Iago Carvalho

As portas estão fechadas há mais de três décadas, mas quem passa pela rua Padre Miguelinho, número 96, ainda encontra vestígios de um tempo em que filas dobravam a esquina, mulheres vestiam roupas de gala e homens só entravam de paletó. No antigo Cine São José, as paredes hoje desbotadas contrastam com a memória de uma cidade que já viveu o cinema como um ritual. Porém, como toda boa história, essa ainda pode ganhar um novo capítulo.
Inaugurado em 1956, foi por um tempo um dos assuntos mais comentados da cidade. Não tinha para onde fugir, no rádio ou no impresso, todos falavam do primeiro prédio construído para ser um cinema de rua em Florianópolis. O nome era uma homenagem ao empresário José Luiz Daux, dono do prédio. E assim, com forte divulgação, grandes expectativas e engajamento popular, nasceu o Cine São José.

“Eu nunca entrei sem paletó. Normalmente a fila ia até a proximidade do Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), era um sucesso. Nos fins de semana era uma loucura, mas, com paciência, era possível prestigiar um bom filme”, conta o ex-professor de química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Probst, de 78 anos.
O espaço foi pioneiro de algumas inovações do setor. Foi o primeiro cinema de rua a transmitir obras premiadas do Oscar na capital e moveu mudanças no modo de consumir cinema. Exemplos disso foram a implementação de poltronas reclináveis e acolchoadas e o jogo de luzes moderno, que aumentava a imersão e proximidade com os filmes. Luiz diz que não consegue esquecer da primeira vez que assistiu 2001: Uma Odisseia no Espaço dentro do Cine São José. “A experiência com as luzes e o conforto me faziam sentir como se eu também estivesse no espaço”, revela.
Outro papel que o cinema desempenhava, mesmo que de forma não convencional, era o de abrigar crianças curiosas, que muitas vezes davam um jeito de entrar sem pagar. É o que conta a tosadora Claudete Rodrigues da Silva, de 43 anos. Motivada pela experiência de ver obras premiadas, contava com a ajuda do pai, que vendia amendoim na frente do Cine Roxy e do Cine São José. “Às vezes, eu acompanhava meu pai nas vendas, e ele sempre pedia para eu ir ao banheiro dos cinemas; como ele trabalhava na frente, já conhecia os seguranças. O problema é que quando eu entrava, só saía depois de assistir os filmes”, diz.

Na época, Florianópolis contava com seis cinemas de rua espalhados pela cidade, o que popularizou a atividade entre os jovens. “Tinha muitos amigos mais velhos que frequentavam sempre que podiam. Infelizmente por conta da idade não pude ir tanto quanto gostaria, mas as poucas vezes que fui me marcaram até hoje”, conta Claudete.
No fim dos anos 80, a ascensão dos videocassetes e das locadoras, somada à chegada das salas multiplex nos shoppings, colaborou para o fechamento de cinemas de rua em todo o Brasil, na Ilha não foi diferente. Na visão de Claudete, as discussões pós-filmes foram ficando cada vez mais raras pela cidade, as filas se restringiram aos shoppings e os fins de semana no centro foram perdendo cada vez mais o brilho.
Legado cinematográfico
Com o fechamento dos cinemas de rua, parte dessa geração encontrou no ensino uma forma de manter o audiovisual vivo na cidade. Mesmo sem salas de rua e com poucos investimentos públicos, o audiovisual catarinense cresceu 429% na última década, segundo o estudo Retratos do Audiovisual Catarinense.
Com um grande legado no setor, a nova geração de cineastas em Santa Catarina comprova que o estado nunca parou de produzir grandes expoentes, a exemplo dos cineastas Maria Augusta V. Nunes (Novello Filmes), Adriane Canan (Lilás Filmes) e Alexandre Manoel (Tiê-Sangue Produções).
Para Alexandre, formado em cinema pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), o setor cinematográfico do estado é um produto que gera lucro e por isso merece mais reconhecimento. Ainda com todas as dificuldades, o audiovisual gerou cerca de R$ 116,8 milhões em impostos para Santa Catarina.
Gerações unidas para um resgate histórico

