Lucas Malfatti e Victoria Tomasine

Quadrinhos, mangás, miniaturas, peças decorativas e figurinos de personagens dividiram espaço na Floripa Geekcon 2026, realizada em 5 e 6 de setembro, no Hotel Cambirela, em Florianópolis. Organizado pela Tábula Editora, o evento reuniu criadores e fãs em uma programação com conversas sobre produção artística, venda de obras e uma competição de cosplay.
No primeiro dia, o foco esteve nos quadrinistas e escritores. Entre eles estava Helô D’Angelo, que atua no mercado de quadrinhos há mais de uma década e publicou recentemente Pipa-Voo pela Mauricio de Sousa Produções. Seu primeiro livro, As quatro Marias, nasceu de uma reportagem em quadrinhos produzida como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Cásper Líbero.
Helô contou que atualmente consegue viver de seus livros, mas que, durante muito tempo, também trabalhou como ilustradora. “Atuando na área dos quadrinhos, você nunca vai fazer apenas quadrinhos, é necessário trabalhar com outras coisas para se sustentar e ganhar reconhecimento”, disse.

Próximo a ela estava Daniel Cesart, ilustrador de Estados Unidos da África, ficção que imagina o continente africano unificado em um país sob o comando de um super-herói. Artista negro, nascido e criado em Salvador, Daniel leva suas referências culturais e discussões raciais para as obras.
Daniel e Helô participaram de uma conversa sobre suas trajetórias com Gabriela Borges, jornalista e fundadora do projeto Mina de HQ, que busca dar protagonismo a mulheres cis e trans no mercado nacional de quadrinhos.

Além dos quadrinistas e escritores, o evento reuniu artistas como Bruno dos Reis, conhecido como Dragão de Bronze. Ele trabalha na criação de miniaturas para jogos de RPG, sigla em inglês para role-playing game, ou jogo de interpretação de papéis, em português. Os personagens vão da fantasia medieval à ficção científica. Reis também produz vídeos em que ensina a pintar as peças. Apesar de atuar nessas atividades, ele não consegue viver apenas das miniaturas. “Além disso aqui, eu trabalho como motorista de aplicativo para complementar minha renda”, disse.

O pesquisador de histórias em quadrinhos e criador do canal Quadrinhos na Sarjeta, Alexandre Linck, apresentou Nostalgia, sua primeira HQ. Segundo ele, o projeto cresceu depois de um convite da editora Mistifório. “Em 2024, a Mistifório me convidou para escrever um roteiro de quatro páginas, mas eu acabei escrevendo 64, então aumentamos o escopo do projeto para uma história maior”, afirmou.

A programação do primeiro dia terminou com uma conversa entre Linck e o jornalista e escritor Romeu Martins sobre a possibilidade de separar o artista de sua obra. O debate teve participação do público.
Personagens ao vivo e a cores
No domingo (6), a programação incluiu uma competição de cosplay organizada pela Wasabi Cosplay Contest. Quinze participantes, entre 14 e 25 anos, disputaram o concurso, que contou com uma avaliação individual dos figurinos e um desfile para o público.
“A avaliação é feita em uma sala fechada, onde cada competidor entra e, durante dois minutos, apresenta as imagens de referência e começa a mostrar seu cosplay de modo detalhado para a banca de jurados”, explicou o coordenador do concurso, Shigeharu Tsukamoto.

Os jurados analisaram a fidelidade às referências, a qualidade dos materiais e o acabamento de roupas, perucas e acessórios. Por volta das 15h30, o público se concentrou ao redor do palco no auditório principal para acompanhar os desfiles.
Para Ananda Luciano, de 29 anos, uma das juradas, o cosplay também representa uma forma de pertencimento. Com mais de 15 anos de experiência na prática, ela conta que encontrou nesse universo uma maneira de se expressar e se relacionar com outras pessoas: “Normalmente não conseguimos falar com as pessoas do nosso dia a dia sobre animes, mangás e afins. Quando adolescente, tiveram momentos que me senti deslocada. E dentro do mundo do cosplay, consegui me reconectar com minha criança interior e descobrir um outro lado meu. Me tornei mais criativa e confiante”.
Ananda aponta a troca entre os participantes como parte importante dessa experiência. “Nas filas, está todo mundo se ajudando, pessoas conversando, elogiando um ao outro, porque existe muita empatia. E nós sabemos que, quando você é adolescente, se sentir acolhido em um lugar é muito importante”, afirmou.

A universitária Tian, de 23 anos, conquistou o primeiro lugar com um figurino de Silverine, personagem do jogo Honkai: Star Rail. Os três primeiros colocados receberam, respectivamente, R$ 600, R$ 300 e R$ 100, além de brindes oferecidos por lojas parceiras.

Para Tian, que começou no cosplay em 2017, a prática abriu outras possibilidades de expressão. “Uma das coisas mais importantes do cosplay foi poder sair da minha zona de conforto”, disse. “Eu não usava maquiagem, eu não gostava de me arrumar. Por causa disso, o cosplay se tornou um espaço onde eu podia me expressar sem que as pessoas me julgassem. Não existiam limites para quem eu queria ser”.






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