“A aprendizagem da criança indígena é diferente da não indígena, por que nós valorizamos muito a oralidade”

Delmira Peres pesquisa como ancestralidade, produção literária e conhecimentos transmitidos pela oralidade podem ocupar mais espaço na educação escolar indígena

Ibrahim Khan

Doutoranda e pesquisadora, Delmira investiga a produção didática e literária dos professores Ava-Guarani no Paraná. Foto: Ibrahim Khan.

Pedagoga há cerca de 15 anos, Delmira Peres construiu sua trajetória entre a educação escolar indígena e a pesquisa acadêmica. Passou pela vice-direção de uma escola indígena e, no mestrado, pesquisou a alfabetização em Guarani nos três primeiros anos do ensino fundamental, no Colégio Estadual Teko Ñemoingo, localizado na reserva Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, Paraná.

Atualmente doutoranda na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Delmira pesquisa políticas públicas, ancestralidade e produção literária Avá-Guarani. No centro de seu trabalho está uma questão que acompanha sua atuação como pedagoga: como fazer com que as escolas dialoguem com conhecimentos que não nasceram nos livros ou dentro das universidades, mas são transmitidos entre gerações pela oralidade.

Em entrevista, Delmira fala sobre os desafios da educação indígena, seu processo de pesquisa, as mudanças provocadas pela tecnologia e o espaço que pesquisadores indígenas buscam ocupar nas universidades.

O Caderno Expressões ouviu Delmira na hemeroteca do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no começo da tarde de uma sexta-feira.

Caderno Expressões – O que a levou escolher a pedagogia?

Delmira – A educação escolar indígena é específica e diferente. A aprendizagem da criança indígena é diferente da não indígena, porque nós valorizamos muito a oralidade. Às vezes se fala: “Essa criança não tem conhecimento”. Mas, na visão dos nossos sábios, a criança está aprendendo a todo momento. Os mais velhos levam a criança ao rio, para uma caminhada na mata, ali mesmo já estão ensinando: “Esse passarinho é isso, o nome dele é aquilo. Essa planta é remédio para tal machucado”.

Percebo que há pouca produção de materiais didáticos e pedagógicos nas comunidades indígenas. Então, nessa perspectiva, vejo que a criança indígena precisa ter um aprendizado específico e diferente. Foi também por isso que escolhi a Pedagogia, entender como aluno indígena aprende.

Caderno Expressões – Qual é o objeto da sua pesquisa de doutorado e o que você pretende defender com esse trabalho?

Delmira – O título da minha tese é Política pública, ancestralidade e produção literária Avá-Guarani. Vou fazer um estudo no Paraguai, no Brasil e na Argentina. Investigar como que a produção literária vanguardista tem registrado e levado essas narrativas para as escolas.

O que pretendo defender é que a educação escolar indígena não pode trabalhar apenas com conteúdos produzidos de fora. Ela precisa dialogar com os conhecimentos produzidos dentro do próprio Tekoha, que é a comunidade com a língua, com a memória, com a ancestralidade e, principalmente, com a palavra dos nossos mais velhos, os tamõis. É nesse diálogo entre conhecimento ancestral, escola e política pública que está a principal contribuição da minha pesquisa.

Já comecei a fazer entrevistas, inclusive com a minha mãe, que tem 84 anos. Quando pergunto a ela como deveria ser hoje o aprendizado dos nossos alunos, ela fala que as crianças estão muito fechadas entre quatro paredes e que precisam ter mais liberdade. Também fala da importância de valorizar a espiritualidade e de aprender o conhecimento dos não indígenas sem deixar a nossa raiz, o nosso próprio modo de vida.

Caderno Expressões – Você disse que a oralidade é fundamental na educação indígena. Como avalia a forma como as universidades produzem e credibilizam conhecimento? Há um conflito entre a tradição acadêmica, baseada nos registros escritos, e os saberes transmitidos pela oralidade?

