Noite de cabaré

No Centro Leste de Florianópolis, artistas transformam críticas sociais em números teatrais e sustentam uma cena cultural construída na resistência

Raissa Hübner

Lívia Sudare interpreta uma de suas personas durante apresentação do Cabaré de Quinta, coletivo que utiliza o humor e a sátira para comentar questões sociais e políticas. Foto: Pedro Mores

Cerca de três horas antes da apresentação, os atores chegam à Ópium. Sobem dois lances de escadas e começam a se transformar nas personas que vão ocupar o palco naquela noite.

O espaço do camarim é apertado para os 15 integrantes do Cabaré de Quinta. Alguns se acomodam em cadeiras velhas ou bancos de plástico. Outros ficam de pé diante do espelho que cobre toda a parede lateral. Há quem se sente no chão e improvise um camarim por ali mesmo. Leon de Paula, integrante do coletivo, traz sua maleta de maquiagens e um espelho de mão: “Tive que fazer um camarim improvisado, já que não temos estrutura”.

Todos os figurinos são feitos à mão, customizados ou garimpados em brechós. Os atores também emprestam roupas e acessórios uns aos outros, numa espécie de mercado de pulgas. “A gente tem muita criatividade pra compensar a falta de orçamento”, reconhece Joi Becker, a contrarregra da noite.

O clima no camarim não espelha os obstáculos encontrados. Qualquer palavra vira música. Entre uma canção e outra, se ouve de tudo: “Gente, meu botão estourou!”, “Eu queria casar, amiga”, “Me ajuda com a maquiagem?”, “Alguém tem chiclete?”, “Preciso de ajuda com o meu cabelo”, “Pessoal, alguém tem fixador?”

O ambiente é tão acolhedor que até os artistas que não vão apresentar um número naquela noite aparecem para se maquiar com os colegas e prestigiar o espetáculo.

No camarim, os artistas se transformam nas personas que vão representar durante a noite. Foto: Pedro Mores

A Ópium movimenta a noite de Florianópolis de maneira diferente. Quem passa pelo Centro Leste encontra na vitrine um cartaz com o cronograma da semana. Entre a programação, uma tradição já se repete: quartas e quintas tem noite de cabaré. Nesses dias, os coletivos da cidade se revezam no palco da casa. O pioneiro foi o No Hay Banda, em 2011, que ainda apresenta shows no bar, como o Burla! Burla! e o Burleta. A agenda ganhou o reforço de outros coletivos: o Teto Budá – que produz o Clímax –, o Cabaret Delirium e o Cabaré de Quinta.

O local acabou se tornando a principal casa do cabaré em Florianópolis. Isso se deve, principalmente, à postura dos proprietários. Lívia Sudare, atriz do Cabaré de Quinta, brinca que, se o grupo levasse seu espetáculo para outros espaços da cidade, provavelmente precisaria “higienizar” seus números, já que muitas casas são frequentadas por públicos menos receptivos às críticas sociais e políticas presentes nas apresentações.

Huanan Albrecht, um dos proprietários da Ópium, nunca questiona o conteúdo dos espetáculos ao fechar a agenda da semana. Nos dias determinados, o espaço é simplesmente cedido aos performers. “É por isso que a Ópium é a casa do cabaré em Florianópolis, aqui os artistas têm liberdade para criar o que quiserem”, aponta Lívia.

Ser referência na cidade não significa ter retorno financeiro. Segundo Huanan, esses dias dificilmente se pagam. A sobrevivência da casa depende principalmente do movimento das sextas e sábados, quando acontecem as festas. Ainda assim, a proposta é manter espaço para iniciativas artísticas que dificilmente encontrariam acolhimento em outros locais.

A relação da casa com a cena local vai além das apresentações noturnas. Durante o dia, o andar superior – o mesmo que funciona como camarim – é alugado para workshops. Atualmente, o espaço recebe, entre outras atividades, as oficinas de Marlon Spilhere, pioneiro do teatro burlesco na cidade e produtor do No Hay Banda. Na avaliação de Huanan, esse trabalho ajuda a fortalecer o movimento ao criar um ciclo entre formação e prática artística: os alunos participam dos espetáculos e os espetáculos atraem novos interessados para este universo.

Hoje, o cabaré é considerado uma linguagem artística autônoma, assim como o teatro ou a música, e permite uma diversidade de formatos. O Cabaré de Quinta aposta na sátira política e na comédia. O No Hay Banda explora o burlesco e a sensualidade. O Delirium vai para um lado mais místico. Apesar das diferenças, todos ajudam a movimentar a cena que vem se consolidando na capital.

No cabaré, referências da cultura pop dividem espaço com a crítica social. Os números mudam constantemente e acompanham os debates do presente. Foto: Pedro Mores

“Gente, 10 minutos!”

Os artistas arrumados descem para a frente da Ópium e tentam atrair mais público, mas boa parte da plateia já é conhecida. São amigos, familiares e estudantes universitários. A relação tão próxima entre o Cabaré de Quinta e a universidade se dá porque o coletivo surgiu a partir de um projeto de extensão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Além disso, a produção local se fortaleceu justamente pelo incentivo da pesquisa acadêmica.

O Cabaré de Quinta é o único coletivo desse tipo na cidade que tem entrada gratuita. Como a maior parte de sua plateia é formada por estudantes, cobrar ingresso significaria afastar espectadores. Então, a arrecadação acontece de outras formas. Um QR Code de Pix permanece colado na parede durante toda a noite e, nos intervalos, entram em cena os leilões de objetos inusitados. “Já aconteceu de uma pessoa pagar R$130 numa calcinha nova. Outra pagou R$100 no meu livro sobre cabaré, que custa R$70 na Amazon”, conta Lívia. Foi dessa forma que o elenco conseguiu recursos para participar em maio da Bienal Internacional de Cabaré, em Curitiba.

