Giovanni Vellozo

Para a pianista Bianca Gismonti, lar e palco se misturam desde muito cedo. Filha do multi-instrumentista Egberto Gismonti, ela iniciou a sua carreira musical acompanhando o pai aos 15 anos de idade. A partir desse contato familiar, Bianca começou a traçar o seu próprio caminho no cenário musical nos anos 2000, com o projeto Duo Gisbranco, em parceria com a também pianista Cláudia Castelo Branco.
Já na década seguinte, as atividades do Duo se intercalaram com a de um Trio de piano, baixo e bateria. Com três discos de estúdio gravados — Sonhos de Nascimento (2013), Primeiro céu (2015) e Desvelando mares (2018) —, o projeto é atualmente formado por Bianca, pelo baterista e esposo, Júlio Falavigna, e pelo baixista, Fernando Peters.
Na semana passada, Bianca veio até Florianópolis para duas programações distintas. Na sexta-feira (11), no Shopping Villa Romana, em Florianópolis, o Trio apresentou no projeto Sexta Jazz AF (da Aliança Francesa) o show Gismonti 70. O concerto trouxe reinterpretações que atravessam várias fases da obra do pai de Bianca, em um projeto concebido em 2017 como homenagem aos 70 anos do músico.
Já no sábado (12), a proposta foi um Novo Set, demonstrado ao público no Instituto Casa Nobre, na Guarda do Embaú em Palhoça. Por lá, foram interpretadas versões de canções da MPB e músicas autorais de Bianca, incluindo peças inéditas em disco. As próximas apresentações do Trio acontecerão em Porto Alegre (18 e 19/10, no Espaço 373) e Joinville (22/10, na abertura do Harmonia Jazz Festival, na Harmonia Lyra).
Em entrevista ao Caderno Cultural Expressões, Bianca falou um pouco sobre o seu processo criativo, as influências do seu som e as muitas misturas e mudanças por trás das apresentações na cidade.

CADERNO EXPRESSÕES – Bianca, você veio para a região de Florianópolis para duas apresentações: uma voltada ao repertório especificamente com o seu pai; e outra com sua obra, assim como versões de outros artistas. De que modo essas duas propostas diferentes dialogam e refletem a sua formação musical?
BIANCA – Acho que não são duas propostas. Para mim, minha formação musical faz parte exatamente da mistura de estilos, repertórios e influências. Uma delas sendo a do meu pai, que também já é uma influência “misturada”, digamos assim. Então, claro, é muito específico o repertório em homenagem ao Egberto. O Gismonti 70 foi pensado em 2017, em homenagem aos seus 70 anos, pensando em pegar o repertório desde a década de 70 e passando um pouquinho pelo histórico dele. O Novo Set, que é o show que a gente vai apresentar na Guarda no sábado, também tem isso tudo que estou comentando. Ele tem uma cara dessa mistura que inclui também arranjos para MPB, completamente inusitados, das versões originais. Então, é como se fossem versões composicionais em cima de canções muito conhecidas. Mas, para mim, é um pouco tudo “a mesma coisa”. Para o ouvinte, acho que é diferente. Principalmente para quem conhece o repertório do Egberto. Porque acho que, como escutei o repertório dele desde criança, não sinto a necessidade de mudar. É como se a música dele fosse a minha própria, então não sinto muita necessidade de mudar radicalmente o arranjo dele.
CADERNO EXPRESSÕES – Nessa questão da composição dos arranjos, queria saber se você traz as ideias pré-definidas ou se é feito a partir dos ensaios. Como é essa dinâmica interna no Trio?
BIANCA – Na verdade, é uma dinâmica múltipla, né? Tem muitas coisas. Os arranjos de MPB, especificamente, fiz em cima dos clássicos. Porque originalmente eles eram para piano, bateria e percussão. Então, basicamente, digamos, o arranjo seria feito pelo piano e depois que entrou o Nando [Fernando Peters] tocando baixo, começou a mudar para que o baixo não apenas tocasse coisas. Ele entrou no arranjo e foi mudando. Esse repertório novo tem muitas composições novas, que fiz já com o próprio Nando na formação. Aí a composição e o arranjo estão meio juntas. E como sou casada com o Júlio [Falavigna], sempre toquei as músicas embrionariamente com ele. Então, a bateria, não sempre, mas geralmente faz parte da ideia desde o início.
CADERNO EXPRESSÕES – Tanto no repertório do seu pai quanto em algumas das músicas que estão no Novo Set, como “Consolação” do Baden e do Vinicius, as versões originais por vezes são pensadas para outros conjuntos que não um Trio de piano, baixo e bateria. Além disso, tem os elementos idiomáticos do violão para o piano, esses diálogos que seu pai, inclusive, faz muito bem. Às vezes, você tem uma composição que originalmente poderia ser para o violão, ou talvez até para um arranjo mais grandioso, orquestral, e você precisa trazer para o contexto do Trio. Isso gera algum desafio?
