Reportagem por Fernanda Zwirtes

“Foi condenado! Ele que falava que não era coveiro, foi condenado!”
O homem sorri. Finaliza o áudio que envia pelo seu celular. Ajusta na cabeça o capacete, afivela a mochila vermelha com a logo de um aplicativo de delivery de comida e sobe na moto. Dá a partida no veículo, acelera e desaparece de vista para realizar mais uma entrega. É quinta-feira, 11 de setembro de 2025, 18h. Algumas horas atrás, a ministra do STF, Cármen Lúcia, votou pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Aquele que, enquanto as mortes de Covid-19 no Brasil subiam dia sim, dia também, declarou “não ser coveiro”.
O voto da única mulher na mais alta corte do Brasil condenou sete coreligionários do ex-presidente na Ação Penal nº 2668, que julga a trama golpista. Por maioria simples, somando três dos cinco votos, pela primeira vez na história do Brasil, um ex-chefe do poder executivo brasileiro, foi julgado e condenado por tentativa de golpe de Estado. “Arou-se um terreno social e político para semear o grão maligno da antidemocracia”, definiu Cármen em seu voto. Jair Bolsonaro obteve sua condenação pela voz da única ministra mulher no julgamento.
Ao caminhar pelas ruas de Florianópolis, era possível ver pessoas acompanhando a transmissão ao vivo do juízo, numa tentativa de balancear a ansiedade pelo desfecho com a compreensão do juridiquês da alta corte. As palavras “condenação”, “julgamento” e “Bolsonaro” começam a ser ouvidas com uma efervescência após o meio da tarde. A expectativa paira no ar: resta o voto do ministro Cristiano Zanin. Sendo a penúltima ministra a votar, Cármen Lúcia preferiu uma fala breve e objetiva que durou uma hora e quarenta minutos.
Seu colega Luiz Fux, que se transformou em protagonista no dia anterior, não teve tanta celeridade. Em 14 horas de um discurso prolixo, condenou Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, e Walter Souza Braga Netto, candidato à vice-presidência em 2022, por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Ele foi o único a discordar da posição dos demais ministros. “Jogou os colegas aos lobos”, afirmaram fontes exclusivas. Em troca, poderá ir à Disney quando quiser.
A impaciência das 14 horas deu lugar à surpresa pela brevidade do voto de Cármen, seguido pelo discurso de Cristiano Zanin, que durou duas horas e quarenta minutos e condenou todos os oito réus. Já é final de tarde: o movimento de pessoas próximo a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aumenta. Às 18h10, a primeira turma do STF começa a julgar a dosimetria da pena dos acusados. O desfecho é adiantado em um dia – era previsto que o gran finale se daria na sexta-feira.