Ao mesmo tempo, a arrecadação alternativa não resolve a questão financeira. O valor não chega a R$20 por artista e tem sido investido em um fundo de reserva para bancar as viagens, por exemplo. Nos grupos com bilheteria paga, a situação não é muito diferente: o valor cobrado é simbólico e o cachê acaba diluído entre os muitos integrantes.

A falta de retorno financeiro não é novidade para esse tipo de teatro. Surgido na França no final do século 19, o cabaré nasceu como um espaço de palco experimental, onde artistas testavam trabalhos antes de levá-los a outros palcos. Em Florianópolis, a lógica ainda é parecida. “A verdade é que a gente não vive disso. Todo mundo tem seus trabalhos diários e a gente mais gasta dinheiro com o cabaré do que ganha. Eu já gastei R$400 pra fazer um número”, revela Lívia.

No camarim, a mestre de cerimônias da noite se despede do grupo: “Gente, merda pra vocês, tô indo!”

Lá embaixo, cerca de 60 pessoas aguardam o início da apresentação, mas há pouco mais de 10 cadeiras e dois sofás. O restante do público precisa se acomodar como consegue: em pé, sentado no chão ou invadindo o espaço do palco.

Depois de prontos, os artistas descem as escadas e começam a interagir com a plateia, que reconhece rostos familiares por trás dos figurinos: “aquele de peruca é o professor?”, “ele me deu aula hoje!”. O elenco do Cabaré de Quinta reúne pessoas de diferentes trajetórias. Há atores em formação, outros com décadas de experiência e profissionais de diversas áreas que encontraram ali um espaço de experimentação.

Ao som da playlist de pop, eles parecem se transformar nas figuras que ocuparão o palco. No cabaré, porém, essas figuras não são exatamente personagens. A linguagem trabalha com o conceito de persona: alguém que o ator gostaria de ser ou de representar. Diferentemente do teatro tradicional, sair da persona durante a apresentação não é visto como falha. Pelo contrário. O artista pode entrar e sair desse estado temporário diversas vezes. “É quase como se o ator estivesse fazendo uma crítica à própria persona”, explica Lívia.

Para muitos integrantes do grupo, o processo funciona quase como um exercício de autoconhecimento. As personas surgem daquilo que provoca fascínio, desconforto, ironia ou desejo, transformando experiências pessoais em material artístico.

A proximidade entre artistas e espectadores é uma das marcas da linguagem cabareteira: o palco se mistura à plateia e o espetáculo é construído coletivamente. Foto: Raissa Hübner

No palco, não há muito mais do que um espaço livre, duas caixas de som e uma mesa de DJ, operada por um técnico que também cuida da iluminação.

O público pede o início: “começa, começa!”

O elenco se posiciona na lateral do palco. A proximidade com a plateia é típica do cabaré. Os artistas permanecem atentos durante toda a apresentação, preparados para improvisar diante das reações do público ou intervir, caso alguma situação saia do controle. A preocupação para os proprietários do bar é maior em noites com a entrada gratuita, já que a casa recebe pessoas que podem não estar familiarizadas com esse tipo de teatro.

A mestre de cerimônias toma seu lugar. “Boa noite, Ópium. Bem-vindos ao Cabaré de Quinta!”

O show começa.

Em uma mesma noite, acontece de tudo. A música “Thriller” é performada por três Michael Jacksons de eras diferentes. Balões representando o “pobre de direita” são estourados, salgadinhos são oferecidos ao público, que canta junto o Hino Nacional, depois “Infiel”, depois “Evidências”. As personas comentam acontecimentos recentes, satirizam figuras públicas e transformam notícias em piada.

Essa vontade de comentar o presente ajuda a explicar por que o cabaré encontrou espaço em Florianópolis. Para Lívia, a linguagem funciona como uma forma de processar coletivamente o momento histórico vivido pelo país – marcado pela cisão política e pelo aumento das violências. Em vez de discutir política apenas pelas redes sociais, os artistas transformam suas inquietações em esquetes que convidam o público à reflexão, muitas vezes por meio do humor.

Por isso, os números costumam ter vida curta. Nascem de debates que estão nas ruas, circulam enquanto o assunto permanece vivo e depois deixam de ser apresentados. O grupo não vê isso como problema. Pelo contrário: a efemeridade faz parte da própria natureza do cabaré.

O fim do intervalo não é anunciado. Quando Haxixe entra em cena, o próprio público percebe que a apresentação vai continuar: “é a Haxixe!”. A personagem, conhecida por seus comentários sobre a política local, já recebeu mensagens de ódio nas redes sociais, ao postar vídeos de suas esquetes. Dentro da Ópium, porém, o público vibra com a sua presença.

Quando o último número termina, o técnico toca “Macarena”. A plateia sobe ao palco e dança junto com os artistas.

Apesar do crescimento da cena, o cabaré ainda enfrenta preconceitos associados ao significado que a palavra adquiriu ao longo do tempo. Os artistas sentem que esse tipo de performance continua sendo visto como algo marginal ou menos legítimo do que outras formas de expressão artística. “Somos artistas como todo mundo”, resume Lívia.

O desejo de Lívia para os próximos anos é que o cabaré seja reconhecido como trabalho. Que o público cresça, os artistas recebam cachê e as casas culturais enxerguem essa linguagem como parte importante da produção artística da cidade. “A cena não pode ser construída só sobre o sacrifício dos artistas.”

A música “Macarena” encerra a noite na Ópium, espaço que se consolidou como principal palco do cabaré em Florianópolis. Foto: Pedro Mores

Raissa Hübner

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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