A nova hera de Heitor

Espetáculo Quimera usa arte drag para discutir identidade e pertencimento

Felipe Manica Paze

Da vergonha… aos palcos. Os dois lados de um mesmo artista, Hera e Heitor. Foto: Felipe Paze.

“O que você sempre quis ser?” - foi a pergunta que girou em torno do espetáculo teatral que acompanhei no ano passado, em 23 de novembro. Intitulado como Quimera, o show é um manifesto à cultura drag e a arte brasileira. O espetáculo é estrelado pela drag queen A Nova Hera, que por trás da peruca loira estruturada e o batom vermelho marcante, está Heitor Cameu, artista que vive e respira a persona há quatro anos.

Heitor é natural de Florianópolis, do Rio Tavares, localizado na região sul da ilha, que apesar de ser um bairro da capital ainda tem um gostinho de interior para quem vive. Mas por que esse detalhe é relevante? Bom, imagine como o choque com a universidade tenha virado sua percepção de mundo de cabeça para baixo, o permitindo explorar mais sobre si mesmo, como artista e pessoa. Em especial, no processo de aceitação da sua identidade como homem gay e a construção de uma rede de apoio, que viria a ser o catalisador de sua nova “hera”.

Aos 22 anos, Heitor se formava do ensino médio como técnico de saneamento e ingressava no curso de Design da Universidade Federal de Santa Catarina. “A drag surgiu para mim a partir da imaginação que criava com os meus amigos de faculdade. A gente sempre quis se produzir e sair na Avenida Hercílio Luz montadas, mas tínhamos medo de sair assim na rua”. E claro, Heitor brinca que elas não iam sair feias, por isso praticaram por sete meses até a estreia das suas rainhas, em setembro de 2019.

O movimento drag não é só salto alto e montação, ele é um símbolo artístico e político marcado pela transgressão de gênero. Artistas como Heitor, usam da maquiagem, roupas e acessórios socialmente pré-definidos a um gênero, para impor a quebra do binário e criar uma nova identidade para si mesmos. Homem de batom e mini saia? Mulher com barba e bigode? O que é o gênero se não performance diária. “Com a drag eu me tornei tudo aquilo que um dia não pude ser”, afirma Heitor, ou Hera, ele diz que não se importa.

“Sempre fui uma criança muito performática, lembro de estar brincando com um lencinho na cabeça ou só colocar o cabelo para trás imitando minha mãe e brigarem comigo porque aquilo era coisa de mulher”. Foto: Felipe Paze.

Nesses pequenos detalhes, ao passar dos anos, tudo que envolvia o universo feminino era afastado de Heitor. O que o tornava mais tímido, envergonhado e o ensinava a guardar mais seus sentimentos para si mesmo com medo da rejeição. “E pensar que era só uma criança brincando e até se inspirando na própria mãe de certa forma e era apontado como errado. O que isso vai gerar para essa criança?”. Heitor foi o primeiro bisneto homem, criado por três mulheres, vó, mãe e tia, no colégio sempre foi muito certinho. Por um tempo, foi até colocado em uma escolinha de futebol, para jogar bola e fortalecer seu vínculo com a masculinidade. Esses elementos construíram o “garoto prodígio” que sua família queria. 

Mas elas mal sabiam que aquele menino conhecido por não dar trabalho, carregava consigo uma tragédia anunciada. “Essa responsabilidade constante junto ao fato de que sempre soube que era gay, ia me consumindo aos poucos, a única coisa que não queria era decepcionar elas (vó, mãe e tia)”. Vi muito de mim em Heitor ao longo da nossa conversa, desde pequena a comunidade de pessoas lésbicas, gays, agênero, trans e outras do espectro LGBTQIAPN+ são apontadas: como devem se comportar e quem devem ser, e por medo, aceitamos. 

Pela drag, artistas reivindicam direitos humanos, políticas públicas, representação e mundo. Foto: Felipe Paze.

As expectativas impostas, vindas até da própria família, acabam pesando muito mais em nossos ombros e carregadas pelo resto da vida. Acredito que na fase adulta, principalmente, procuramos ferramentas que nos ajudem a expressar melhor esses sentimentos que nos foram renegados. A ferramenta do Heitor é a Hera. A cultura drag age  como um refúgio para a comunidade, que encontra alívio e liberdade na montação. “É triste e revoltante pensar que a gente é privado de nós mesmos, dos nossos gostos, dos nossos sonhos por uma sociedade. Do que você sempre foi privado?”.

