Júlia Graboski

Foto: Júlia Graboski
Assistir a Tom na Fazenda em Florianópolis, durante o Mês do Orgulho LGBTQIA+, foi também testemunhar a permanência de uma obra que se recusa a perder sua urgência. Em cartaz desde 2017, o espetáculo dirigido por Rodrigo Portella e protagonizado por Armando Babaioff passou pelo palco do Teatro Ademir Rosa, no Centro Integrado de Cultura (CIC), nos dias 5, 6 e 7 de junho, alcançando a marca de 603 apresentações ao final da temporada catarinense. Em um cenário teatral marcado pela dificuldade de circulação e permanência dos espetáculos, sua longevidade não representa apenas um êxito de produção, mas a capacidade rara de continuar dialogando com diferentes públicos sem esgotar suas questões centrais.
Baseada na dramaturgia do canadense Michel Marc Bouchard, a peça acompanha Tom, um jovem publicitário que viaja para o funeral de seu companheiro e descobre que a família do falecido desconhecia completamente sua existência e a orientação sexual do filho. A partir dessa revelação, constrói-se um ambiente de tensão crescente, onde segredos, silêncios e convenções sociais passam a determinar as relações entre os personagens.
Embora a homofobia seja um elemento fundamental da narrativa, Tom na Fazenda ultrapassa a condição de denúncia social. Como observou Babaioff em entrevista à Revista Continente, a obra também fala sobre luto, desejo, necessidade de aprovação e sobre aquilo que o dramaturgo identifica como a coexistência entre o desejo de amor e a pulsão de morte. A peça investiga justamente os espaços em que afeto e violência deixam de ser opostos absolutos para se tornarem forças que se atravessam mutuamente, produzindo relações complexas e muitas vezes contraditórias.
A encenação encontra sua principal força no trabalho dos intérpretes. Armando Babaioff constrói um Tom marcado pela vulnerabilidade, mas distante de qualquer passividade. Sua atuação percorre diferentes estados emocionais como luto, medo, desejo e fascínio, sem jamais recorrer a soluções fáceis. O personagem permanece constantemente em conflito consigo mesmo, o que torna sua trajetória ainda mais inquietante.
Ao seu lado, Iano Salomão, entrega uma interpretação intensa de Francis, figura que concentra boa parte das tensões dramáticas da montagem. Sua violência não surge como expressão individual isolada, mas como consequência de estruturas familiares e sociais que reprimem afetos e transformam fragilidade em agressividade. Denise Del Vecchio, no papel de Agatha, acrescenta delicadeza à narrativa ao interpretar uma mãe cuja ignorância sobre a vida do próprio filho se converte em uma das dimensões mais dolorosas do espetáculo.
A montagem também chama atenção pela forma como evidencia a profunda relação entre teatro e literatura. Antes de chegar aos palcos brasileiros, o texto despertou tamanho interesse em Babaioff que o ator decidiu traduzi-lo pessoalmente e adquirir os direitos da obra. Desde então, a dramaturgia de Bouchard tornou-se parte central de sua trajetória artística.
Essa origem literária permanece visível na construção simbólica da peça. A fazenda não funciona apenas como cenário, mas como metáfora do isolamento, da repressão e dos pactos silenciosos que sustentam determinadas estruturas familiares. Os diálogos, os silêncios e as repetições revelam uma escrita sofisticada, capaz de transformar conflitos íntimos em reflexões sociais mais amplas. Ao levar esse texto para o palco, a montagem demonstra como o teatro amplia as possibilidades da literatura ao transformar palavras em corpos, vozes e experiências compartilhadas.
Um dos aspectos mais impressionantes da montagem está justamente em sua concepção cênica. Sem recorrer a cenários grandiosos ou mudanças constantes de ambiente, Tom na Fazenda constrói seu universo dramático a partir de poucos elementos, tendo a lama espalhada pelo palco como principal recurso visual. Mais do que um detalhe estético, ela funciona como símbolo das tensões que atravessam a narrativa, o peso dos segredos, o aprisionamento dos personagens e a dificuldade de escapar das estruturas que os cercam.
À medida que os corpos se movimentam sobre esse terreno instável, o espaço parece absorver os conflitos da trama, tornando visível aquilo que muitas vezes permanece oculto nas palavras. A escolha revela uma compreensão sofisticada da linguagem teatral, demonstrando que a força da cena não depende da abundância de elementos cenográficos, mas da capacidade de atribuir múltiplos significados a cada componente presente no palco. Em uma época marcada pela valorização de grandes aparatos técnicos, a montagem reafirma a potência da síntese e da imaginação teatral.
Após a sessão de sábado, uma conversa entre elenco e público ampliou algumas das reflexões propostas pela obra. Babaioff definiu o teatro como uma espécie de comunhão coletiva, um espaço capaz de produzir sentido para a existência humana. A definição parece sintetizar a própria experiência proporcionada por Tom na Fazenda. Durante cerca de duas horas, a plateia partilhou um território comum de escuta e sensibilidade, onde experiências individuais adquiriam dimensão coletiva.
Nesse contexto, ganha ainda mais força uma frase frequentemente associada à obra e lembrada pelo ator ao longo de sua trajetória com o espetáculo, “o homossexual aprende a mentir antes mesmo de aprender a amar”. A afirmação, mencionada pelo próprio Michel Marc Bouchard ao sintetizar o núcleo da peça, ajuda a compreender a dimensão trágica da narrativa. A mentira apresentada em cena não nasce da perversidade dos personagens, mas da necessidade de sobrevivência em uma sociedade que historicamente negou legitimidade às vivências LGBTQIA+. O resultado é um ciclo de ocultamentos que afeta não apenas quem esconde sua identidade, mas todos aqueles que vivem ao redor desse silêncio.
Por isso, sua apresentação durante o Mês do Orgulho adquire significado especial. Sem recorrer a discursos panfletários ou respostas simplificadas, a peça convida o público a refletir sobre os impactos humanos da intolerância, transformando debates sociais em experiências profundamente sensíveis.
Após mais de seiscentas apresentações, Tom na Fazenda confirma seu lugar entre as montagens mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. Ao unir excelência interpretativa, densidade literária e relevância política, o espetáculo demonstra que o teatro continua sendo um espaço privilegiado para pensar o mundo, enfrentar preconceitos e ampliar nossa capacidade de compreender o outro. Mais do que contar uma história, a obra estabelece uma ponte entre palco e plateia, transformando o encontro teatral em um exercício de escuta, empatia e reflexão.





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