portal ND. A estrutura do jornal ofereceu visibilidade e credibilidade, embora o trabalho nunca tenha sido remunerado. Em setembro de 2016, Daniel decidiu seguir sozinho e transformou o projeto em um site independente.

Um ano depois, o músico Mayer Soares chegou a Florianópolis sem conhecer bandas ou produtores da cidade. Ele recorreu à internet para descobrir o que estava sendo produzido por aqui. Foi assim que encontrou o Rifferama. Hoje, é vocalista e baixista da banda de rock UmQuarto e anfitrião da jam session The Blues na Lagoa.

“Não conhecia ninguém. Não tinha amigos aqui, não tinha conhecidos e queria saber o que estava rolando de música na cidade. Pesquisei no Google sobre onde encontrar bandas em Florianópolis, e ele me mostrou o Rifferama”. Mayer passou a acompanhar o site e as redes sociais do projeto. Também esteve em um festival promovido pelo portal, onde conheceu algumas bandas que estavam em destaque na região.

O nome Rifferama faz referência aos gêneros que influenciaram a formação musical de Daniel. “Riff” é uma frase repetida na guitarra, elemento característico do rock e do metal. O título sugere um universo povoado por riffs, uma espécie de “rifferama”. Apesar da inspiração roqueira, o portal nunca se limitou a um único estilo. A proposta é acompanhar a produção musical de Santa Catarina, do metal ao eletrônico, do folk ao funk.

O catálogo reúne cerca de 2,5 mil artistas catarinenses. Ao longo de cada ano, aproximadamente 1,8 mil produções passam pelo levantamento do site.

O trabalho se divide em duas frentes principais: a produção de conteúdo jornalístico, com entrevistas e reportagens, e a curadoria de lançamentos.

A semana segue uma rotina. Segundas e terças-feiras são reservados à produção de conteúdo e ao planejamento. Às quartas, Daniel se dedica aos trabalhos paralelos que ajudam a financiar o projeto. As quintas ficam para o mapeamento e a divulgação de shows e eventos. Na sexta, classifica as novidades.

Boa parte das descobertas acontece pelo Spotify. Daniel acompanha centenas de artistas e utiliza ferramentas como o “Radar de Novidades” para identificar os trabalhos que chegam a cada semana. No fim do ano, o site publica uma seleção dos melhores.

Releases e sugestões são enviadas a Daniel, mas ele prefere fazer seu próprio conteúdo. Entra em contato com artistas, realiza entrevistas e dedica tempo a compreender cada banda e produção. O trabalho também o levou a atuar como jurado em eventos musicais como o Festival da Canção de Balneário Camboriú.

Durante anos, o Rifferama funcionou sem gerar renda. Em 2020, pouco antes da pandemia, foi lançada uma campanha de crowdfunding no Catarse, plataforma de financiamento coletivo. Desde então, as contribuições dos apoiadores, em sua maioria músicos, tornaram-se uma das principais fontes de sustento do projeto.

Além disso, Daniel realiza trabalhos de curadoria para eventos, presta assessoria de imprensa a artistas e atua como avaliador na plataforma francesa Groover. Apoios culturais de iniciativas como Camerata Florianópolis, 30 Por Segundo e TUM Festival também o ajudam a manter as atividades do portal.

Daniel faz quase tudo sozinho. Acumula as funções de repórter, editor, fotógrafo, gestor de redes sociais, produtor e administrador do projeto. Em troca, valoriza a autonomia conquistada ao longo dos anos. Trabalhar em casa, escrever sobre música e escolher os próprios caminhos compensam parte das dificuldades. “Imagina ter que receber ordem, me reportar a alguém. Eu faço o que quero, e quando eu quero”, diz.

A autonomia também vem acompanhada de uma visão crítica sobre a circulação da música produzida em Santa Catarina. Para Daniel, o problema não está apenas na quantidade de artistas ou na qualidade dos trabalhos, mas na dificuldade de fazê-los chegar ao público e conquistar reconhecimento dentro do estado.

“Não tem um som único de Santa Catarina. Cada região tem uma coisa. Mas falta espaço para isso aparecer. Falta conhecerem o que está sendo feito. As pessoas não têm interesse em coisa nova e, se é daqui, acham que não deve ser bom”, afirma.

A crítica se estende à cobertura da mídia tradicional. Na avaliação de Daniel, a falta de proximidade com a cultura e as músicas locais pode resultar em reportagens superficiais e pouco contextualizadas. “É nítido quando a pessoa não sabe do que está falando. Fica tudo muito raso”, diz.

Ele identifica o mesmo padrão no rádio e na televisão, onde nomes já consolidados ocupam a maior parte da programação, enquanto artistas em início de carreira ou menos conhecidos permanecem fora do radar. Para Daniel, a ausência de uma curadoria inclusiva e consciente reforça esse ciclo de invisibilidade.

Foi também a convivência com Daniel que levou Mayer a enxergar de outra maneira o papel do jornalismo na cena local. “Aprendi com ele [Daniel] a importância de apoiar o cenário musical por meio do jornalismo. Decidi ajudar o portal financeiramente, com artigos, design gráfico e produção de eventos”, afirma o músico.

Para Mayer, o foco exclusivo em Santa Catarina é um dos principais diferenciais do Rifferama. Embora existam veículos dedicados à música independente em âmbito nacional e internacional, a produção catarinense tem menos espaço nesses canais.

“Se a gente perde um espaço dedicado a registrar essas coisas, a história artística do estado vai ser contada por pouquíssimas pessoas e ficamos reféns da ideia de que Santa Catarina só tem Dazaranha. Eu adoro e respeito o trabalho deles, mas o estado é muito maior do que um único nome”, diz Mayer.

Na manhã da sexta-feira seguinte, o trabalho recomeça. Novos singles, EPs e álbuns chegam às plataformas. Daniel liga o computador para ouvir, classificar e avaliar uma parte da música produzida em Santa Catarina.

Tamiris Flores

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tenho interesse em cultura e comportamento. Gosto de ouvir histórias e conhecer novos temas.

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