Escuta-se um arrasta-arrasta de cadeiras nos bares mais próximos, que começam a receber clientes mais cedo do que o usual para uma quinta-feira. Os olhos atentos às telas contam os minutos. Transmite-se o julgamento ao vivo nos bares, como se fosse um jogo de Copa do Mundo. Hoje, a vitória é outra.
Aproximadamente uma hora depois, segue-se a sentença.
Jair Bolsonaro é condenado a 27 anos e três meses de prisão, por liderança de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
Parte daqueles que comemoraram a decisão, não aguentaram esperar a sexta-feira – dia em que, culturalmente, os brasileiros saem às ruas para descontrair. Entre um e outro litrão de cerveja, pouco se comenta sobre os outros réus, também sentenciados a penas privadas de liberdade. O que está na boca do povo nesta noite, além do álcool, é o nome de Jair Bolsonaro. Lado a lado com o adjetivo “condenado”.
“Não podes ficar triste hoje, é um dia histórico!”, comenta uma jovem a seu amigo, durante o almoço. É meio dia da sexta-feira. Nas mesas do restaurante universitário, o assunto está vivo. Entre o arroz e o feijão, servido religiosamente todos os dias, são feitos os planos para a noite – a maioria irá ao centro da cidade, onde se aglomeram os bares de samba, rock e pagode. Um bar promete 50 litros de chopp grátis.
Durante o decorrer do dia, é possível notar pessoas caminhando apressadas, algumas vestindo verde e amarelo. As mesmas cores que, pouco tempo atrás, eram utilizadas por apoiadores de Jair Bolsonaro, inclusive por ele próprio, numa tentativa clássica de performar uma pantomima patriótica. Nas ruas, vendedores comercializam camisetas estampadas com a figura do ex-presidente atrás das grades.
Os sinos da Catedral, localizada no centro da cidade, anunciam o fim do expediente: são 18h de sexta-feira. Mas, antes mesmo do dia de trabalho ser oficialmente terminado, as ruas já lotavam. “Hoje vai ser um carnaval”, diz Olívia, 24, estudante de geografia, enquanto espera o ônibus que seguirá para o terminal central. Ela e sua amiga, Maria Eduarda, 24, vestiam verde e amarelo.
“Ah, droga. Os 50 litros de chopp grátis esgotaram em 20 minutos”, comenta outra jovem no ponto de ônibus. Apesar da decepção momentânea, não é motivo para desesperar-se. Há muitas promoções nos bares. Um deles emite a nota fiscal com uma imagem de duas mãos algemadas fazendo sinal de arma de fogo – gesto comumente praticado por Bolsonaro. Abaixo da grafia, lê-se “Papuda” – nome popular do Complexo Penitenciário da Papuda, de Brasília (DF), que já recebeu réus de grande repercussão política, como Eduardo Cunha e José Dirceu, e pode ser o destino do ex-presidente, caso vá preso em regime comum.
Ao chegar no centro da cidade, a cena é carnavalesca. A quantidade de pessoas nas ruas torna difícil caminhar livremente. Nas mãos, copos de cerveja, caipirinha, whisky com energético, cigarros dos mais variados conteúdos, drinks com vodka barata e, esporadicamente, a cintura de alguém. O barulho é ensurdecedor: há grupos de percussão tocando tambores, que se misturam romanticamente com o som de clarinetes e trompetes que soam a alguns metros de distância.
A temperatura chegava aos quinze graus e o vento sul, que anunciava uma frente fria, não adentrava a multidão. O calor do movimento e da dança impele o frio marítimo. As diferentes aglomerações musicais tocam canções já conhecidas pela boca de todos – um repertório que vai das marchinhas de samba ao funk de Anitta. Intercalados com gritos e palavras de ordem que pedem, mas também ordenam. “Sem anistia!”.
“Está sendo incrível. Mas eu nunca vi tanta gente na minha vida”, responde apressada uma jovem que atende um dos bares mais lotados. Sua testa está suada e ela agiliza o pedido de uma outra moça que pediu três caipirinhas de uma só vez. A fila para comprar alguma bebida tem no mínimo vinte pessoas, e não diminui. O cenário se repete na extensão das ruas que ligam paralelas à Avenida Hercílio Luz e a Praça XV de Novembro.
Nelas, a demografia se confunde numa miscelânea de rostos. A multidão é tão heterogênea que não alcançaria descrições fáceis – é mesmo um carnaval. Há jovens com o típico bigode brasileiro e cabelo cortado à lá anos 70, idosos que, à revelia das condições impostas pela idade, estão sambando, crianças no colo de suas mães que permanecem serenas e alegres em meio à folia. Rockeiros, sambistas, alternativos, pagodeiros e, arrisca-se a dizer, até mesmo amantes da música clássica e erudita, estavam nas ruas dançando e comemorando.
Em meio à tanta gente, não se perder das companhias enquanto se transita apertado pelo meio desses tantos corpos torna-se difícil. Henrique, 21, estava no meio da multidão desencontrado. “Não sei se vou conseguir encontrar minha galera tão facilmente, mas tô feliz que o Bolsonaro se ferrou”, diz. Apressado, se mete no meio da multidão e segue rua abaixo. “Mas é aquilo, não é? O povo que não conhece a sua história, tende a repeti-la”, grita, já meio alterado, e logo desaparece no meio da gente.
A opinião de Henrique dá uma dica de que a comemoração não é um otimismo cego, mas sim um alívio – talvez até paliativo. Há quem diga a expressão “reparação histórica”. A noite é de festa, isso é inegável, mas há fatos que nem mesmo o álcool e a folia podem esfumar. É a primeira vez que militares como Bolsonaro e os demais réus são julgados e condenados por crimes contra à democracia. Ela, que respira jovem e delicada nas linhas da história brasileira.
É impossível não rememorar as cenas de destruição que capitanearam o dia oito de janeiro de 2023, vilipendiando diversos símbolos da história e democracia do país. Ou mesmo os 700 mil mortos durante a pandemia, vítimas de um sistema de saúde sucateado e, sobretudo, da desinformação e da inércia do governo da época. Ainda há lacunas históricas: os presos, mortos e torturados durante os 21 anos de ditadura militar e a impunidade de seus assassinos e torturadores. Período que gerou o embrião do militarismo contemporâneo presente na ala conservadora brasileira – o rizoma de Jair Bolsonaro.
Na noite de sexta-feira, muitos brasileiros foram às ruas. Cada um que ali dançava esteve a poucos passos de ter seus direitos fundamentais violados com a tentativa de um golpe de Estado. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida”, afirma um rapaz que, coincidentemente, perdeu o pai, militante comunista durante a ditadura militar brasileira, há exatos quatro meses. Para ele, o que aconteceu nesta sexta-feira carnavalesca também é memória. Perguntado o que contará ao seu futuro filho sobre este dia, falou sobre esperança. “Hoje é o dia em que o Brasil expurgou os fantasmas do seu passado”, afirmou, emocionado, entre um gole e outro de cerveja.









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