Marcelo Pedrozo

Uma série de assassinatos com uma característica em comum: todas as vítimas são engenheiros da indústria da celulose, que aplicaram para uma vaga falsa divulgada por Bruno Davert (José Garcia), nosso protagonista e o assassino em questão. O motivo dos homicídios? Bruno, desempregado há tempos, quer eliminar a possível concorrência para um cargo dos sonhos. A vaga nem está aberta ainda — sua última vítima será o homem que a ocupa hoje em dia.
Essa premissa nada convencional é o início de uma reflexão sobre capitalismo, luta de classes, pressão social e idealização do trabalho como agente máximo da identidade humana. Mas, mais do que trazer críticas sociais — que infelizmente continuam tão relevantes hoje como eram em 2005 —, Le Couperet faz isso exagerando a situação e mostrando um contexto extremo. São assassinatos cometidos por um protagonista obcecado, vítima do sistema capitalista em que está inserido, e seu plano absurdo denuncia a crueldade exercida por esse sistema.
Entendemos de onde vem o desespero de Bruno, e até torcemos para que ele consiga sua pretensão, mesmo sob meios tão cruéis. (Há uma sequência na qual ele sonha que conseguiu o cargo almejado, e confesso que fiquei feliz por ele e me decepcionei quando ele acorda do sonho.) O desespero de um homem que, apesar de tudo, ainda é uma vítima, me comoveu, e me peguei do lado dele durante boa parte do filme.
Mais do que me comover e me fazer refletir sobre capitalismo, Bruno também me divertiu. O jeito como é atrapalhado nos assassinatos, como faz piadas nos momentos mais inoportunos, trouxe leveza a uma história supostamente séria, que traz críticas sociais importantes e tem uma premissa tão pesada. Foi um filme em que dei muitas risadas, algo que eu não estava esperando quando comecei. Mas fico feliz: não é todo dia que assisto a um filme que consegue passar tantas emoções diferentes sem que elas compitam uma com a outra.
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