A escrita “contemporaneíssima” de Rafael Gallo

Premiado desde sua estreia, o autor fala sobre a formação das identidades e a produção literária no contexto atual

Ana Muniz

Formado na Faculdade de Música da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Rafael Gallo migrou para a literatura a fim de realizar produções mais autorais. (Foto: Wilian Olivato)

Com 12 anos de carreira literária, o autor paulistano Rafael Gallo é reconhecido por sua escrita autoral e contemporânea. Foi premiado logo em sua estreia — a coletânea de contos Réveillon e outros dias conquistou o Prêmio SESC de literatura em 2012. Seus outros trabalhos não ficaram para trás: o romance Dor fantasma venceu o Prêmio José Saramago 2022 e Rebentar (2015) venceu o Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2024, Rafael lançou Cavalos no escuro, mais uma coletânea de contos. 

Rafael foi o quarto brasileiro na história que ganhou o Prêmio Literário José Saramago. (Foto: Neusa Ayres)

Suas palavras e ideias o levaram a ser palestrante na roda de conversa “Soltar amarras, içar velas: navegar na literatura contemporaneíssima” do segundo Festival Literário da Universidade Federal de Santa Catarina (II Flufsc). O encontro ocorreu em 15 de outubro, no Centro de Cultura e Eventos da Universidade. Junto aos escritores e professores de Literatura na UFSC, Telma Scherer, que também foi palestrante, e Marcelo Lotufo, o mediador da conversa, Rafael falou sobre as novas tendências que fariam parte da literatura “conteporaneíssima”. 

Após a discussão, o Caderno Cultural Expressões conversou com o autor sobre os temas levantados pela roda.

Rafael, Telma e Marcelo subiram no palco do Auditório Garapuvu do Centro de Cultura e Eventos para a roda de conversa. (Foto: Ana Muniz)

CADERNO EXPRESSÕES – O tema do debate não foi a literatura contemporânea, e sim a “contemporaneíssima”. Como você definiria essa classificação?

RAFAEL – É um problema, porque talvez eu não seja tão familiar com essas classificações, né? Como falei na mesa, não tenho uma formação teórica em Letras. Sempre uso aquela frase de um conhecido que gosto muito: “Não sou ornitólogo, sou o passarinho”. Então, eu sei que escrevo e sou contemporaneíssimo no sentido de que estou vivo. A gente tem chamado de literatura contemporânea há muito tempo. E sempre parecemos ter essa carência de um título. Tinham os modernistas, antes os realistas, os naturalistas. Mas acho que vem essa necessidade de se traçar um mapa das coisas, né? Que é normal, é natural. Talvez, como a gente não apareceu com nenhum “ismo” depois desses “ismos”, começamos a chamar de literatura contemporânea, e houve um reavivamento desse movimento. Acho que, no Brasil, a literatura foi se afastando do público, do registro histórico, e agora parece que ela começa a voltar. Mas, realmente, por quanto tempo você pode chamar de contemporâneo, né? Tem um gap aí com o qual talvez a gente precise lidar mesmo. Não muda muita coisa, mas talvez seja essa maneira de mapear.

CADERNO EXPRESSÕES – Você falou bastante na conversa sobre os “espetáculos” e como eles definem identidades. Quais espetáculos definem a sua identidade?

RAFAEL – Esses dois temas me interessam bastante, porque hoje isso é um pouco inescapável. Quer dizer, sempre foi no sentido do quanto a formação da identidade é desenhada e redesenhada nas nossas relações com o outro. A identidade de cada um de nós é como se fosse um caleidoscópio, em que todas as pequenas coisas vão entrando. Nos dias de hoje, principalmente com as redes sociais e a internet, isso tudo vira uma espécie de espetáculo próprio e individual. Vou num show qualquer, tiro uma foto e isso vira um registro de que estive lá. Portanto, um registro de que gosto dessa música. Conforme o jeito que as pessoas me respondem, se disserem que gostam também, isso aumenta a probabilidade de que eu repita esse comportamento. Nesse sentido, nossa identidade é sempre reformada. Penso muito, por exemplo, em escritores. Se você escreve um livro e nunca consegue publicar, isso faz com que duvide de si mesmo. Você começa a pensar: “será que minha visão de mim corresponde [com a dos outros]?” Agora, se você consegue publicar, faz sucesso, todo mundo gosta e ganha prêmios, isso, em algum grau, diminui a sua dúvida de que, sim, este é o seu lugar no mundo. Essa é uma negociação constante da nossa identidade perante o outro. 

