As múltiplas faces da representação estudantil

Coletivos estudantis da UFSC atuam entre apoio, mobilização política e reivindicações por permanência em meio a diferentes visões sobre o papel da universidade pública

Por Matheus Locks e Olivia Scheel

Fotos e cartazes de mobilizações de coletivos da UFSC no varandão do CCE. Foto: Matheus Locks.

Os cartazes espalhados pelos corredores anunciam assembleias, debates políticos, e campanhas estudantis. Em grupos de WhatsApp, salas de aula e centros acadêmicos, estudantes organizam pautas, articulam reivindicações e criam espaços de convivência dentro da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mais do que grupos formados por interesses em comum, os coletivos estudantis passaram a ocupar diferentes funções dentro da vida universitária, do acolhimento à disputa política.

Para Jacques Mick, docente do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJor) e pesquisador em Sociologia Política na UFSC, os movimentos estudantis possuem um papel histórico que ultrapassa os limites da universidade. Jacques afirma que ao longo da história brasileira, estudantes estiveram presentes em momentos importantes de defesa da democracia, denúncia de arbitrariedades e reivindicação por melhores condições de ensino. “Os movimentos estudantis são historicamente muito importantes não só para as universidades, mas para a sociedade civil”, declara.

O professor também destaca que a participação estudantil funciona como uma forma de garantir que as universidades permaneçam conectadas às necessidades dos próprios alunos. “Os estudantes são o coração de uma universidade”, diz Jacques. Para ele, a organização estudantil ajuda a pressionar administrações universitárias a manterem decisões voltadas à qualidade do ensino superior.

Na UFSC, esses movimentos transitam entre pautas sociais, questões de permanência estudantil e diferentes posicionamentos ideológicos. Ainda que atuem de formas distintas, os coletivos compartilham uma característica em comum: a tentativa de ampliar a participação estudantil para além das estruturas acadêmicas formais. Em diferentes centros de ensino, esses grupos passaram a fazer parte da rotina universitária e das discussões sobre representação estudantil.

Organização

Segundo Simone Sobral, pró-reitora de Permanência e Assuntos Estudantis (PRAE) da UFSC, os coletivos estudantis se consolidaram como importantes espaços de representatividade dentro da universidade. Para a pró-reitoria, esses grupos fortalecem o movimento estudantil ao organizar pautas ligadas a grupos historicamente marginalizados, como estudantes negros, pessoas com deficiência e a comunidade LGBTQIA+.

Apesar de entender a informalidade na organização dos coletivos, a PRAE realizou um mapeamento e identificou a existência de mais de 29 atuando dentro da Universidade. Alguns deles são o Coletivo de Mães Estudantes (MãEstudantes), o Conexão Saberes Indígenas UFSC, o Coletivo de Hip Hop, o Coletivo Feminino de Blumenau, entre muitos outros ligados a campus, centros e cursos distintos. De acordo com a pró-reitoria , a iniciativa ajuda na própria articulação dos grupos de mesma pauta.

“A PRAE entende que os coletivos estudantis são relevantes formas de organização ao se apresentarem como espaços de promoção de representatividade em torno de pautas que lhes são comuns”, atesta Simone. Apesar da relevância dentro da comunidade acadêmica, os coletivos não possuem regulamentação institucional sobre funcionamento ou representação. Segundo a pró-reitora, as principais pautas estudantis seguem sendo oficialmente articuladas por entidades representativas como os Centros Acadêmicos (CAs) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE).

DCE da UFSC realiza ação de permanência estudantil entregando marmitas gratuitamente para estudantes em situação de vulnerabilidade na falta do Restaurante Universitário. Foto: Divulgação Instagram do DCE.

Nos últimos anos, a ampliação das políticas de ações afirmativas modificou o perfil das universidades públicas brasileiras. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que o ingresso por cotas nas universidades federais aumentou 167% em uma década, passando de cerca de 40 mil estudantes em 2012 para mais de 108 mil em 2022. A presença crescente de grupos historicamente excluídos do ensino superior trouxe novas demandas relacionadas à permanência estudantil, acessibilidade e inclusão dentro do ambiente universitário. Nesse cenário, os coletivos passaram a ocupar espaços de acolhimento e mobilização política dentro da universidade pública.

Acolhimento

Foi nesse contexto que a estudante de Medicina Lúmen Freitas, de 46 anos, ingressou na UFSC pelo sistema de vagas suplementares para pessoas trans no primeiro semestre de 2026. A política, aprovada pelo Conselho Universitário em 2023 por meio da Resolução Normativa nº 181, já previa reserva de 2% das vagas para pessoas trans na pós-graduação e foi ampliada também para os cursos de graduação.

A implementação na graduação aconteceu pela primeira vez no vestibular de 2026, do qual Lúmen faz parte como integrante da primeira turma de cotistas trans da universidade. Antes de ingressar em Medicina, a estudante cursava Ciências Sociais na própria UFSC.

Segundo ela, a política de cotas representa não apenas acesso individual, mas também a ampliação da diversidade dentro da universidade. Para a estudante, diferentes vivências contribuem para ampliar debates e pesquisas produzidas dentro do ambiente acadêmico.

“A universidade pública preza pela diversidade. E diversidade não só sexual ou de gênero, mas de cultura, de origens, de histórias”, afirma. Desde que entrou na universidade, Lúmen já participava da Rede Trans UFSC, coletivo criado oficialmente em 2022 para articular pautas relacionadas à população trans dentro da universidade.