BIANCA – Desafio é só o que me interessa [risos]. Assim, da minha personalidade, acho que o desafio é o que me instiga. Essa questão que você falou do violão, por exemplo, no caso do meu pai, ele é um violonista e pianista. É uma característica de cada instrumentista. Quando você toca mais de um instrumento é diferente da minha forma de fazer, porque eu não toco violão. Não que você dissesse que é a mesma coisa, só estou comentando.
Mas, por outro lado, tem uma coisa interessante nisso: a MPB é basicamente centrada no violão. Claro que tem alguns compositores, por exemplo, Tom Jobim, que é no piano, mas é muito mais raro do que no violão. Então, não é que fiquei: “quero escolher músicas de violão”, especificamente. É porque acaba que a maioria do repertório é assim… Baden Powell é uma grande referência, também, como violonista. João Bosco é uma referência como violonista, assim como Lenine… Acaba que são linguagens, no tal do desafio, que são singulares. Então, também me atrai. No fundo, o que me interessa é a minha composição, o que eu falaria sobre aquilo. Porque, para mim, é isso que tem alguma utilidade: o que eu tenho a comentar sobre aquela música, seja ela qual for.
CADERNO EXPRESSÕES – O que você anda ouvindo e mais te influencia recentemente, nessa questão da interpretação ao vivo?
BIANCA – Tenho um ouvido bem eclético [risos]. Mas é o seguinte… Acho que tem um período, que vem desde antes do Nando tocar com a gente, no qual a gente tocou durante muito tempo com o baixista Antônio Porto. Essa formação de Trio, do piano com a bateria e o baixo, trouxe muita influência de outro tipo de repertório que não era o que eu escutava.Há alguns anos, eu estava indo mais para uma sonoridade “jazzística”, ou de rock, ou africana, para uma linguagem que foge da coisa pianística originária. E acho que isso segue.
Agora, também acabo me interessando um pouco mais por um jazz europeu. A gente sempre comenta do Tigran Hamasyan, do Dhafer Youssef… No último disco que a gente lançou, Desvelando Mares, acho que esses compositores que têm uma mistura meio folclórica junto a uma música contemporânea ainda continuam [sendo referências]. Outra influência de sempre é a Hiromi, pianista japonesa.
Nos últimos tempos, tenho feito uma escuta de coisas que me fizeram falta. Uma sonoridade “mais nova”, de pop, rock, que eu escuto e penso “escutei isso no erudito”. Acho que tudo, de alguma maneira, acaba influenciando. Como compositora, tudo que escuto acaba entrando na composição ou no arranjo. Então, quem acompanha o que estou fazendo está, de alguma forma, ouvindo o que eu estou ouvindo, porque aquilo vai reverberar.
CADERNO EXPRESSÕES – Sobre o show relativo ao Egberto, como surgiu a ideia, lá em 2017, de fazer essa homenagem ao seu pai?
BIANCA – Meu pai ia completar 70 anos em dezembro de 2017. Então, no início do ano, pensei em como eu poderia agradecer a ele. Não só obviamente por ele ser meu pai, mas também porque comecei a tocar com meu pai, muito nova, com 15 anos. Foi um marco muito grande em todos os sentidos, mas em especial nesse sentido de contato com o palco. Acho que a coisa mais forte que ficou e até hoje busco é um palco que é como se eu estivesse em casa. Não faz diferença entre eu estar aqui conversando com você ou tocando no palco. E como, para ele, tudo é muito fácil de tocar. Mesmo que fosse difícil para mim, era fácil. Porque eu era muito nova, era um repertório muito difícil, mas aquela comunhão sempre aconteceu e se por um acaso fosse difícil para mim, ele resolvia. Resolvia no sentido que sempre ficava incrível. Ao mesmo tempo, era um público que já acompanhava ele há muitos anos, então era um público fácil. Eu não tive essa vivência de ter medo do público.
Então, pensei: “como agradecer?”. E desenvolvi tocando a música dele, que sempre toquei e ouvi. Aí foi um processo longo, porque o repertório da vontade de fazer tudo. Tudo significa alguma coisa. Comecei a pensar, “ah, vou tentar pegar, sei lá, do Sonho 70”. Claro que eu já tocava algumas, mas muitas músicas, inclusive “Loro”, músicas óbvias assim, eu nunca tinha tocado.
CADERNO EXPRESSÕES – Fiquei pensando justamente nisso, como foi essa seleção?