Delmira – No meu mestrado, eu trabalhava com os saberes indígenas e colocava a fala dos mais velhos como citação. Na época, minha orientadora não aceitava. Tinha que ter bibliografia, tinha que ter tudo certinho. Parecia que valorizava mais o livro do que a oralidade.

Agora, no doutorado, minha orientadora é mais compreensiva, mas ela fala: “Escreve o que ele falou, mas não escreve tudo”. E eu gosto de escrever tudo. O que eles [tamõis] pensam sobre a escola, sobre as crianças de hoje, sobre os jovens, sobre a casa de reza. Quando faço entrevista com os mais velhos, eles não falam só sobre uma situação. Eles vão conversando, vão falando. Você pode ficar meia hora, uma hora, duas horas, três horas. E eu gosto de escrever aquilo que ouvi.

Hoje, vejo que a universidade está se abrindo mais para isso. Porque os sábios são conhecimento ancestral. Muitas vezes esse conhecimento nunca esteve num livro. Eu não pretendo perder nenhuma palavra, principalmente dos mais velhos, porque eles são referências para nós e têm muito conhecimento.

Caderno Expressões – Como o acesso a novas tecnologias têm mudado a educação dos jovens indígenas?

Delmira – Na minha época, a gente fazia pesquisa e era tudo anotado. Prestava muito mais atenção, anotava os mínimos detalhes. Havia também mais valorização das falas, da oralidade e da participação na Casa de Reza. Hoje em dia é diferente. Os alunos levam celular escondido, mesmo quando é proibido, querem estar no celular. Então, se a gente não fizer um projeto sobre essa tecnologia, sobre como usar, vai ser bem difícil com os jovens indígenas também.

No último ano, fizemos um projeto com os professores. Criamos um grupo de WhatsApp dos alunos de língua Guarani e ali a gente tinha que escrever só em Guarani. Achei muito interessante. Eles estavam usando a tecnologia, mas também praticando a língua. Acho importante trabalhar dessa maneira e conversar com eles também sobre os limites do uso da tecnologia.

Caderno Expressões – Você comentou sobre as dificuldade na realização de pesquisas dos povos originários nas universidades. Você já passou por situações de exclusão dentro da universidade por ser uma mulher indígena?

Delmira – Foi difícil quando fiz Pedagogia. Teve um momento em que uma professora falou: “Ai, a Delmira, coitadinha, ninguém quer ficar com ela”. Ninguém queria me receber no grupo, me incluir. Aí falei: “Não precisa. Eu faço sozinha, não tem problema”. Muitas vezes a gente sofre, claro que sofre, mas eu não me entrego. Porque, se eu me entregasse, não estaria aqui hoje fazendo doutorado

E não acontece só na universidade. Minha filha também sofre. Ela está fazendo Geografia e teve uma situação em que alunos não indígenas que iam no mesmo ônibus não queriam sentar ao lado dos indígenas. Se um indígena sentava ao lado deles, eles levantavam. Então é todo momento. Não só nas universidades, em todos os lugares isso acontece.

Caderno Expressões – Depois de concluir o doutorado, que espaço você gostaria de ocupar dentro da universidade?

Delmira – Tenho o sonho de fazer um concurso. E penso: o que vai acontecer com esses doutorandos e mestrandos indígenas quando concluírem, se não há um concurso público para que possam trabalhar também como professores nas universidades? Meu sonho é ser professora indígena dentro da universidade, fazer parte da academia e colaborar. Não quero só receber conhecimento da universidade. Quero também ser professora.

Quero que os indígenas que estão concluindo seus cursos sejam professores, coordenadores pedagógicos de um curso, de uma licenciatura indígena ou de uma pedagogia indígena. Na Unila [Universidade Federal da Integração Latino-Americana], por exemplo, já tem um curso de licenciatura indígena, mas quem está coordenando não é indígena e os professores quase todos também não são indígenas. É nesse sentido que estou falando. Nós também precisamos fazer parte desses espaços. Nós faremos parte.

Ibrahim Khan

Estudante de Jornalismo na UFSC, com interesse em política e nas histórias de quem encontro pelo caminho.

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