Gramal é nome de banda

Grupo manezinho aposta em groove e aborda amadurecimento com lançamento de nova faixa

Entrevista por Matheus Alves

Da esquerda para direita, Djonathan Hinckel, Matheus Feijó, Guilherme Garcia e Victor de Franceschi. Foto: Divulgação

A Gramal, banda independente de Florianópolis, lançou no final de janeiro (23) o single “O Término”, faixa que marca uma virada na trajetória do grupo e encerra a narrativa iniciada em “Yasmim” e “O Teatro”, canções presentes no álbum de estreia “Avaranda” (2024). Escrita em 2019, “O Término” chega como desfecho da história de amor que atravessa as três canções. “É a resolução dessa trilogia, a Divina Comédia da Gramal”, brinca Matheus Feijó, vocalista e compositor.

“Aprender a amar amando. Não há escapatória. Amor é exercício, é ato permanente.”
— Gilberto Gil

No encerramento, a faixa traz uma citação de Gilberto Gil, que aborda o amor como algo que precisa ser escrito e reescrito diversas vezes, sintetizando a narrativa proposta pela canção. A construção sonora acompanha essa máxima — começa mais caótica, com o eu lírico perdido, sem entender os ‘porquês’. Aos poucos, a letra indica compreensão de que não é porque algo acabou que o amor não existiu.

Sustentada por um groove bem anunciado, a faixa apresenta uma sonoridade que acompanha a própria narrativa, com acordes que transitam da tensão ao conforto, sinalizando caminhos que a Gramal pretende aprofundar nos próximos lançamentos. Se antes o grupo orbitava narrativas mais diretas, agora as letras dessa nova era vão flertar com questões menos óbvias e mais existenciais. Misturando referências que passam pelo samba, rock, folk e jazz, a banda experimenta novas vertentes da MPB e deixa de lado fórmulas pré-estabelecidas.

Entre gravações e ensaios, os integrantes Victor de Franceschi (baixista), Guilherme Garcia (baterista) e Matheus (Fejózinho, para os íntimos) compartilharam com o Caderno Expressões alguns planos para o futuro, suas canções favoritas e um pouco da história de como o nome de uma rua qualquer se tornou a identidade artística deles.
Confira a entrevista na íntegra:

EXPRESSÕES — Por que Gramal?

Guilherme — Nós ensaiávamos numa rua que tinha o nome de Gramal, mas não começou assim. Quando a banda iniciou, era Maresia, meio sem criatividade. Só que isso criou uma confusão, parecia uma banda de reggae — a gente não tocava reggae. Quando fomos lançar nosso primeiro single, “Marina”, em dois mil e vinte-alguma-coisa, descobrimos que tinham muitas maresias no Spotify e daí não iríamos conseguir registro da música. Naquela coisa de conseguir um nome rápido, a gente ficou tipo “pô, ensaiamos na Rua do Gramal, né?’”. Alguém lançou um “Gramal” e daí a ficamos “hum, Gramal!”. Acabou virando Gramal, mais por necessidade do que realmente por pensar num bom nome — definitivamente não é um bom nome, mas a música compensa.

Matheus — Eu acho acho que foi legal, porque ficou mais identitário. A gente se sentiu mais pertencente ao nome.

EXPRESSÕES — Antes um trio, a banca hoje tem uma formação com quatro músicos. Como foi esse processo?

Matheus —
Eu acho que a gente ficou três anos como trio e começamos a sentir necessidade de enriquecer o som. Eu sou guitarrista base e tenho pouquíssima habilidade de solo. Não sou muito de escala, sempre fui mais de base, acordes e tal. E então percebemos que as músicas foram ficando maduras e precisando de complexidade, ambientação, algum ornamento a mais. E tinha o DJ (Djonathan Hinckel), que já era amigo da turma. Chamamos ele por paridade, porque já era próximo do grupo, só faltava convidar ele entrar. 

Guilherme — Meio que foi unir o útil ao agradável: como a gente precisava de um guitarrista, ele colocava a guitarra. Daí acabou acontecendo e super fluiu. 

EXPRESSÕES — A ideia de criar uma banda surgiu espontaneamente ou vocês já tocavam juntos antes? 

Guilherme — Eu e o Victor tocávamos mais por diversão, por hobby. Nos conhecemos numa aula de música do IFSC. Na época, com 15, 16 anos, a gente não fazia nada da vida, então era a tarde inteira na casa dele tocando. Fejózinho, mais ou menos 1 ano depois, surgiu. Ele já tinha “Marina” na época e algumas outras músicas. Foi amor à primeira vista. O “Avaranda” inteiro meio que são músicas desse tempo. Do jeito que a gente tocava lá na época foi gravado hoje, fluiu totalmente como tinha que ser. Fomos tomando gosto e aquela sensação de tipo “ pô, talvez isso seja legal”. Tem faculdade, tem outros trabalhos, mas o foco, a missão principal, é viver só de música. É mais difícil, tem que pagar contas, todo mundo faz suas coisinhas paralelas. 

