
Lavínia (2008), romance da escritora estadunidense Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018), chegou ao Brasil em 2025 pela tradução de Helena Coutinho através da Morro Branco, editora recentemente adquirida pelo grupo Alta Books em meados de 2024.
Filha do conhecido autor de A Natureza da Cultura (1952), o antropólogo Alfred Kroeber – a quem talvez deva sua verve analítica e sua atenção quasi-etnográfica aos fenômenos culturais em seus livros –, Le Guin é conhecida dos círculos de ficção científica e de fantasia, e tornou-se mais recentemente um nome frequente no circuito comercial e nas prateleiras das livrarias brasileiras (físicas, as que persistem; também naquelas obsessivamente digitais, um desconforto que manifestou em mais de uma ocasião ao discutir os rumos da literatura e da escrita criativa). Se na maior parte de seus escritos a autora preferiu o caminho da ficção especulativa – ou da “ficção científica social”, como sugeriu em mais de uma ocasião – para abordar o estranhamento, os dilemas e os conflitos ligados à diferenciação cultural em contextos de colonialismo, catástrofes ecológicas, relações de gênero e a utopia política, em Lavínia a autora optou pelas portas abertas pela épica do poeta romano Públio Virgílio Maro (70-19 AEC) há mais de dois mil anos.
Lavínia reconta os eventos da segunda metade da Eneida de Virgílio pela voz da princesa latina de mesmo nome, filha do rei Latino e da rainha Amata, e pelo pai prometida em casamento ao herói troiano Eneias para a forja de uma aliança entre os dois povos. A personagem não recebe uma única fala ou ação direta no poema de Virgílio. Já na proposta narrativa de Le Guin, Lavínia narra sua juventude no Lácio, o surgimento dos presságios que anunciavam a vinda de Eneias, a chegada dos troianos, a guerra entre troianos e latinos, e, após a morte de Eneias, a estória alcança os primeiros anos do reinado de seu filho Sílvio e a fundação de Alba Longa.
Em que pese ter recebido o prêmio Locus no ano seguinte ao seu lançamento – um importante prêmio na cena literária da ficção especulativa -, Lavínia é a obra de ficção menos intuitivamente comercial de Le Guin, talvez por partir do franco diálogo com um poema que, se bem conhecido na literatura clássica, certamente é menos lido do que se admite. É um livro que dialoga com Virgílio temática e historicamente, naquilo que toca aos eventos retratados nos versos épicos e informado pela historiografia cultural mais recente, e também de forma metalinguística, através de significativos diálogos entre a protagonista e o próprio poeta em seus sonhos.
Pode ser relevante levar em conta que diferentemente de outras obras contemporâneas que retratam a épica antiga a partir de personagens não centralizados nas obras originais (pensemos, por exemplo, em Margaret Atwood com A Odisseia de Penélope, livro de 2005, ou na obra de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, de 1979), em Lavínia encontramos um diálogo com as muitas lacunas deixadas pelo próprio cânone latino, e não um revisionismo acabrunhado direcionado contra os poemas originais. Somente uma leitura apressada ou demasiadamente pré-formatada poderia sugerir que Le Guin procura demolir o herói virgiliano em benefício da personagem feminina.
Le Guin não constrói uma releitura orientada pela “desconstrução” ou pela “ressignificação” (palavras do momento na publicidade literária) frontais da épica antiga. Interessa-se, antes, por explorar pontos de vista e personagens que estão presentes no poema, mesmo que menos visados por Virgílio, entre as lacunas dos hexâmetros datílicos. Não há tentativa de corrigir o épico romano por uma régua moral exterior ao seu tempo nem, quiçá, de contar a “verdadeira história (nunca antes contada!)” das origens de Roma. Tampouco Le Guin pretende inovar ao narrar a violência que funda uma nova comunidade política. O que encontramos é uma peça literária que simplesmente, admitiu Le Guin, busca recontar em prosa uma das possíveis leituras daquilo que o próprio poeta contou aos seus ouvintes contemporâneos e a nós, leitores tão posteriores.
