Show do Maglore reúne artistas e histórias da música independente em Florianópolis 

Além da apresentação da banda, a noite contou com participações de Hélio Flanders e Bruna Lucchesi, que compartilharam experiências sobre amizade, composição e trajetória artística


Júlia Vicente e Nathália Luna

No palco, integrantes da banda “Maglore” ao lado de Hélio Flanders e Bruna Lucchesi.
Foto por Julia Vicente

“Ouçam música brasileira! A galera tem preguiça de conhecer, é muita síndrome de vira-lata”, afirmou Carol Grance durante o encerramento da turnê de 15 anos da banda baiana Maglore, conhecida por transitar entre a MPB e o rock alternativo. O show, realizado em 15 de maio, lotou o John Bull Pub, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.

Amiga íntima da banda há 12 anos, Carol conta que conheceu o Maglore por indicação de Hélio Flanders, vocalista da banda Vanguart, que abriu a noite ao lado de Bruna Lucchesi. “Fui a um show do Hélio na minha cidade, no interior do Mato Grosso do Sul, e ele me indicou o som deles.” Os artistas Hélio e Bruna deram início à noite com singles de suas carreiras, além de participarem do show principal, cantaram um cover de “It ain’t me babe”, do álbum Another Side Of Bob Dylan, de 1964.

Quando caminhos se cruzam

A sintonia da dupla começou em 2023, quando Bruna foi convidada para participar de uma edição dedicada a Bob Dylan do projeto musical e teatral Trovadores de Miocárdio, em São Paulo. Naquele mesmo ano, ela havia lançado Quem Faz Amor Faz Barulho, seu segundo álbum de estúdio, e Hélio já acompanhava seu trabalho. Ao vê-la passando o som antes da apresentação, ele se aproxima: “Bruna Lucchesi! Eu sei o que você tá fazendo, hein? Tô acompanhando seu trabalho. Quero ser seu amigo!”.

Bruna e Hélio tocando o hit de Bob Dylan, “It ain’t me, babe”
Foto por Julia Vicente

No ano seguinte, 2024, houve uma série de poesia e música no Sesc Belenzinho, na Zona Leste da cidade de São Paulo. A curadoria do evento juntou os dois mais uma vez, para uma mesa de conversa, e a amizade firmou.

Segundo Hélio, o exagero artístico é o que despertou o desejo de ser amigo da compositora. “A Bruna é muito peculiar no que ela faz, é difícil encontrar uma cantora com projeção externa, é um exagero, no bom sentido, de viver demais”, diz. “Então quando a gente se encontrou, eu fui num show dela e me certifiquei. Bati o carimbo.” Hoje em dia eles são vizinhos, e além de dividirem uma carreira musical, dividem a vida.

Antes disso, porém, os dois percorreram caminhos paralelos de autoconhecimento, aproximando-se da literatura e do uso das palavras em suas composições. “A Bruna tem esse toque da literatura que eu também tenho. Pra mim, a palavra vem antes da melodia, música sem palavra não é nada”, afirma Hélio. Hoje, os dois enxergam o encontro como algo inevitável. “O dia ia acontecer e agora a gente está aqui.”

A história por trás

Hélio escreveu “Demorou pra ser”, do álbum Muito Mais Que o Amor, quando estava apaixonado, era uma música de amor. Até que um dia o compositor recebeu uma mensagem de uma mulher. Ela confidenciou que teve uma gravidez de risco e passou seis meses quase sem poder sair da cama. A filha nasceu em um dia chuvoso e, para ilustrar aquele momento,

ela recita um trecho do refrão da canção. “Foi o dia em que a minha filha nasceu, deitada no meu peito, quente de dor e amor, eu olhei pra ela e falei: você é a vida da minha vida, demorou pra ser, mas agora é.”

A partir daquele dia, a música deixou de ser do Hélio. Ele afirma que o maior retorno de uma canção é quando ela deixa de ser do compositor “como um filho que um dia sai de casa e se torna maior que a gente”, diz. “A grande alegria é vê-las saindo de casa, fumando maconha, cursando faculdade, se apaixonando, quebrando a cara, sofrendo por amor, e depois, tomando seus próprios caminhos”, completa. 

Durante a noite, Bruna performou algumas de suas novas músicas, pertencentes ao álbum que a artista recém lançou ao mundo. “Bandoleira” (2026) transita entre o folk e o rock em uma conversa entre Bruna e seu violão. A artista explica que a experiência de compor o álbum, como “basicamente tudo o que eu faço, foi muito espontânea”, compartilha também que foi em meados de 2024 que entendeu que estava construindo seu próximo álbum.

“Sei voar”, canção que abre o disco, está entre as favoritas de Bruna para apresentar no palco, junto de “No Lombo de um Cavalo”. Bruna explica de onde vem sua conexão com cavalos, que é explorada fortemente durante o álbum.  “Eu cresci entre o ambiente urbano e rural, meu avô tem uma fazenda no interior do Paraná, então cresci indo para lá nas férias e sempre gostei de andar a cavalo”, conta.A artista vê uma relação de empoderamento em montar. “Sendo uma mulher que se sente muito bem nesse ambiente, acho que tem uma coisa meio empoderadora também de montar bem, eu faço isso com prazer, com gosto. Eles me escutam, acho que tem uma coisa meio especial ali na nossa relação”, completa.

Júlia Vicente

Sou estudante de jornalismo da Universidade Federal de Santa catarina. Gosto de fotografia e de escrever sobre arte, cultura e música.

Nathalia Luna

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Gosto de falar e escrever sobre música, cinema, fotografia, política e outras coisas.

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