“Precisamos de maiores trocas culturais”: Ondjaki e as travessias literárias

Segundo o escritor angolano, interações entre países que falam a língua portuguesa fortalecem a cultura

Ana Muniz

Roda de conversa com Ondjaki lotou a sala Goiabeira do Centro de Cultura e Eventos da UFSC. (Foto: Ana Muniz)

Travessias fazem parte da vida e obra do escritor angolano Ondjaki. Com mais de 25 livros publicados, transita entre gêneros literários, públicos, áreas do saber e culturas. Durante sua carreira, foi laureado por diversas premiações, como o Prêmio Jabuti em 2010, na categoria juvenil, e o Prêmio José Saramago em 2013. Algumas de suas obras mais conhecidas são Os da Minha Rua (2007), Bom dia, camaradas (2001) e AvóDezanove e o Segredo do Soviético (2008).

Em um de seus trânsitos recentes, Ondjaki veio a Florianópolis como palestrante do segundo Festival Literário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC): o II Flufsc. Participou da roda de conversa “Travessias Literárias – Angola/Brasil” em 16 de outubro, no Centro de Cultura e Eventos da UFSC, a qual teve mediação da secretária de Cultura, Arte e Esporte (SeCArtE) da universidade, Eliane Debus. No evento, Ondjaki falou sobre seu trabalho, a literatura angolana e a brasileira, memórias afetivas e a importância das trocas culturais. 

Após a roda de conversa, o Caderno Cultural Expressões convidou o autor para uma breve entrevista em torno dos tópicos que foram discutidos no evento. 

Após a roda de conversa, Ondjaki tirou fotos e autografou livros de admiradores de sua obra. Na imagem, está com Eliane, a vice-reitora da UFSC, Joana Célia dos Passos, e outros espectadores. Em seguida, o escritor assistiu ao espetáculo de encerramento do II Flufsc, Minha Prece Ecoa, da cantora Dandara Manoela. (Foto: Ana Muniz)

CADERNO EXPRESSÕES – Durante a roda, você falou muito sobre memórias afetivas de infância. Você poderia citar uma lembrança específica que inspirou algum trabalho seu?

ONDJAKI – Há coisas que não foram faladas hoje, mas estão muito presentes no livro. Por exemplo, as vivências com uma das minhas avós. Hoje, vejo que fazem parte do imaginário que depois, passados uns anos, necessariamente aparece na literatura. E, muitas vezes, fico a pensar nisso. Não estou a dizer que seja intencional, mas as avós têm essa capacidade de deixar sementes na nossa imaginação quando somos pequenos e isso um dia brota. Pode ser já no fim da nossa vida, mas que brota, brota.

CADERNO EXPRESSÕES – Você é muito conhecido por seus trabalhos na literatura infantojuvenil. Qual é a diferença entre produzir livros para crianças e jovens em comparação a escrever para um público-alvo adulto?

ONDJAKI – Acho que não há muita diferença se conseguirmos cumprir com uma certa abertura. Há sempre um lugar intermédio onde existe aquilo que uma pessoa quer dizer e aquilo que lhe acontece dizer. Simplesmente, creio que, às vezes, quando a gente chega à conclusão que essa história está em uma direção mais infantil-juvenil, a mim, me põe mais preocupado. Fico mais preocupado com a reação de um público infantojuvenil do que de um adulto. Então, me põe no lugar de responsabilidade. Quanto ao leitor infantojuvenil, quero que ele tenha um livro que o faça sonhar. É isso. Se acho que o meu livro vai ser dirigido para as crianças, tento que esse livro tenha possibilidades de sonho. Senão, não vale a pena.

CADERNO EXPRESSÕES – Um assunto marcante da roda de conversa foi a interação entre as literaturas de países que escrevem em português. De que modo você acha que essa troca cultural entre literaturas de diferentes países enriquece a literatura da língua portuguesa no geral?

ONDJAKI – Qualquer troca permite crescimento. Mesmo antigamente: eu só tinha feijão e você só tinha sal. Quando a gente troca um pedacinho do seu sal com um pedacinho do meu feijão, passamos a ter sal e feijão. É assim que entendo a literatura e os trânsitos entre todos esses nossos países, incluindo Portugal, Timor-Leste e a Galiza, um território na Espanha que gosta de se aproximar da nossa língua portuguesa e nós da deles. Essa troca fortalece. Não é para atacar ninguém ou para nos virarmos contra outras línguas. É para engrandecermos os países culturais que somos. Não estou a falar de passaporte, estou a falar de cultura. Não estou a falar de fronteira, e sim daquilo que me permite partir da minha cultura, vir aqui a ouvir a música da Dandara Manoela e dizer: “cheguei a outro ponto da minha própria cultura”. Isso é abertura e arejamento. É isso que se almeja numa troca, numa permuta, como se dizia antigamente.

CADERNO EXPRESSÕES – Você disse que as editoras não trazem novos escritores da Angola para o Brasil, repetem sempre os mesmos nomes. Qual seria um autor angolano que você gostaria que mais pessoas no Brasil conhecessem?

ONDJAKI – O Brasil não publicou, por exemplo, muitos dos livros de um grande autor angolano que é o Manuel Rui. Ele é um escritor que para nós é um autor não só muito conhecido, mas muito querido do público angolano por variadíssimas razões. Há nomes a aparecerem também em outras geografias que não são da literatura, na fotografia, na performance, no teatro. Creio que isso tem a ver de facto com uma curiosidade mútua e isso tem que ser explorado. Nós, o povo brasileiro, nós, o povo angolano, nós, o povo moçambicano, temos curiosidade para conhecer a cultura um dos outros. Era preciso que as pessoas com cargos de decisão entendessem que nós estamos a pedir novas condições culturais para fazermos uma troca que o povo e os artistas já estão preparados para fazer. Então, só há um atrasado: o político. Apenas os nossos políticos ainda não entenderam que não só estamos preparados como precisamos de maiores trocas culturais. E isso permitiria um conhecimento que se valoriza além de conhecer o outro. Se eu conhecer melhor o Brasil, não só conhecerei melhor o país, também passarei-me a identificar com o Brasil. Isso é uma força cultural que os políticos não deveriam ignorar.


Ana Muniz

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), amante das artes e mãe de gato.

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