Quimera, por definição 

Segundo o dicionário brasileiro, “Quimera”, por definição, significa  –  monstro com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente  -  e também  -  resultado da imaginação; aquilo que habita na fantasia. O espetáculo representa justamente isso, a explosão do imaginário e um prisma daquilo que você pode ser mesmo quando lhe disseram não. No início, Hera diz que gostaria que o Quimera fosse um espaço livre para curar algo dentro de todos nós. Ao longo de três atos acompanhamos mais sobre o que é a cultura drag, o cenário LGBTQIAPN+ em Florianópolis e o processo de aceitação de um menino, Heitor.

“É um sentimento surreal poder mover as pessoas, sempre acompanho em cima do palco os rostinhos caídos e melancólicos da plateia, essa é uma história de todos nós”. Foto: Felipe Paze.

A produção, que brinca com o audiovisual usando elementos gráficos e de projeção, foi idealizada em 2023 quando Hera venceu a segunda edição do Drag Battle, competição anual sediada no Bar Opium, no centro de Florianópolis. Nele, drags competem em desafios de dança, dublagem, atuação e talento.

“Depois que me montei pela primeira vez, não havia tantas oportunidades e lugares drag em Floripa”. A cidade passava por um esvaziamento, havia o Bingo Drag Show da Suzaninha, no Franz Cabaret, o projeto multimídia Purpurina, que produzia eventualmente eventos online e resultou mais tarde no musical apresentado no Centro Integrado de Cultura, e algumas baladas do centro que abraçavam a causa. A estreia do Drag Battle, em 2022, trouxe um novo frescor para a cena, lançando novos artistas e nomes para a cidade, como: A Nova Hera.

A vencedora de cada edição ganha um “show celebratório” e é daí que nasce Quimera. “Queria fazer algo diferente, que contasse nossa história mas que ao mesmo tempo reivindicava o teatro para a drag“. O show foi produzido em apenas dois meses, com ajuda dos mesmos amigos que se montaram juntos pela primeira vez em 2019, sua haus, sistema de comunidades de artistas LGBTQIAPN+ que funciona como uma rede de apoio e aprendizado, o Teto Budá.

O espetáculo também é realizado e distribuído pela Joy Studios, produtora cultural de Florianópolis, e foi escrito por Heitor, mas apresentado por Hera. Foto: Felipe Paze.

Perguntei a ele como é estrelar o show que significa tanto para o público. Heitor compartilhou um sentimento muito gratificante da apresentação mais recente, em que também estive para acompanhar. Em uma parte de Quimera, Hera chama duas pessoas para se montar e na ocasião duas crianças, Laura e Antônia, de 14 e 13 anos respectivamente, subiram ao palco. “A gente fala tanto sobre transformar o mundo, São essas daqui que vão”.

Laurinha, prima de Heitor, se transformando em sua nova persona, Maria Tavares. Foto: Felipe Paze.

Antônia já conhecia a Hera pessoalmente, do Festival Purpurina que foi apresentado no aeroporto no mesmo ano. Ela pareceu muito apaixonada pela arte drag, minutos antes do espetáculo, trouxe até um colarzinho de presente à artista, que se tornou amuleto da sorte de Hera. “Eu espero que vocês saiam daqui inspiradas em mudar o mundo, onde a gente possa ser cada dia um pouquinho mais nós mesmos”.

Antônia deu vida a “Star” - ”Que chique e é só o começo Star, só o começo”. Foto: Felipe Paze.

“E eu quero agradecer, além de vocês por estarem aqui corajosas, às suas mães por trazerem vocês para cá e as incentivarem a consumir arte”

Drag é feito no coletivo

“É no nós que a gente faz a transformação” -  ao longo de Quimera e em nossa conversa, Hera frisava muito a importância do coletivo. Ela é muito grata à família que construiu em sua vida, ou como gosta de chamar, tetos, como o seu Teto Budá, que se encontraram na vida para além da família biológica. Esse conceito é essencial para quem é LGBTQIAPN+, é possível construir um novo lar e um senso de confiança para quem cresceu sentindo-se solitário quanto à descoberta do seu gênero e sexualidade.

Jhow Nascimento e Bruno Leodatto, filhas drag de Hera, são as adições mais recentes ao Teto Budá e apresentaram-se junto a artista na última exibição do Quimera. Foto: Felipe Paze.