BIANCA – Algumas eu já tocava desde sempre e é um fato que iriam permanecer. “Forrobodó”, que é do meio da década de 90, de quando eu acompanhava os shows dele enquanto era criança. Mas, por exemplo, “Loro”. Não existe não tocar “Loro”, tem que tocar “Loro”. Claro, depois a gente fez um disco que vai ser lançado, espero, este ano, aí começa “Frevo”, que eu não gravei, começa uma outra lista…
Foi uma mistura. Coisas que me tocavam muito e, ao mesmo tempo, achava que faziam sentido. Muitas pessoas são “apegadérrimas” à fase do meu pai fazendo canções na EMI, sabe? É muito engraçado isso. Talvez você tenha acompanhado mais a fase instrumental, mas um pessoal ficou naquela fase e, quando eu tocava algo mais inicial, era forte para eles. Tiveram muitos discos cantados. Então, quis colocar uma coisa ou outra.
CADERNO EXPRESSÕES – Nesse período inicial, ele faz várias regravações da própria obra. Queria entender justamente se, revisitando essas gravações, foi possível fazer uma seleção de elementos ou características para seu show.
BIANCA – Acompanhei o meu pai principalmente a partir da década de 90. As versões mais clássicas, para mim, são as versões que ele fez a partir de 90. Por exemplo, o próprio “Palhaço”. “‘Palhaço’ do Circense, a coisa mais linda do mundo”, mas não é a minha referência. A minha referência é piano solo. Então, o que primeiro veio, para mim, especificamente, foram as referências que eu tinha incrustado em cada célula do meu corpo, do que sempre escutei. Por exemplo, para “O Sonho”, minha referência era Elis Regina, que não tem nada a ver com a dele originalmente.
Depois da época que o baixista era o Toninho [Antônio Porto], fiz todo o repertório e alguns shows; e fizemos ensaios com meu pai junto. Foi maravilhoso, porque meu pai, como você deve imaginar, é um baita de um criativo e ele ama que você revolucione também. Ele passou a ter ideias em cima das ideias que a gente tinha.
CADERNO EXPRESSÕES – Qual foi a reação do seu pai ao concerto?
BIANCA – Ah, muito forte, muito bonito até hoje. Agora a gente deve lançar finalmente esse disco, que acabou ficando parado na pandemia. Há uns dois meses, ele mandou comentários faixa a faixa — porque meu pai é do estilo de mandar textos gigantescos. Tem uma coisa que é evidente: a mesma relação que tenho com ele sendo meu pai, ele tem comigo sendo a filha dele, óbvio! É uma coisa que toca ele de uma forma diferente. Ele sempre participa muito, e acho que, claro, o repertório dele sempre faz parte. Mas ele vem acompanhando e é uma pessoa muito sincera. Como sou muito próxima, ele pode ser completamente sincero. Então, quando ele não gosta, fala sem o menor problema.
CADERNO EXPRESSÕES – Para o Trio, há diferenças entre plateias de shows atualmente em comparação às de antes da pandemia?
BIANCA – Cada músico que toca junto influencia e modifica a maneira de tocar. Por exemplo, o Nando que está com a gente agora, toca de uma forma muito diferente que o Toninho tocava, e temos uma tendência de querer que a personalidade de cada um apareça. Independente se é pandemia ou não, isso já influenciaria.
No meu caso específico, a pandemia me trouxe um filho e perdi minha mãe [a atriz Rejane Medeiros, falecida em junho deste ano], dois marcos muito fortes. Tem uma mudança interna muito grande no fazer musical e no que eu quero dizer. Outros momentos anteriores também tiveram [mudanças], mas a pandemia trouxe uma urgência para muitas pessoas e também para mim, mas ele acabou tendo esse significado extra. O período da pandemia muda totalmente o estado de quando eu estava em 2019 em relação a hoje. É como se houvesse uma urgência para mim, de uma tradução de algo a dizer na música.
E acho que sim, o público reflete. O primeiro show que a gente fez com o Nando foi no final do ano passado, com o repertório em homenagem ao meu pai. O público estava totalmente enlouquecido. Todo mundo sempre amou as músicas, mas eu senti que teve uma diferença. Talvez esse hiato que veio da pandemia, e, no meu caso, a maternidade e doença da minha mãe, resultaram em uma entrega maior mesmo. Um encaixe de um sentido naquele repertório e foi mais intenso.
A pandemia foi muito diferente para a história de cada um, e ela em si trouxe muitas mudanças. Eu sinto diferença. E como eu comentei antes, os meninos também estão trazendo algo novo. Não só eles em si, o Nando dentro do Nando, é mais a maneira que o Nando toca para o Júlio. A maneira que o Júlio toca a bateria, a bateria em relação a mim, é uma peça que entra e muda o conjunto.
