Sarah Pretto

BaianaSystem transformou a atmosfera da 10ª edição do Arvo, marcando uma ruptura em relação às apresentações anteriores e levando o festival a uma energia completamente diferente. A primeira performance da banda, após o circuito de shows do Carnaval, foi mais do que uma sequência de músicas. Tornou-se uma experiência coletiva marcada por intensidade, movimento e uma energia que parecia crescer a cada faixa.
Com início perto da meia-noite de sábado, 16 de maio, no palco principal do festival, o grupo entregou aquilo que consolidou sua identidade dentro da música brasileira contemporânea: uma mistura potente entre sound system, carnaval de rua, ritmos afro-baianos e experimentações eletrônicas. O resultado foi um espetáculo em que o impacto sonoro parecia atravessar não apenas o espaço, mas também o corpo do público.
Mesmo sendo o sexto e penúltimo show da noite, com a entrada do vocalista Russo Passapusso o clima do festival mudou. A música “Saci” foi um dos momentos de maior explosão coletiva. Com a presença de um dançarino caracterizado no palco, a faixa provocou uma resposta imediata da plateia: rodas se abriram respondendo ao peso dos graves e a energia da banda.
A canção “Alfazema”, que abriu o caminho para mais de uma hora de apresentação, contém em seus versos o sentimento de grande parte do público. “Entro na roda/ Eu fico louco/ Danço um côco furioso/ Até o dia acabar”.
Depois vieram “Reza Forte”, “A Vida É Curta Pra Viver Depois”, “Capim Guiné” e “Miçanga”. A faixa “Lucro (Descomprimido)”, assim como boa parte da obra do grupo que compôs o show, traz uma crítica social inserida no ritmo e, no contexto de Florianópolis, ganha uma leitura ainda mais próxima da realidade da cidade ao abordar questões ligadas à ocupação urbana e à especulação imobiliária em áreas litorâneas.
A potência do show foi construída a partir da linguagem já característica do BaianaSystem: guitarra baiana, percussão intensa, metais e elementos eletrônicos que se combinavam em uma sonoridade própria. Na edição do Arvo que celebra dez anos de valorização à diversidade da música brasileira, a banda apareceu como a síntese mais intensa dessa proposta.
A cantora Claudia Manzo acompanhou a banda e fechou a apresentação com uma versão do clássico latino “Gracias a La Vida”, dando ao fim do show um tom mais sensível sem diminuir a intensidade construída ao longo da noite. Talvez o aspecto mais marcante tenha sido justamente a dimensão coletiva da experiência. Em um momento em que muitos shows se transformam em cenários para gravações de celular, o BaianaSystem provocou o efeito contrário, exigindo a presença do público e fazendo com que ele também fosse parte do espetáculo.





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