
Depois de assistir à partida entre o Cruzeiro e o Bahia na noite de sábado, 9 de maio, Serafim Jardim foi dormir — mas não conseguiu, mesmo com a vitória de virada do time mineiro. Ficou acordado até raiar o domingo, 10 de maio de 2026, Dia das Mães. Não era pra menos.
Dois dias antes, em 7 de maio, um relatório da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que seu fiel amigo, o ex–presidente Juscelino Kubitschek, foi assassinado pela ditadura militar. Fato que Serafim, já com cabelos branquíssimos, mas sobrancelhas ainda pretas, tenta provar há mais de 30 anos.
Logo pela manhã, dirigiu–se até o número 241 da rua São Francisco. Ali, há uma casa de paredes brancas, com portas e janelas azuis, que se acomoda no relevo acidentado da calçada de paralelepípedos de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha mineiro. Nos fundos da residência de chão de madeira e móveis do século XX cuidadosamente preservados, há uma escada que leva a um pequeno escritório.
Lá, as paredes são forradas de fotografias e quadros com documentos históricos assinados por caligrafias elegantes. “Aquele ali sou eu, sentado aos pés do JK”, aponta Serafim para um retrato que exibe a imagem do ex–presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de seus apoiadores e de seu grande amigo, a quem muitos começaram a chamar de secretário pessoal. Na cena, ele está algumas décadas mais jovem e posa para a fotografia no chão, em frente a Juscelino.
Tudo no pequeno cômodo é impregnado do ex–presidente brasileiro. É neste quarto que Serafim fica diariamente, desde 1985, quando colocou em funcionamento o museu que é a casa de infância de JK: atrás de uma mesa submersa em recortes de jornais, cartas e telegramas do amigo.
Quando o menciona, um sorriso leve se solta do rosto do mineiro que beira seus 91 anos, de voz firme e eloquência intacta. Ele recorda, “como se fosse hoje”, o último encontro com Juscelino Kubitschek. Foi em um domingo, 8 de agosto de 1976, no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte.
Um dia antes, no sábado, Serafim havia sido surpreendido com um telefonema de um jornalista famoso da capital mineira. “Corria o boato”, conta Serafim, “de que JK havia morrido em um acidente de carro em uma rodovia entre São Paulo e Rio de Janeiro”. Ele, então, pede ao filho mais velho, que vivia em Brasília, que dirija até a fazenda do ex–presidente, em Luziânia, a cerca de 70 km da capital projetada por Kubitschek.
Às 20h, o telefone toca. “Vivo e tranquilo”, informa o filho sobre o estado de JK. Horas depois, uma nova ligação — mas, desta vez, do próprio Juscelino. O motivo? A morte por infarto de Geraldo Vasconcelos, também grande amigo do ex–presidente, a cujo velório ele fez questão de comparecer.
Serafim foi buscá-lo no aeroporto.
“‘Pô, presidente, nos deu um susto ontem’, eu disse. Aí ele deu aquela gargalhada e falou: ‘É, tão querendo me matar, mas ainda não me mataram, não’”, relembra Serafim. Era a terceira vez que o ex–presidente comentava com o secretário pessoal sobre um possível plano de assassinato.
Exatos quatorze dias depois, em 22 de agosto, Juscelino Kubitschek e seu motorista, Geraldo Ribeiro, perderiam a vida no quilômetro 165 da Via Dutra, a caminho do Rio de Janeiro. O Opala preto em que viajavam bateu de frente com uma carreta Scania. O acidente aconteceu quando o carro cruzou a pista contrária depois de colidir com o ônibus 3148, da viação Cometa.
Essa história, para Serafim, é uma farsa — que ele está, desde 1996, tentando “desmascarar”, como define em suas próprias palavras, carregadas de um sotaque mineiríssimo. Naquela época, redigiu uma carta com suas próprias mãos ao presidente Fernando Henrique Cardoso, pedindo a reabertura das investigações. Demanda que foi friamente negada.
A ânsia de Serafim virou livro e perpetuou–se em um calvário de décadas, que será votado pelos conselheiros do CEMDP em uma data próxima, ainda a ser definida. Em seu livro Juscelino Kubitschek: onde está a verdade?, o amigo do ex–presidente afirma categoricamente: o ônibus nunca bateu no carro de Juscelino.
Ainda hoje, completa: “não resta dúvida de que eles mexeram no carro dele”. Com “eles”, Serafim se refere aos “homens de 64”, os militares a mando da Operação Condor — uma articulação entre as ditaduras militares sul-americanas, entre 1970 e 1980, para perseguir e eliminar opositores políticos, com apoio proveniente dos Estados Unidos.
Em 1998, a Câmara reabriu o caso e enviou os legislativos para o país norteamericano. “Os deputados voltaram dizendo: ‘se o Juscelino não tivesse morrido, a Operação Condor tinha matado ele’”, diz Serafim.
É essa versão que o relatório do CEMDP também sustenta. Os poucos detalhes já revelados pela imprensa dão conta de uma história similar ao que reafirma Serafim, sentado na casa de infância de Juscelino. Elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, a tese de uma interferência externa na morte do ex–presidente conclui que JK foi, portanto, assassinado.
No cômodo abarrotado de memórias do antigo amigo, Serafim parece contar exatamente os 272 dias que separaram a morte de Juscelino da do também ex–presidente João Goulart, o Jango, e da de Carlos Lacerda; os dois últimos pela mesma causa: infarto agudo. Os três formariam, juntos, a Frente Ampla contra a ditadura, ameaça latente para a Operação Condor.
Se os outros dois podem ter sido assassinados, Serafim diz, cansado, que não sabe — mas que, sobre JK, já está “mais do que provado”. Questionado sobre qual é a sensação de, após tanto tempo, ter a possibilidade real de sua tese ser validada pela história brasileira, reclina–se na cadeira de couro marrom e faz uma breve pausa.
Narra sua tentativa frustrada de pegar no sono durante a madrugada e a ansiedade que tomou conta de seu corpo após a reviravolta histórica.
“No início, diziam que eu queria aparecer, que eu era doido, louco”, diz. “Agora, a verdade está aí. Eu fico muito feliz com isso. Acho que o Brasil todo, né?”, e sorri.





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