A personagem Lavínia da Eneida, rigorosamente silente de qualquer verso próprio no original romano, tem importância política imensa na trajetória de Eneias. Dessa princesa latina, transformada em protagonista por Le Guin, depende a aliança original entre troianos e latinos e o estabelecimento das cidades que fundarão a Urbe romana. O que distingue a versão de Le Guin é a maneira como transforma os mesmos eventos naquilo que poderiam ter sido para povos do Lácio, o que inclui tanto aqueles favoráveis à aliança com Eneias (como Lavínia e seu pai) quanto aqueles hostis aos estrangeiros (como Turno e a rainha Amata). Ao invés de “ocupar” (mais uma perigosa palavra de ordem da moda literária) a narrativa por meio de algum anacronismo psicológico, a autora imagina as formas de consciência de uma jovem latina situada no mundo agrário e pagão anterior àquela Roma urbana e imperial que nos é imageticamente mais familiar. A Lavínia de Le Guin não se torna interessante porque pensa como nós, como se fosse uma viajante no tempo do século XXI questionando os valores que a cercam, mas porque Le Guin se esforçou genuinamente, com razoável grau de verossimilhança, para que a personagem se expressasse a partir de seu próprio chão histórico (ou, pelo menos, aquilo que historiadores e classicistas presumem sê-lo).
Essa escolha altera o eixo pelo qual acompanhamos a narrativa. Na Eneida, embora a dimensão ritual e religiosa fosse constante, o ouvinte-leitor, como se estivesse diante de Homero, acompanha os feitos de guerreiros, chefes de guerra, exilados e fundadores. Em Lavínia, o espaço privilegiado é o da casa (no sentido do óikos greco-romano), dos altares domésticos dos deuses Manes e Penates, dos bosques sagrados, do ritmo das colheitas na vida cívica e dos vínculos de parentesco que sustentam a comunidade. Sem dissolver completamente as características gerais da épica – as armas, os deuses, os heróis –, Le Guin traduz Virgílio ao adicionar o espaço cívico e a infraestrutura social que são condição de possibilidade para os embates do fundador de Roma. Talvez por isso a reconstrução da religiosidade latina arcaica constitua uma das realizações do romance. A narrativa não se concentra nos deuses antropomorfizados de Homero, Virgílio ou Ovídio, e se volta antes aos numina, às forças naturais presentes nos bosques, nas fontes, nos rios e nos gestos cotidianos. O sagrado manifesta-se como presença entranhada na geografia, no ciclo das estações e nos trabalhos ordinários, especialmente aqueles capitaneados por Lavínia como sacerdotisa de seu lar.
Outro elemento digno de atenção está nos diálogos entre Lavínia e a própria persona poética do poeta Virgílio em seus sonhos. As cenas poderiam facilmente descambar para o artifício, bem ao gosto do solipsismo pós-moderno, de gastar a maior parte das páginas da literatura para refletir sobre si mesma. Ocorre o contrário: sem saber como ali chegou, nem quanto tempo poderá conversar com Lavínia, o poeta surge melancólico, situado entre a vida e a morte, consciente das limitações poéticas e ideológicas de sua obra.
Em Le Guin, essa reflexão adquire dimensão afetiva. O poeta reconhece que concedeu a Lavínia apenas alguns versos, muito poucos comparados ao livro inteiro dedicado a Dido, ou mesmo à gloriosa guerreira Camila. Já Lavínia reconhece então que deve sua existência a esses poucos versos. O poeta cria a personagem; a personagem, por sua vez, é aquela que preserva o poeta e justifica sua presença, e que ambos dependem um do outro para sobreviver ao tempo. Não é difícil perceber aqui uma aproximação com o mesmo personagem esgrimado no romance A Morte de Virgílio (1945), de Hermann Broch. Le Guin não reproduz o projeto filosófico rebuscado do escritor austríaco, mas há semelhanças suficientes para perceber a conexão, pois em ambos os casos encontramos um Virgílio angustiado, aflito e descontente, um artista que contempla a própria criação literária e interroga o valor da representação poética diante da experiência humana.