CADERNO EXPRESSÕES – Essas dinâmicas entre os músicos variam de conjunto para conjunto?
BIANCA – É totalmente diferente. Eu tocava com a Cláudia, comecei a tocar com ela em 2002, na faculdade. E a gente estreou em disco em 2005. Quando a gente começou a tocar junto no Trio, em 2011, e depois estreamos com o primeiro disco em 2013, eu já tocava com a Cláudia há muito tempo. Brinco com os meninos que foi uma sensação de “ah, posso parar de tocar que a música continua”. Porque o baixo, a bateria, seguem. É impressionante, muito diferente. É muito linda essa coisa de tocar com eles e com o Duo. E a Cláudia também tem o trabalho dela.
Falamos muito sobre isso entre nós. O Duo criou uma “linguagem Duo”. Que é, inclusive, no início, um pensamento de arranjo mesmo, para não ficar no centro do piano. Era uma coisa meio orquestral das duas. Agora essa coisa de sair para tocar com os meninos e vai… É uma sensação bem diferente.
CADERNO EXPRESSÕES – Você falou que a música continua. Isso tem a ver também com momentos de improvisação de cada um?
BIANCA – Não, é porque o arranjo do Duo Gisbranco é todo costurado. Ele é uma teia em que não existe uma sem a outra. Necessariamente eu toco e a Cláudia toca. O conceito do Duo Gisbranco nunca é de acompanhamento. Ele é sempre de tapeçaria, assim, de tecer. A gente também faz muitos arranjos, mas é diferente porque se você tem uma rítmica e um baixo, o baixo determina a harmonia, e tem ainda a rítmica da música. Claro que tem sessões de improviso também, mas acho que é mais por causa disso. É como se já existisse os dois fazendo a base, e aí você vai construindo o conceito.
CADERNO EXPRESSÕES – Você comentou que o Trio chegou a gravar um disco ligado a esse repertório, mas ele ainda não foi lançado. O que houve? Foram feitas mais gravações de lá para cá, em overdubs?
BIANCA – Já tem um tempo em que a gente grava em uma gravadora húngara, a Hunnia Records. Aproveitávamos as turnês do Trio na Europa para fazer a gravação, ou depois para fazer a mixagem. A gente fez isso em 2018. Fizemos a turnê em 2017 e em 2018 gravamos o disco. A ideia era exatamente de que na turnê de 2020 a gente faria a mixagem.
A gente fez um mês de turnê na Índia e ia fazer na Europa, até que veio a pandemia. Como todas as pessoas, não sabíamos o que viria, se duraria um mês, dois meses, um ano… Ninguém sabia. A gente foi protelando e viu que não ia voltar. Aí sim, fizemos alguns overdubs no Brasil, de voz principalmente. Foi a minha voz nas três faixas e violão do Toninho, que era baixista, em uma faixa.
Nunca voltava, nunca voltava, nunca voltava. Aí veio o Amadeu, meu filho, que tive em 2021, impossibilitando a volta para a Europa. Até que a gente assumiu: “está bom, a mixagem vai ser à distância”.
Fizemos a mixagem e só agora tirei as fotos para o disco. Então, o disco ficou pronto no passado, de mixagem, o áudio, mas a gente fez este ano a parte gráfica. Mas não mexemos no original da música. É muito interessante ouvir que a gente fez uma turnê longa e gravou o disco no final. Ele tem um som muito fresco, é um disco com muita cara de show. E é tudo gravado junto, então tem essa sonoridade. Até hoje escuto e penso “poxa, que legal”. Soa muito espontâneo.
CADERNO EXPRESSÕES – Para finalizar, eu queria saber o que você espera dessas apresentações aqui pelo Sul do Brasil e o que o público também pode esperar da apresentação.
BIANCA – É difícil, né? Falar do desejo do outro. Para mim, nesse momento do Trio, estou com a necessidade de falar sobre isso. Tanto o Gismonti 70 quanto o Novo Set, são momentos de muita conexão mesmo. Você tá falando de disco, por exemplo, já temos o repertório do próximo disco do Trio. Está lá a tapeçaria, tem músicas que a gente está fazendo que estão nesse novo show também.
CADERNO EXPRESSÕES – Há previsão de gravar essas novas composições?
BIANCA – Quero gravar no ano que vem. A gente deve tocar algo amanhã [sexta-feira (11), no show Gismonti 70] e lá na Guarda [sábado (12), no show Novo Set]. Depois vamos tocar em Porto Alegre e Joinville. Assim, para quem é fã do Egberto, o show desta sexta-feira é um prato cheio, porque é um monte de música maravilhosa. Acho que tem uma conexão muito forte com ele, porque eu sempre tive. Esse repertório todo está bem singular.
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