Em frente ao shopping

Crônica por Danielly Alves

Texto produzido na disciplina de Linguagem e Texto Jornalístico V, sob a orientação das professoras Tattiana Teixeira e Janaíne Kronbauer.

Ilustração por Doutarina.

Em uma tarde qualquer, fui até o shopping com meu namorado. O objetivo era simples: andar, comer alguma coisa e talvez assistir a um filme. Na hora de atravessar a rua e entrar, percebi um ponto de ônibus ao lado, com um pedaço de papelão e um pé.

Logo notei que, na verdade, era um corpo inteiro, coberto por papelão e com apenas um pé de fora. A cena me lembrou uma criança, que cobre a cabeça para ficar invisível dos monstros. No pé, manchas marrons e pretas. Marcas de quem andava descalço há semanas. Talvez meses. Uma mosca, que voava ao redor do pé, pousou nele enquanto eu observava a cena. O corpo, dono daquele pé, não se moveu.

Olhei de novo, esperando algum sinal de movimento. Era uma tarde extremamente quente de domingo, a rua estava lotada de carros e pedestres. O shopping se erguia como um monumento na minha frente e na frente daquele ponto de ônibus com o corpo deitado. Me perguntei se o dono daquele pé tinha morrido. Eu não conseguia ver seu rosto embaixo do papelão, mas supus que, se estivesse dormindo, se mexeria. Não mexeria?

Chamei meu namorado e apontei para o ponto de ônibus.

— Será que ele morreu? — questionei, incerta do que pensar.

Meu namorado não tinha visto o pé, nem o corpo, até aquele momento. Ninguém na rua parecia notar enquanto estacionava para ir ao shopping ou até mesmo quando levantava a perna para passar por cima do pé jogado na calçada.

— Acho que não — ele respondeu, tão incerto quanto eu.

Será que existe um procedimento padrão para a dúvida “aquela pessoa deitada no chão está morta?”. Se existe, eu não conheço. Olhei ao redor procurando por alguém que parecia saber o que fazer. Um segurança estava próximo, observava o movimento e quem entrava no shopping. Nenhuma preocupação com o possível corpo logo depois da faixa de pedestre. Me perguntei se deveria chegar mais perto, tentar falar com o dono do pé. Ainda inerte, desisti da ideia. A verdade é que também sou uma covarde. E se ele estivesse dormindo e brigasse comigo? Ou pior, e se eu descobrisse que aquele pé, com a mosca ainda pousada nele, se tratava do pé de um cadáver, o que realmente poderia fazer?

Será que, no final, eu sequer queria saber a verdade?

Lembrei de um vizinho da minha infância, conhecido como “o viciado da rua”. Recentemente, fiquei sabendo que ele morreu, na rua, jogado em frente a um grande mercado. Todo mundo estava acostumado a vê-lo nesse estado, então ninguém percebeu que tinha morrido. Levou três dias para chamarem uma ambulância. Me pergunto se eu era agora uma dessas pessoas em frente a um morto que ninguém quer ver.

A mosca voou. Continuei parada por mais alguns segundos e me convenci de que o dono do pé estava vivo. Dormindo. Sobrevivendo a mais um dia na rua. Me convenci de que, se ele estivesse morto, alguém teria percebido. Alguém melhor já teria ajudado. Virei as costas e atravessei a rua, em direção à entrada principal do shopping. No fundo, escolhi não saber.

Talvez um papelão possa realmente tornar alguém invisível.


Danielly Alves

Jornalista em formação na UFSC, editora-chefe da Rádio Ponto UFSC, adora áudio, rádio e é apaixonada por contar histórias.

Doutarina

Estudante de Animação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ilustradora freelancer.

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