Matheus — Eu tinha uma banda meio de punk, mas nunca foi para frente. Estava procurando um baterista e lembro que eu fiz um acordo com o Gui: “Eu toco na tua e tu toca na minha”. No fim das contas, me senti muito mais em casa com eles e eu acho que eles também. Deu match, e aí começou a história.

Guilherme — Eu achava super engraçado que a banda do Fejózinho era mega rock and roll e ele tocava uns acordes lindos de samba, uns negócios muito brasileiros. Aquela banda era só barulho e eu ficava tipo: “Irmão, acho que não estão te valorizando.”

EXPRESSÕES — “O Término”, novo single da banda, foi escrito em 2019. A produção e composição se manteve a mesma desde então ou vocês revisitaram a música e continuaram trabalhando nela? 

Matheus — Ela começou de um jeito e certamente tá diferente na produção final. A música encontra um chão, a gente começa a perceber que esse chão existe, naturalmente começa a ficar um pouco mais complexo, começamos a brincar e colocar mais ornamentos. Quanto à produção, o Bernardo (Bernardo Xavier, produtor musical) ajuda muito. Ele é uma figura bastante central porque ele é uma pessoa muito criativa. É muito bom quando alguém de fora da banda, que não tem os nossos vícios, nossos costumes, traz boas ideias. Realmente, mudamos muito a música por conta, mas tem essa parte secundária que é a produção do Bernardo, excelente, e ajudou para a canção ficar do jeito que está. 

Guilherme — A gente brinca até que ele costuma ser chamado de quinto membro da Gramal. Acaba não aparecendo em palco, mas com certeza muito do que já temos gravado tem a mãozinha dele. 

EXPRESSÕES — Esse novo single fecha uma trilogia e, ao mesmo tempo, abre uma nova fase. Quando vocês perceberam que aquela história tinha se esgotado artisticamente e era hora de virar a chave?

Matheus — Eu acho que é muito por essa questão de músicas ligadas ao sentimento amor, ao afeto — que é um pouco o básico da composição, da poética como um todo. Porque é um sentimento muito natural, sobretudo, pela fase da vida que a gente estava. Estar ficando com mais idade ou passando por outras experiências faz o acontecimento poético ficar um pouco mais florido. Querer falar sobre outras coisas, não só sobre o amor e não só sobre sobre essas ilusões e desilusões amorosas. Essa fase se encerrou com naturalidade pelos acontecimentos da vida

EXPRESSÕES — Se para Gilberto Gil amor é exercício e ato permanente, o que é amor para Gramal?

Victor — Pessoalmente, eu interpreto o amor como uma escolha, também. A paixão é um sentimento quase incontrolável — gente se apaixona pelas coisas, pelas pessoas. Mas o amor é essa permanência. 

Matheus — O amor é uma espécie de força universal. Acho que existe uma coisa muito intrínseca na gente — a capacidade de vincular o exterior com o interior. Essa forma de regular as nossas decisões, nossas formas de enxergar a vida como um todo, daria para ser chamada de amor. 

Guilherme — É o que faz a Gramal durar 6 anos, mesmo com muita briga. Não querendo ser genérico e imitão, mas faço as palavras do Fejózinho as minhas também, porque o homem fala bonito.

EXPRESSÕES — Como acontece o processo criativo de vocês?

Guilherme — Zero metodológico. 

Matheus — Eu sou um compositor frenético. Geralmente eu tô escrevendo alguma coisa, acontece algo, aí me surge a letra e a base e eu coloco no nosso grupo. Aliás, ultimamente tem sido diferente, eu tenho mostrado direto nos ensaios.

Guilherme — Tem sido mais emocionante. 

Matheus — Eu escrevia, colocava no grupo da banda, aí o pessoal ouvia, gostava ou não gostava, era nossa assembleia ali. Mas com o tempo e a vida rolando, acabou acontecendo de colocar as músicas ali e ninguém ver. Ultimamente, tenho escrito, as músicas surgem, eu guardo no meu arquivinho ou levo nos ensaios. O modus operandi básico é esse.