Uma parte no ápice do show me tocou muito, quando a drag perguntou à plateia: “O que é aquilo que sempre foi afastado de você?”. E nessa quase terapia em grupo, assistimos a uma série de entrevistas com o “teto” da Hera, respondendo a questão:

  • “Minha vida toda fui afastado do meu amor próprio, acho que sem ele você também perde sua potência e autenticidade, boa parte da minha vida foi  –  Você não pode se amar e não é certo ser assim”
  • “Muitas coisas que eu gostava, desde pequeno, foram tiradas de mim. Elas simplesmente iam embora, principalmente eu acho, que a feminilidade”
  • “A mulher é inserida nesse papel de obediência, sempre me senti dessa forma, andando na linha. Mas não sei se realmente sou assim, nunca tive a oportunidade de pensar ou agir diferente quando pequena”
  • “Lembro que não tinha nenhum receio de colocar um pano na cabeça e, sei lá, imitar a Xuxa e quando entrei para a escola comecei a ter medo. Acho que ainda hoje, de alguma maneira, esse medo me acompanha”
  • “Por mais que tenha passado por situações em que precisasse colocar um escudo em volta do eu criança para que ele ficasse vivo, pelo menos, não o deixei morrer”

Nesse momento conseguia ouvir gemidos de choro ao meu redor. Achei por um tempo que estaria contando a história do Heitor e talvez também a minha. Mas naquele momento percebi que essa realmente é a história de todos nós. Crianças que queriam ser “Quimera”. Que brincavam de faz de conta e imaginavam o que poderiam ser, mas que se fizeram frias e duras consigo mesmas por proteção. É difícil crescer gay, precisamos do nosso teto.

“O palco acaba tirando a gente desse lugar, ele faz com que consigamos nos expressar sem falar nada. Só no olhar das pessoas, vendo que às vezes a gente tá lá representando um mundo delas que está preso”. Foto: Felipe Paze.

Heitor viveu uma jornada bem longa de aceitação, até todos da família sentirem-se confortáveis. Faz menos de um ano que ele contou para as três mulheres que o criaram, vó, mãe e tia, sobre A Nova Hera. - ”Conversa difícil se assumir uma segunda vez, né? Oi mãe, além de viado, sou drag“. Anos depois da conversa sobre sua sexualidade, apesar da primeira vez ter deixado cicatrizes, abrir o jogo sobre a Hera resultou na melhor experiência possível.

“Nunca vou esquecer da minha avó depois que contei falando  -  Heitor, então você é artista, né? É arte que você faz então”. As coisas se transformaram tanto, que hoje elas vão a todos os seus shows, inclusive estavam na plateia do que acompanhei. “Se alguém está precisando se comunicar com a família, se fortaleça, use seu teto e vá, busque esse carinho e essa troca”.

Quimera finalizou sua trajetória no Festival Internacional de Arte e Cultura José Luiz Kinceler (FIK 2025), apresentado na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em novembro. Foto: Felipe Paze.

Quis escrever sobre A Nova Hera, porque sou apaixonado pela arte drag, acredito muito no movimento como instrumento de transformação social e ativismo político na reivindicação dos direitos da população LGBTQIAPN+. Mas acredito que tenha escrito muito mais sobre o Heitor, como homem gay, sinto que não abrimos nossas próprias histórias facilmente. Parece que por dentro, sentimos constante arrependimento e vergonha do passado, por sentir que tenhamos desperdiçado nossa infância e juventude.

Heitor, num olhar mais positivo, olha para trás e afirma que é construído de tudo isso, seus medos, dores, amores, tristezas, alegrias e as pessoas que o seguem. Isso tudo forma o seu eu  -  ”Apesar do caminho tortuoso, sou grato às mulheres que me criaram e mesmo sem saberem, foram minha maior inspiração, minha vó, minha mãe e minha tia. Tudo isso me fez ser. E hoje eu sou tudo que eu sempre quis ser. Eu sou o que sou”. Posso afirmar que após o espetáculo de Hera e a conversa com Heitor, algo realmente foi curado dentro de mim.

Foram oito exibições em diferentes estados do Brasil, ao longo de dois anos, repassando história, teatro, performance e alegria ao público. E agora, qual será a nova era? Foto: Felipe Paze.

Felipe Manica Paze

Estudante de jornalismo da UFSC, gosto de escrever sobre arte, política e direitos humanos, e completamente apaixonado em contar histórias

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