Pensando em solucionar esse quebra-cabeça, Julia Rojas, atual presidente do Fundo Municipal de Cinema (Funcine), começou a desenhar uma proposta inspirada em outros modelos de gestão. A ideia inicial foi criando forma, e ela chegou na Floripa Cine, uma empresa pública de gestão de audiovisual em Florianópolis que apoia a produção, lança editais, promove cursos de formação e abre espaços para as produções fora do circuito convencional.
“Os valores hoje geridos pela Fundação Catarinense de Cinema (FCC) são semelhantes aos de estados como São Paulo e Rio de Janeiro, que contam com empresas e agências como SPcine e Riofilme, nas quais há autonomia administrativa para implementação da política pública” — trecho retirado do estudo Retratos do Audiovisual Catarinense: Economia e Políticas Públicas, de 2022.
Quando a proposta chegou aos cineastas da capital, o retorno foi imediato. Muitos deles haviam acompanhado de perto a transformação cultural da cidade ao longo das últimas décadas. O trabalho começou a ganhar forma através de reuniões, retomada de contatos e uma nostalgia que agora caminhava ao lado do otimismo.
Zeca Pires, cineasta e ex-professor de cinema da UFSC e da Unisul, enxergou a oportunidade como única, e propôs uma ideia de resgate da memória catarinense e manezinha. Foi aí que surgiu a proposta de revitalizar um prédio histórico para sediar a empresa. Para Zeca, “nada melhor do que a sede da Floripa Cine funcionar no único prédio da cidade que já nasceu cinema: o antigo Cine São José. Assim, o local funcionaria como sede e como um cinema público na capital”.
A ideia passou então a operar como uma ponte entre diferentes gerações de amantes do cinema de Florianópolis. “A partir disso, passamos a correr atrás dos processos legais para viabilizar a retomada do prédio, apuramos muito. Seria muito bom ter a sede aqui porque é o único prédio pensado justamente para ser um cinema, e ele não opera na sua função desde os anos 90”, conta Julia Rojas.
Para Zeca, a proposta se enquadra no projeto de revitalização do centro da cidade. “A proposta casa com a ampliação do Centro Cultural da Ilha, que pode ligar o Leste cultural à centenária ponte Hercílio Luz. Neste circuito, falta um cinema de rua, público, central e com várias salas de exibição”, comenta.
O principal entrave burocrático para a Floripa Cine sair do papel é a colaboração da prefeitura. Pois o prédio é da iniciativa privada, alugado pela Igreja Livre Church, mas é tombado tipo P2 – tombamento que reconhece a importância arquitetônica e cultural de um prédio para a cidade, em que sua fachada não pode ser alterada, mas por dentro sim. Julia diz que está em fase de apresentação da proposta.
“É importante esse tombamento P2 porque ele reconhece o interesse público. A partir disso, dependemos do prefeito Topázio Neto para conseguir esse apoio. Pois será necessário desapropriar o prédio, ou seja, que a prefeitura o compre da iniciativa privada para que ele possa servir às finalidades públicas”, explica.
A igreja Livre Church tem sido parceira do projeto de retomada dos cineastas, disponibilizando visitas técnicas e auxiliando em contato direto com os responsáveis do prédio. A visão de Julia e Zeca é de otimismo pelo acerto com os empresários e fiéis.
Conexão com a cidade
A Floripa Cine ainda não foi oficializada, mas já está presente no dia a dia da capital. Assim que a primeira matéria saiu no jornal, a comunidade rapidamente criou um abaixo-assinado para a desapropriação do Cine São José. Em uma semana, a petição ultrapassou mil inscrições.
Para Patrícia Pacheco, criadora do abaixo-assinado, a revitalização desse espaço traria inúmeros benefícios para a cidade. O espaço não só serviria como uma plataforma para jovens cineastas locais exibirem seus trabalhos, mas também poderia servir como um centro comunitário onde workshops, discussões e eventos culturais poderiam ocorrer.
“Florianópolis, apesar de sua rica produção cinematográfica, ainda carece de espaços de exibição abertos ao público. Em tempos de crescente produção local de cinema, retomar o Cine São José como um cinema de rua tem o potencial de ampliar significativamente o acesso à cultura e renovar a relação dos moradores com a sétima arte. Um cinema não é apenas um prédio — ele é memória, encontro e vida na cidade”, afirma Patrícia.
O cineasta manezinho Zeca Pires e a presidente do Funcine, Julia Rojas, idealizadores do projeto, afirmam ter recebido muito carinho e apoio das pessoas que costumavam frequentar o cinema antigamente. Muitos relatos e histórias chegaram até eles logo após a ideia ter sido divulgada nos jornais. “Tudo aconteceu de forma muito espontânea. Tem sido muito legal redescobrir a cidade através do Cine São José. Queremos honrar a memória dos que passaram por ele e construir novas com os que virão”, disse Julia.
Hoje, o Cine São José segue de portas fechadas. As poltronas já não existem, as filas desapareceram e os projetores continuam apagados, há décadas. Ainda assim, para quem insiste em olhar além da fachada desgastada da rua Padre Miguelinho, o prédio continua carregando algo raro em Florianópolis: a possibilidade de reencontro entre a cidade e sua própria memória.






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