
Em fevereiro deste ano, alguns cinemas do país exibiram versões restauradas de alguns clássicos do nosso cinema que se passam ou têm como foco a cidade de São Paulo. Acabei por rever os clássicos de Luiz Sérgio Person e Rogério Sganzerla – São Paulo: Sociedade Anônima e O Bandido da Luz Vermelha, respectivamente. Filmes de dois diretores fundamentais para entender o cinema brasileiro. Person morreu em 1976 e Sganzerla em 2004. Se o segundo estivesse vivo, faria na próxima segunda-feira, 4 de Maio, seus oitenta anos.
Assisti São Paulo S/A três anos atrás, pela primeira vez, e senti a atualidade e a capacidade do Person em capturar problemas de uma realidade urbana sufocante, que na década de 60 estavam recém surgindo. Vi no personagem de Carlos um homem sufocado pelo sistema em si, mas principalmente por ser obrigado a viver rodeado de pessoas que se satisfaziam fazendo a engrenagem girar, querendo inclusive que ele próprio fosse assim.
Assistindo pela segunda vez, sinto ainda mais identificação com o protagonista. Depois de muitos empregos e mulheres, Carlos se estabiliza naqueles que acha que são os melhores ou mais convenientes. Não por vontade, mas por “cansaço”, como ele mesmo diz. Não dura muito, pois assim que ele vê tanto o chefe quanto a esposa arranjando e planejando pra ele um futuro que ele próprio nunca quis, vem o desespero, a fadiga e a palpitação de um coração que só queria estar longe dali, mesmo não sabendo onde.

“TCHAU, SÃO PAULO! TCHAU, LUCIANA!”
A busca por recomeçar e a súplica que ele faz ao chefe “Vão para o inferno vocês dois, o que eu quero é sossego!”, deixam claro o desespero ao deixar de se ver e sentir como indivíduo, se tornando apenas produto e condutor da cidade rumo ao progresso, tanto ressaltado no filme.
Em uma das cenas finais, procurando em um estacionamento um carro para roubar e fugir da cidade, tenta abrir vários importados cujas portas não cedem. No momento em que a câmera foca em um carro com a frase “produzido no Brasil” gravada no vidro de trás, a porta se abre. O significado da cena é claro: o desenvolvimento da indústria nacional era uma mentira, baseado em mentirosos como o Arturo, seu chefe que vendia peças de baixa qualidade para as montadoras de carros. O desenvolvimento era uma mentira, o casamento era uma mentira, a estabilidade de uma vida ascendente na capital econômica era uma mentira. Carlos sentia ser o único dentre todos que o rodeavam que enxergava essa mentira, ou pelo menos que se sentia desconfortável em viver nela.
“Recomeçar, aceitar, apagar Ana, esquecer Luciana, recomeçar, aceitar”
Uma necessidade que em poucos surge como chama, mas não se apaga pelo comodismo de uma vida encaminhada.
“Se quiser um pretexto, pode dizer que fiquei doido!”

Quanto ao segundo filme, não existe outra palavra para descrevê-lo que não seja caótico. Tanto que, assistindo com um som não muito bom, como no meu caso, fica difícil acompanhar o andamento das cenas, principalmente das que têm narração de rádio por cima.
Como muitos dos filmes das décadas de 60 e 70, a capacidade de alguns diretores e roteiristas de escrever frases que sintetizam a mensagem por trás da obra é fenomenal. De O Bandido da Luz Vermelha, anotei algumas que me chamaram a atenção:
“Um país sem pobreza é um país sem folclore, e sem folclore o que é que vamos mostrar pros turistas?”
“No meu governo o pobre vai mastigar. Vou distribuir chicletes para todos os pobres”
Em meio a um mundo e um país que viviam tempos caóticos, aqui com políticos corruptos na ditadura e uma sociedade corrompida, a imprensa sensacionalista se concentra em um único homem como inimigo público, o “bandido da luz vermelha”, como se nada mais tivesse importância no país.
“A solução pro Brasil é o EXTERMÍNIO, é o extermínio TOTAL! Eu sou poeta, EU VEJO!”
“O terceiro mundo vai EXPLODIR! Quem tiver de sapato não sobra! Não pode sobrar!”
Ambos os filmes foram vistos no cinerama Arthousebc, em Balneário Camboriú (SC).





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