Após a aprovação nas vagas suplementares, a estudante relata ter sido alvo de questionamentos sobre a legitimidade das cotas trans e sobre seu direito de ocupar aquele espaço. Segundo ela, o caso chegou a ser utilizado por parlamentares contrários à política como exemplo de que o sistema “não funcionaria”. Nesse período, Lúmen diz que o apoio do coletivo foi fundamental para enfrentar os ataques recebidos dentro e fora da universidade.

“A resposta que eu obtive era de que essa visão estava incorreta. A ideia é que qualquer pessoa trans possa ter acesso, independente da condição dela”, diz. Além da defesa institucional das cotas, a Rede Trans passou a atuar também em questões relacionadas à permanência estudantil. Integrante do coletivo, Otília Guarnieri explica que muitas demandas recebidas pelo grupo ultrapassam pautas burocráticas e envolvem situações de vulnerabilidade social.

Segundo Otília, estudantes trans frequentemente chegam à universidade carregando experiências de exclusão social, violência familiar e dificuldades financeiras. Em alguns casos, o coletivo auxilia estudantes em situações de insegurança alimentar, busca por moradia e episódios de transfobia.

“A gente percebe que muitas vezes o estudante não precisa primeiro de uma militância. Precisa de alguém que escute, de alguém que diga que ele pertence àquele espaço”, conta. Uma das principais iniciativas organizadas pela Rede é a “Calourada Trans”, voltada à recepção de estudantes trans ingressantes na universidade. O encontro busca criar um ambiente seguro para troca de experiências, acolhimento e orientação sobre direitos dentro da instituição.

Estudantes que participaram da “Calourada Trans” realizada pela Rede Trans UFSC no Centro de Convivência da universidade, em 20 de março de 2026. Foto: Divulgação Instagram da Rede Trans UFSC.

“É um espaço em que você pode falar quais são os seus pronomes, como quer ser chamado e receber apoio para acessar direitos dentro da universidade”, explica Otília. Segundo o coletivo, a implementação efetiva das políticas de cotas ainda enfrenta desafios relacionados à permanência estudantil e à adaptação institucional. Entre as pautas defendidas pela Rede estão melhorias em processos ligados ao nome social e à assistência estudantil.

Disputa

Se, por um lado, os coletivos funcionam como redes de acolhimento e permanência, por outro também refletem disputas políticas presentes dentro da universidade pública. Na UFSC, grupos ligados à direita universitária passaram a ocupar esse espaço de organização estudantil nos últimos anos. Entre eles está o movimento Direita UFSC, presidido por Tom, estudante que preferiu não revelar o sobrenome.

Segundo ele, o coletivo surgiu a partir de insatisfações relacionadas à representação política dentro do movimento estudantil e à atuação de entidades tradicionais da universidade. “Nós queremos institucionalizar democracia, liberdade e uma atuação mais voltada para os estudantes”, afirma. O movimento reúne estudantes de diferentes cursos e realiza reuniões online organizadas pelos próprios integrantes.

No instagram a “Direita UFSC” já soma mais de 36 mil seguidores devido ao alcance entre estudantes e pessoas de fora da universidade que têm a mesma visão política e apoiam o coletivo e suas ações. Foto: Captura de tela do perfil Direita UFSC no Instagram.

Segundo Tom, a maioria dos participantes possui emprego ou outras atividades profissionais e, por isso, participa das atividades do coletivo de forma remota. Entre as principais pautas defendidas pelo grupo estão infraestrutura, segurança e combate à intolerância dentro do campus. “A nossa pauta é básica: segurança no campus, infraestrutura, bebedouros funcionando e ar-condicionado nas salas”, diz o estudante.

Tom também ressalta que o coletivo busca ampliar a participação de grupos conservadores dentro das eleições estudantis e questiona a atuação política de entidades tradicionais ligadas à esquerda universitária. A presença de grupos com posicionamentos distintos mostra como a universidade funciona também como espaço de debate político e disputa de ideias entre diferentes setores estudantis. De acordo com Jacques Mick, a diversidade de pensamentos e o pluralismo são cruciais para garantir um debate de qualidade e rigor na universidade.

Permanência

Além da atuação dos coletivos, setores institucionais da UFSC também participam diretamente do debate sobre inclusão e permanência estudantil. Segundo a PRAE, políticas de assistência estudantil são fundamentais para garantir que estudantes consigam permanecer na universidade com dignidade. Questões relacionadas à moradia, alimentação, saúde mental e acessibilidade seguem presentes na rotina de muitos estudantes.

Para Jacques, essa vivência também faz parte da formação universitária. Segundo o professor, a participação em coletivos e movimentos estudantis amplia as possibilidades de aprendizado para além da sala de aula e contribui para a construção de experiências políticas, sociais e coletivas dentro desse espaço. 

Entre reuniões, campanhas, rodas de conversa e disputas políticas, os coletivos continuam ocupando corredores, salas e espaços da UFSC. Seja através do acolhimento, da militância ou da defesa de pautas específicas, esses grupos ajudam a revelar tensões, conflitos e diferentes formas de pertencimento que atravessam a vida universitária contemporânea.

Essa reportagem foi desenvolvida para a disciplina de Texto III do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, ministrada pela professora Rapahela Ferro.

Olivia Scheel

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Gosta de cultura e arte, encontra no cinema e na literatura suas inspirações.

Matheus Locks

Estudante de Jornalismo na UFSC. Apaixonado por teatro, cultura, comunicação e arte. Gosta de transformar boas histórias em conteúdos criativos e informativos.

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