É também nesses encontros que emerge a faceta inovadora do ponto de vista proposto pelo romance. Lavínia, embora apaixonada por Eneias – que tão pouco participa da narrativa direta – observa a guerra de modo incompatível com a celebração da glória militar e das conquistas civilizacionais de que o poema original fazia propaganda. Se o escudo de Eneias, por exemplo, na Eneida apresenta ao herói a futura glória de Roma e culmina na vitória de Augusto, em Lavínia aparece aos olhos da personagem como uma caótica sucessão de guerras, cidades queimadas e corpos submetidos à razão dos vencedores. Não se eliminam do romance as marcas de pietas de Eneias, a dramática morte do jovem Palante ou a coragem de Turno e dos povos latinos, mas para a Lavínia de Le Guin, os campos de batalha são espaços de destruição, luto e desperdício humano, como se a autora unisse à narrativa de Virgílio os modos literários de seu principal rival posterior, o poeta Lucano, autor do épico muito mais pessimista e sombrio A Guerra Civil.
Ao final da leitura, parece razoável supor que uma parte dos leitores experimentará uma renovada curiosidade pelo texto que lhe deu origem, seja para revisitá-lo, seja para conhecê-lo pela primeira vez. As conversas entre Lavínia e o poeta, os ecos da religião arcaica italiana, a reflexão sobre memória, destino e fundação conduzem novamente à obra virgiliana, como se a personagem convidasse o leitor a regressar ao lugar de onde veio.
Em uma época inclinada a converter o passado em objeto de olhar retrospectivo sujeito a apagamentos, cancelamentos e julgamentos dos mais variados, Lavínia optou por dialogar com um cânone da poesia ocidental, de modo que se torna um convite à releitura (no sentido de ler de novo, e não de afirmar o que o poema deveria ter cantado ou de pretender a “verdadeira” interpretação do texto). Coexistindo com o texto antigo, Lavínia de Le Guin reapresenta uma leitura de Virgílio e demonstra, mais uma vez, que os cânones continuam produzindo novas histórias justamente porque clássicos jamais esgotam aquilo que eles contêm.
Bibliografia citada e fontes
ATWOOD, Margaret. A Odisseia de Penélope. Trad. Celso Nogueira. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
BROCH, Hermann. A morte de Virgílio. Trad. Wagmer Schadeck. São Paulo: Sétimo Selo, 2022.
BYRNE, Deirdre. Ursula K. Le Guin’s Lavinia: a dialogue with Classical Roman epic. English Academy Review, v. 29 n. 2, 2012, p. 6-19. Disponível em: https://doi.org/10.1080/10131752.2012.729717. Acesso em: 07 ago. 2026.
FACCHINI, Talita. Grupo Editorial Alta Books adquire a editora Morro Branco. PublishNews, 5 jul. 2024. Disponível em: https://www.publishnews.com.br/materias/2024/07/05/grupo-editorial-alta-books-adquire-a-editora-morro-branco. Acesso em: 07 ago. 2026.
LE GUIN, Ursula K. Lavinia. New York: Harcourt, 2008.
LE GUIN, Ursula K. Lavínia. Trad. Helena Coutinho. Rio de Janeiro: Morro Branco-Alta Books, 2025.
LEIBOLD, Gabriel. Vasculhando a obra de Ursula K. Le Guin: panorama propositivo de novas leituras. Matraga, v. 33, n. 67, p. 134-141, jan./abr., 2026.
VIRGÍLIO. Eneida. Trad. Carlos Alberto Nunes. Org. João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Editora 34, 2016.
ZAPATA, Patricia. Lavinia, de la periferia al centro. Análisis de Lavinia de Ursula K. Le Guin. Cuadernos De Literatura, v. 16, 2021, p. 257–267. Disponível em: https://doi.org/10.30972/clt.0165432. Acesso em: 10 ago. 2026.





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