“Branca de Neve” não é muito bom… mas não pelos motivos que você pensa

Maior qualidade do longa de Marc Webb está justamente em um de seus aspectos mais criticados: a protagonista interpretada por Rachel Zegler

Marcelo Pedrozo

O romance de Jonathan (Andrew Burnap) e Branca de Neve (Rachel Zegler) é um grande ponto positivo do remake. (Foto: Reprodução)

Espelho, espelho meu, existe alguma animação mais influente do que eu? Se quem estiver perguntando for Branca de Neve e os sete anões (1937), certamente a resposta será não. Considerado o primeiro longa-metragem animado da história, o filme acaba de ganhar, aos 88 anos, um remake. Chamado simplesmente de Branca de Neve e estrelado por Rachel Zegler, o novo longa segue a onda de remakes dos clássicos animados da Disney em versões live-action.

Após contribuir para que O Rei Leão (2019) se tornasse a animação de maior bilheteria da história por cinco anos, eu venho evitando assistir a esses remakes da Disney no cinema. Esses filmes representam tudo o que há de pior em Hollywood hoje em dia, realçam a falta de criatividade e a consolidação do cinema como produto acima de arte. Então, por que fui assistir a Branca de Neve? Bem, existem algumas razões.

Ao contrário de outros remakes como o já mencionado O Rei Leão e seus companheiros A Bela e a Fera, Aladim e A Pequena Sereia, todos inspirados em animações lançadas nos anos 1980 e 90, Branca de Neve e os sete anões é um filme mais complicado de se adaptar. Se já foi feito um esforço para fazer Jasmine, Ariel e Bela se tornarem mocinhas mais ativas em suas histórias, para Branca de Neve, criada mais de cinquenta anos antes, o desafio é ainda maior. Era de se esperar uma abordagem semelhante à de Cinderela (2015), que usa alguns elementos da animação da Disney de 1950, mas em geral se desprende dela e cria sua própria versão do conto de fadas. Branca de Neve até tenta algo parecido, mas o fantasma do filme de 1937 o persegue, e o resultado final é uma bagunça.

Rachel Zegler tenta, mas não consegue salvar o filme inteiro. Uma pena. (Foto: Reprodução)

Na história nova, Branca de Neve (Rachel Zegler) é uma personagem cujo conflito se resume em sua passividade. Após anos assistindo às injustiças cometidas por sua madrasta, a Rainha Má (Gal Gadot), ela é confrontada pelo bandido Jonathan (Andrew Burnap), que lhe dá um choque de realidade. Branca de Neve então canta Waiting on a Wish (à espera de um desejo, em tradução livre), em que narra seu desejo por se ver livre e a frustração consigo mesma por não ter a coragem de fazer o que é certo.

Após uma tentativa falha de assassinato, Branca de Neve conhece os Sete Anões, que representam uma das várias polêmicas ao redor do filme. Em 2022, o ator Peter Dinklage, que tem nanismo, criticou a Disney por se gabar da representatividade ao escalar uma atriz latina no papel de Branca de Neve enquanto continuava a contar uma história cheia de estereótipos para esse grupo. A Disney logo afirmou que reimaginaria os personagens dos anões para evitar tais estereótipos, mas o resultado final foi alvo de críticas por todos os lados. Os anões, aqui, são criaturas que apenas parecem humanos, mas na verdade possuem poderes mágicos não definidos e estão vivos há 274 anos. Eles ainda possuem o mesmo papel de suas contrapartes de 1937, os mesmos nomes, as mesmas características únicas e a mesma função de alívio cômico. Mas agora está explícito que não se trata de pessoas com nanismo, então está tudo certo… ou quase.

Atores com nanismo e o público em geral reagiram negativamente aos comentários de Dinklage, afirmando que o filme poderia ser uma chance de empregar pessoas com deficiência em uma grande produção. Mas e se a Disney tivesse reagido de forma diferente à crítica do ator? Por que colocaram “criaturas mágicas” para cumprir o exato mesmo papel estereotipado da versão original, em vez de ter como personagens sete pessoas com nanismo não-estereotipadas, com personalidade menos cartunesca? Só para copiar a mesma história já contada há 88 anos e fisgar o público pela nostalgia? Em vez de culpar Dinklage por chamar a atenção do maior conglomerado de mídia da atualidade, por que não nos revoltamos com a Disney por tomar o caminho mais fácil, desinteressante e ainda ofensivo?

Sério, é bizarro ver humanos interagindo com esses troços. Bizarro. (Foto: Reprodução)

Bem, não tenho nanismo e também não estudo esse assunto para afirmar qual seria a solução ideal. Mas uma coisa é certa: as tais “criaturas mágicas” são aberrações de computação gráfica que parecem saídas dO Expresso Polar (2004) e ficam assustadoras interagindo com seres humanos de verdade. Seu aspecto mais realista, mas não tanto, cria um meio-termo estranhíssimo, e as cenas cartunescas dos personagens não encaixam muito bem com o resto do filme, que tenta se levar um pouco mais a sério. Não por acaso, o único dos sete que tem um papel interessante é Dunga (Andrew Barth Feldman), que cria um vínculo com Branca de Neve e rende cenas dramáticas bem interessantes (isso se você conseguir prestar atenção em algo que não seja sua aparência bizarra).

Mas os anões de computação gráfica não são a pior coisa do filme, ao contrário do que eu esperava. O pior é ela: a Rainha Má. Me recuso a acreditar que Gal Gadot tenha tentado atuar de verdade aqui. Parecia que ela estava fazendo uma performance ruim de propósito. E não num sentido camp, tão-ruim-que-é-bom, só de um jeito ruim mesmo. As falas são ditas sem absolutamente nenhuma emoção; a rainha, que deveria passar medo, não chega nem a prender a atenção, e só o que sinto durante suas cenas é pena de Rachel Zegler e dos outros atores por terem de contracenar com ela.

Espelho, espelho meu, existe uma Rainha Má melhor do que eu? Sim. Várias. (Foto: Reprodução)

É Zegler quem segura o filme, transmitindo força e doçura em igual intensidade e entregando uma ótima Branca de Neve, em igual medida complexa e encantadora, com aquela aura de princesa Disney. Andrew Burnap como Jonathan, personagem que aqui substitui o príncipe do original, também está bem, uma vibe charmosa como o papel pede e uma química incrível com Zegler. O dueto Princess Problems (problemas de princesa), em que os dois se provocam, é uma delícia de assistir, e A Hand Meets a Hand (uma mão encontra outra), também cantada pelos dois, é lindo de se ver.

No final, os momentos em que o filme realmente funciona são os momentos em que ele se permite inovar, em vez de ficar preso à animação original, como no arco de sua protagonista, que aprende a superar seus medos e a resolver os próprios problemas, desistindo de esperar por um desejo que vem dos céus e derrotando a Rainha Má com sua maior arma: sua bondade. Mas não é sempre que o filme tem coragem (ou permissão) para inovar, então Branca de Neve é uma experiência mista. Dá para se divertir, e há momentos genuinamente interessantes ali dentro, mas a bilheteria decepcionante é bem merecida. É só uma pena que a Disney esteja tentando jogar a culpa na Rachel Zegler por ser contra um genocídio em vez de admitir que os problemas do filme são outros.


Marcelo Pedrozo

Estudante de Jornalismo da UFSC e apaixonado por histórias. Escrevendo um livro como forma de terapia. Editor-chefe do Caderno Cultural Expressões.

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