Por Gabriel Ribeiro

Foto: Acervo pessoal de Sandra Ferreira de Mello
Na quinta-feira passada (25/7), o Theatro Adolpho Mello, em São José, celebrou seus 170 anos. A programação, no entanto, despertou críticas de familiar do compositor que dá nome ao local. Embora a solenidade marcasse o aniversário de uma das mais importantes casas de espetáculos catarinenses, o repertório da noite foi composto apenas por músicas sertanejas e sucessos internacionais.
Entre as canções executadas estavam sucessos de Pharrell Williams, Michael Jackson, Leandro & Leonardo e Metallica. Na visão de Sandra Ferreira de Mello, sobrinha-bisneta de Adolpho Mello, a escolha das músicas não dialogou com o propósito da homenagem. “Qual é a conexão entre esse repertório e a homenagem que se propôs prestar ao Teatro Adolpho Mello? Em uma celebração dessa importância, o mínimo que se esperava era uma programação coerente com a trajetória do espaço e com o legado de quem lhe empresta o nome”, questiona Sandra.
Adolpho Ferreira de Mello nasceu em São José, em 20 de outubro de 1861, e morreu em Florianópolis, em 10 de novembro de 1926. Violinista, compositor e regente, destacou-se entre o fim do século XIX e o início do século XX. Após sua morte, deixou um extenso acervo de partituras e publicou o livro Pequena Arte de Expressão do Violino, no qual reúne técnicas e ensinamentos sobre o instrumento. Paralelamente à carreira artística, também ocupou cargos públicos, entre eles os de tesoureiro-geral do Estado e diretor do Conselho Municipal de Desterro.

Foto: Acervo pessoal de Sandra Ferreira de Mello

4 e inaugurado em 1856, o Teatro Adolpho Mello está localizado no Centro Histórico de São José. É a mais antiga casa de espetáculos ainda em funcionamento em Santa Catarina e a terceira mais antiga do Brasil. Na época de sua inauguração, a ligação entre São José e Florianópolis acontecia exclusivamente por embarcações, já que a Ponte Hercílio Luz só seria inaugurada sete décadas depois, em 1926.
Durante 19 anos, o edifício foi o único teatro existente em Santa Catarina. Somente em 1875 seria inaugurado o Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis.

Foto: Prefeitura de São José
A familiar do compositor afirma que o reconhecimento da importância histórica do imóvel ainda enfrenta obstáculos. “A importância desse espaço para a cultura josefense é essencial. O descaso começou ainda na década de 1980, quando havia um movimento para demolir o teatro e construir um supermercado no local. Não respeitam a história”, lamenta.
A demolição foi evitada graças à mobilização de artistas e defensores do patrimônio histórico, entre eles Rodrigo de Haro, responsável pela restauração do edifício na década de 1980, e Gilberto Gerlach, então presidente do Cine Clube Nossa Senhora do Desterro, que articulou o projeto de recuperação do imóvel.
O artista plástico Idésio Leal, que participou da decoração do teatro e atuou como assistente de Rodrigo de Haro, relembra que a intervenção foi decisiva. “Rodrigo e Gilberto conversaram diretamente com o então governador Jorge Bornhausen para impedir a demolição do teatro. Depois disso, Gilberto assumiu a restauração do prédio, que chegou a funcionar como cineclube durante um período”, relata.
O que se esperava da celebração?
Na avaliação de Sandra, o aniversário de 170 anos representava a oportunidade de valorizar a trajetória da instituição e reforçar sua contribuição cultural. Para ela, a agenda comemorativa deveria conciliar manifestações contemporâneas.
Para ela, a agenda comemorativa deveria conciliar manifestações contemporâneas com referências ao passado da casa de espetáculos e à obra de seu patrono.
Em sua análise, uma festividade sem conexão com esse contexto compromete o fortalecimento da memória coletiva. “Quando a programação não estabelece conexão com a história do teatro, perde-se uma oportunidade de fortalecer a memória cultural e de aproximar a comunidade de seu patrimônio”, diz Sandra.
Ela ressalta que celebrações desse tipo também cumprem um papel educativo ao contextualizar a relevância do bem histórico e estimular o sentimento de pertencimento da população. “Sem esse diálogo, a comemoração pode se tornar apenas um evento isolado, sem contribuir para a valorização do significado histórico do espaço”, afirma.
Questionada sobre formas de preservar tanto a estrutura física quanto a memória do local, Sandra aponta duas frentes complementares. A primeira envolve a conservação do edifício por meio de intervenções técnicas que respeitem suas características arquitetônicas originais. A segunda diz respeito à valorização de seu patrimônio imaterial, com programação compatível com sua vocação histórica, exposições permanentes, ações educativas, visitas guiadas, digitalização de acervos, incentivo à pesquisa e reconhecimento dos artistas ligados ao município.
Ao comentar a contribuição da casa de espetáculos para a identidade cultural catarinense, a descendente conclui: “O Teatro Adolpho Mello desempenha um papel fundamental na história cultural de São José e de Santa Catarina. Ao longo de mais de um século e meio, foi palco de apresentações artísticas, encontros sociais, manifestações culturais e acontecimentos que acompanharam o desenvolvimento do município. Sua permanência como um dos teatros mais antigos do Brasil faz dele não apenas um patrimônio arquitetônico, mas também um símbolo da continuidade da vida cultural catarinense, contribuindo para preservar a memória coletiva e fortalecer a identidade histórica da comunidade.”
*A reportagem procurou a administração do Teatro Adolpho Mello para comentar as críticas relacionadas à programação do aniversário. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.




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