CADERNO EXPRESSÕES – Na roda de conversa, você falou sobre a experiência de reescrever e relançar o romance Rebentar, que já havia sido lançado. Como foi a sensação de revisitar um trabalho que continha coisas que não te agradavam? Foi uma tarefa difícil ou dolorosa?

RAFAEL – Não, na verdade. Pelo menos nesse caso específico, foi muito agradável. Para mim era o contrário. Doloroso era ver que eu tinha mudado muito o meu olhar sobre uma história que era tão importante para mim e sobre a forma como eu a tinha escrito. Essa história tem um retorno constante. Ela ficava sempre voltando de uma maneira que não era agradável para mim. O desgosto estava mais nisso. Depois, quando essa história voltou, pensei “agora ela está bem escrita, a contei do jeito que ela deveria ser contada. Agora quem leu recebeu aquilo que eu deveria ter entregado dez anos antes”. Então, isso para mim foi muito bom. É como quando você fala, “poxa, não saí bem naquela foto e ela vive aparecendo na internet”. Se pudesse mudar aquilo, acho que poucas pessoas não mudariam.

CADERNO EXPRESSÕES – Dentro dessa nova geração de escritores contemporaneíssimos, quais nomes ou obras você apontaria como inspirações? 

RAFAEL – Tem muitos, isso acho uma coisa importante a ser falada. A gente tem dois problemas que talvez agora estejam começando a mudar. Vilaniza um pouco as redes sociais, mas acho que hoje em dia, o fato de existirem pessoas conversando nas redes sociais, principalmente booktubers, booktokers, bookgrammers, falando sobre livros e recomendando é fundamental, e acho que a gente tinha perdido isso. Não sei se mudou muito, mas na minha época de ensino médio, em que a gente estuda literatura, acabava na geração de 1945. E estudei já ali no final do século XX, me formei em 1999, 2000. Então, a gente já estava pelo menos 55 anos atrasado. Depois, na vida adulta, isso não é falado. Então, acho que hoje é importante que a gente fale, porque temos muita literatura viva sendo feita. Eu, por exemplo, gosto muito de Maurício de Almeida, que é um autor da minha idade. Acho ele brilhante, um gênio mesmo. Gosto do João Carrascoza, da Adriana Lisboa, que também é uma escritora de primeira grandeza. Nossa, tanta gente… Adriana Lunardi, Andréa Del Fuego, Julián Fuks. Tem muitos nomes aí que deveriam estar em circulação e ser tão conhecidos quanto as séries de streaming. Ou mais, eu acho melhores.

CADERNO EXPRESSÕES – Hoje, é comum que leitores, principalmente em comunidades de redes sociais, evitem a literatura que desconcerta ou “incomoda”. O que é possível fazer diante desse contexto quando se produz obras que podem ser consideradas disruptivas?

RAFAEL – Acho isso um grande problema. Não sou mais tão jovem, estou com 42 anos, e já vejo uma mudança. Por exemplo, vejo que de onde eu vim, esse dissenso era bem-vindo. O que era diferente, disruptivo, era bem-vindo. Hoje parece que, mesmo a ala progressista, ou de esquerda, fora da lógica de mercado, tem um discurso que está plastificado, formulado e racionalizado de uma forma que virou mercadológico. A gente vê certos discursos sociais muito importantes, não ponho isso em causa, mas que adquiriram um teor de falas prontas, que todo mundo sabe e vai concordar, ser um consenso. Muita gente, inclusive, começa a colocar na literatura a busca dessa aprovação. Por exemplo, as questões femininas. O feminismo é super importante, não é um discurso do homem contra isso. Ao mesmo tempo, acho esperado que isso seja questionado a partir do momento que isso é cooptado pelos grandes publicitários. Hoje vemos propagandas de grandes grupos comerciais com toda essa pauta, até em relação ao pink money, do público LGBTQIA+. Então, não é mais dissociativo ou disruptivo. A gente tem que ter um espírito crítico em relação a isso, até para a conversa ficar mais complexa e completa. Senão vamos ficar colocando as coisas em novas gavetas. De fato, gavetas melhores do que as de antes, que ridicularizavam, por exemplo, pessoas do grupo LGBTQIA+. E acho que o mais importante é abertura, realmente estourar as gavetas. Não quero uma gaveta melhor, quero não ter gavetas.  Que pessoas de qualquer minoria possam ser vistas de forma completa, possam ser mocinhas, vilãs, complexas, ambíguas, cometer atos questionáveis e tudo mais. Porque a vida é isso, na verdade.


Ana Muniz

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), amante das artes e mãe de gato.

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