Guilherme — É meio no freestyle, até. Modéstia à parte, todo mundo tem muito domínio sobre seu instrumento. E o Fejózinho é um músico que tá dentro de uma caixinha enquanto compositor, porque a gente abrange muitos gêneros. Temos uma música, “Juventude”, que existe desde 2019 ou 2020, e a primeira vez que a gente tocou ela foi ontem, porque ela é simplesmente um jazz e eu nunca tinha tocado na bateria. Tentamos alguns outros estilos sobre a mesma letra e não flui, ela é um jazz porque ela pede jazz. E aí é a questão de cada um sentar com seu instrumento e estudar, fazer aquilo acontecer, e algumas coisas demoram para nascer. As coisas vão acontecendo não por escolha, a música pede para ser de um jeito e a gente vai tentando até conseguir. 

EXPRESSÕES — No primeiro projeto de vocês, Florianópolis foi — sem sombra de dúvidas — um elemento central, protagonista nas composições. A Ilha vai estar de volta em novos lançamentos? 

Guilherme — Talvez seja mais camuflado. Em “Avaranda”, as músicas falam diretamente sobre o Sambaqui, a Lagoa e tudo mais. Nos próximos trabalhos isso fica um pouco mais velado, até pelo caminho poético escolhido. Vamos deixar as coisas um pouquinho mais aveludadas. Isso não significa uma ruptura do nosso carinho pela cidade, porque as músicas nascem aqui, as histórias nascem aqui, nós vivemos aqui durante toda a vida, não tem como tirar Florianópolis do trabalho da Gramal. 

EXPRESSÕES — E há algum álbum novo a caminho? 

Guilherme — Sim! 

Matheus — A gente tá bolando um projeto agora. Temos que marcar uma primeira reunião para falar sobre isso, mas a ideia para médio-longo prazo é lançar um novo álbum. Claro que sempre acontece um single antes. Até porque, como o Gui comentou, são algumas músicas que a gente está pegando agora para trabalhar que realmente são um pouco mais complexas. Isso leva tempo. Precisamos entender o que ela pede e conseguir trabalhar em cima disso. 

Guilherme — O que é mais difícil a gente já tem. Falta a embalagem para fechar o projeto todo. E dinheiro. 

Matheus — Falta tempo e dinheiro. 

EXPRESSÕES — Das músicas já lançadas, qual é a preferida de cada um? 

Matheus — A minha preferida é “Praça XV”. Eu gosto muito do arranjo inicial, do violãozinho, me esforcei muito para fazer. 

Guilherme — Eu gosto muito de “O Término”, na verdade. Está mais fresca na cabeça, por motivos bem óbvios, e é uma música que já vem dessa leva nova, então eu tô menos enjoado, mesmo a gente tocando incessantemente. Diria que “Praça XV” ainda tá no topo, logo em seguida vem “O Término” e — fiz um top três — “O  Teatro”. 

Victor —Para mim, com certeza é “Amor de margarina”. Eu amo muito. Foi um negócio que encaixou e não tem explicação. 

Guilherme — Essa música saiu em, tipo, dois minutos. 

Victor — Ela não ia para o álbum. Uma semana antes surgiu antes e entrou no projeto. 

Guilherme — Fejózinho, do nada, chegou e disse: “Tenho uma música nova”. A gente tocou, fluiu e entrou pro álbum de última hora. 

EXPRESSÕES — De longe, minha música preferida do primeiro álbum é “Adolescência”. Quais a chance de ter algo parecido com ela em algum novo projeto? 

Matheus — Nossa, é difícil.

Victor —Tão punk assim…

Matheus — Essa é uma música muito específica.

Guilherme — Ela é meio grunge.

Matheus — Lembra muito a Alice in Chains. Acho que nesse estilo tem algumas que são próximas.

Guilherme — É uma pedradinha.

Matheus — Ela é muito muito pesada para o nosso estilo. Claro que tem muita coisa mais pesada do que isso.

EXPRESSÕES — Acho que foi por isso que eu gostei. Ela se destaca bastante do resto das faixas.

Matheus — Qualquer tipo de trabalho de compilação que a gente vier a fazer, naturalmente vamos escolher alguma outra que vai ser mais escrachada. A gente gosta da ideia de montanha-russa, ter uma música suavezinha, daqui a pouco uma muito doida, cheia de penduricalhos e drives.

Guilherme — Sempre vai ter umas música mais pedrada assim. Porque, querendo ou não, a formação da banda é de rock. Duas guitarras, baixo e bateria. E também pelas referências, principalmente do Vitão e do DJ, que são pessoas muito do rock and roll. Eu e Fejózinho somos mais de brasilidades. Acaba que as as coisas se mexem e no fim surgem algumas pérolas, tipo “Adolescência.”

Matheus — Mas tu vai ser contemplado, tá Matheus? Não se preocupe. Sem dúvida, vai ter uma coisinha para ti.


Matheus Alves

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, adora moda, fotografia, R&B e gastronomia.

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