
Durante a cobertura fotográfica de um dos jogos da seleção brasileira, percorri dois pontos do Centro de Florianópolis separados por menos de 500 metros. A poucos minutos de caminhada, percebi que a Copa do Mundo não acontecia de uma única forma, ela mudava conforme o lugar.
No entorno do Mercado Público, a entrada já define o tom da experiência. Antes de entrar, passo pela revista. O segurança abre minha bolsa, olha a câmera, as lentes, e comenta:
— “Veio trabalhar também, né? Pode ir, nego.”
Sigo para dentro com a sensação de que tudo ali tem uma ordem própria. Mesas distribuídas, telões dentro dos estabelecimentos, circulação mais controlada. Enquanto fotografo, percebo um ambiente onde a ocupação do espaço é guiada, quase organizada em etapas.

Seguindo em direção ao Centro Leste, a mudança é imediata. As ruas vão ficando mais cheias, mais soltas, mais imprevisíveis. No caminho, o fluxo de pessoas cresce e se espalha pelas calçadas. Ali, a Copa escapa dos bares e toma a rua.
Já no meio desse movimento, algo chama minha atenção. As camisas da Seleção Brasileira aparecem misturadas aos mais diferentes estilos. Diferentemente do Mercado Público, onde predominam combinações mais tradicionais, no Centro Leste cada pessoa parece adaptar as cores do Brasil ao próprio jeito de se vestir.

Ali, a cidade vira um grande ponto de observação compartilhado. Tem gente em pé, sentada no chão, encostada nas paredes. Eu me vejo circulando entre corpos e telas, tentando acompanhar um jogo que não está preso a um único lugar, mas espalhado pelo espaço público.
As cores da seleção aparecem nos dois lugares, mas de formas diferentes. No Mercado Público, predominam combinações mais tradicionais: camisas bem cuidadas e uma estética mais padronizada. No Centro Leste, a camiseta amarela se mistura com outras roupas e estilos, como se cada pessoa adaptasse a seleção ao próprio jeito de estar na rua.

Em ambos os lugares, porém, o tempo do jogo reorganiza tudo. Durante os 90 minutos, a movimentação diminui. A rua e os bares param juntos. Enquanto fotografo, percebo o mesmo padrão de reação nos dois lados: tensão, silêncio, explosão nos gols e comemoração coletiva.

Fotografando esses dois espaços, o que mais me chamou atenção não foi apenas a diferença entre eles, mas a forma como ambos constroem a mesma experiência de Copa do Mundo de maneiras tão distintas. Um mais controlado, outro mais disperso.
No fim, apesar das diferenças, a cidade se encontra no mesmo ponto: o jogo. E por 90 minutos, enquanto a bola rola, o Centro de Florianópolis parece falar uma única linguagem, que entre um lance e outro, ainda carrega a mesma espera antiga pelo hexa.

Antes de ir embora, volto a passar pelo Mercado Público. Algo me chama atenção de forma diferente. Entre tantas pessoas, uma senhora se destaca no meio do ambiente mais elitizado.
Fico pensando que, no fim, talvez seja isso que a Copa também faz na cidade, ela mistura lugares, atravessa fronteiras invisíveis e permite que qualquer um ocupe o espaço que quiser, mesmo que só por um jogo.






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