
Caminhar pelo centro de Montevidéu é como folhear um livro aberto. Não desses encadernados com lombada dura e letras miúdas, mas um livro vivo escrito em tinta preta nas paredes, nos muros, nas caixas de energia e nas cortinas de metal das lojas. Existe uma biblioteca a céu aberto que poucos guias turísticos mencionam. Não há estantes organizadas nem catálogos meticulosos, apenas pichos que comunicam por meio de letras imperfeitas e cores que se infiltram nas fissuras do cotidiano.
“Aborto legal para no morir”, dizia uma pichação na lateral de um prédio administrativo. Ao lado, um símbolo feminista desenhado com traços rápidos. Mais adiante, “Comemos mal e muy caro” disputava espaço com uma crítica ao capitalismo escrita em letras miúdas. Como estes há incontáveis outros pela cidade. Lá, a pichação é carta aberta, protesto improvisado, ensaio urbano de uma sociedade que, ao contrário do concreto que a sustenta, está sempre em movimento. Não é ruído visual. É linguagem. Uma linguagem que não se curva aos padrões da limpeza urbana, mas se infiltra na cidade como uma planta que insiste em brotar no asfalto. É fácil julgá-lo feio, invasivo, fora de lugar. Difícil é ignorar o que ele diz.
E o que ele diz Montevidéu inteira escuta: que a política também se escreve nas ruas; que o feminismo não é moda, mas urgência; que o direito ao corpo, à comida, à voz pertence a todos. Em uma sociedade que foi pioneira na legalização da maconha, no reconhecimento do casamento igualitário e nos direitos reprodutivos, o picho progressista não surge como ruptura, mas como continuidade de um diálogo que se estende das instituições às esquinas.
Em uma era de algoritmos que filtram o que devemos ver e ouvir, há algo profundamente revolucionário na simplicidade direta daquelas palavras expostas ao julgamento público, sem moderação, sem curadoria.
Voltei para casa sem lembranças tradicionais, sem ímãs de geladeira ou miniaturas do Palácio Salvo. Mas trouxe comigo um arquivo mental dessas vozes anônimas, dessas declarações de existência e resistência impressas no concreto. E entendi que em Montevidéu as paredes não dividem simplesmente espaços, elas conectam consciências.
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