Luiza Cardoso

Cartazes foram retirados de um ponto de ônibus próximo à reitoria do campus Trindade na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, no dia 26 de abril. A ação foi registrada em vídeo que circulou e viralizou nas redes sociais, alcançando mais de 190 mil visualizações. Políticos e influenciadores da direita conservadora e liberal exaltaram a iniciativa através de postagens e comentários, referindo-se aos folhetos como “porcalhadas” e “porquices” que sujam o espaço universitário. Os folhetos removidos divulgavam atividades acadêmicas, eventos culturais, arrecadações e serviços.

Para muitos alunos, os murais espalhados pelo campus funcionam como canal de comunicação da comunidade universitária. Na quarta-feira (27), o estudante de Letras-Português Nicolas Silva utilizou um desses espaços para divulgar uma roda de conversa sobre Libras. A iniciativa buscou aproximar o aprendizado da linguagem de sinais dos interessados. “Quero desmistificar e divulgar informações básicas sobre essa língua, promovendo inclusão da comunidade surda”, disse. O evento ocorreu em 2 de junho, no Centro de Convivência do campus Trindade da UFSC.
Alguns dos panfletos pendurados nos murais são sobre animais de estimação. No início de maio, o folheto “Ajude o Lorde White” foi pendurado por Jessica Soares, doutoranda em Estudos Literários e Culturais pela UFSC. Após retornar para casa com ferimentos e sujeira, o felino precisou de um tratamento custoso. “Sabia que ia ser uma conta bem alta então divulguei os folhetos”, diz. A tutora conseguiu arrecadar aproximadamente R$ 6 mil reais, mas ela ainda ficou com uma dívida de R$ 5 mil. Após cerca de metade do período de assistência veterinária, o gato morreu.
Projetos externos também aparecem, como a Campanha do Agasalho, promovida pelo projeto voluntário Amigos da Sopa Floripa. Com foco no apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar, realiza campanhas sazonais específicas como a arrecadação de roupas para o inverno. “Como a UFSC é um espaço com grande circulação de pessoas, achei que seria um local oportuno para arrecadações”, disse Ana Beatriz Haag, voluntária e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Administração na UFSC.
No perfil do instagram do movimento estudantil Direita UFSC, responsáveis pelo mutirão limpeza, postagens dizem: “Pichação não é arte, e ponto de ônibus não é mural de cartazes”. O grupo já promoveu ações em outros locais, como o ponto 001 UFSC, na Rua Engenheiro Agronômico Andrei Cristian Ferreira, e os pontos 001 e 002 Pantanal, na avenida Reitor Luiz Carlos Cancellier de Oliveira, todos localizados nas proximidades da universidade federal.

Papéis, adesivos, panfletos e colagens, que anunciam conteúdos diversos, são comuns na paisagem plural e comunitária da universidade.“Cartazes nas paredes são demonstrações de que a universidade está viva, que há troca”, afirma a professora do Departamento de Cinema da UFSC Aglair Maria Bernardo. Esses registros, diz ela, acontecem como uma forma de reafirmar presença. “Os humanos são animais simbólicos, e buscam por coisas que afirmam que passaram por ali.”
A percepção da professora evidencia uma das dimensões do conflito em torno dos murais: a disputa pelo significado e pela ocupação dos espaços universitários. Após as ações de retirada de cartazes, o Direita UFSC costuma compartilhar nos Stories do Instagram, uma publicação de Rafael Ary, professor do Departamento de Artes e aliado do movimento. Na postagem, Ary recorre à Teoria da Janela Quebrada para defender que cartazes, panfletos e pichações contribuem para a degradação do ambiente.
Para Aglair, no entanto, a remoção indiscriminada desses materiais interfere no processo de socialização universitária e reduz a complexidade do fenômeno a uma questão de limpeza. “O ser humano não se manifesta apenas por meio de telas, das redes, mas também por práticas impressas e manuais como o cartaz e a pichação”, afirma a professora.
*Reportagem feita em parceria com O Fatual UFSC





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