Raul Seixas, Zé Ramalho, Belchior: afinal, quem é o Bob Dylan brasileiro?

Victor Hugo Viegas

Acima: Zé Ramalho (Por Mário Luiz Thompson), Raul Seixas (Divulgação: Gita) e Belchior (EM/D.A Press),
abaixo: Bob Dylan (Por Jerry Schatzberg). Colagem: Victor Hugo Viegas

Robert Allen Zimmerman nasceu em 24 de maio de 1941 na pacata cidade de Duluth, no Minnesota, em um inexpressivo meio-oeste estadunidense do começo do século XX. No entanto, passados vinte anos, o garoto que nasceu em uma vida simples, chegava cada vez mais perto de se tornar o que havia sido destinado a ele. A voz, o profeta, o poeta, a estrela; o cigano, o judeu, servo e rei de si e de todos. Falar de Bob Dylan é falar, provavelmente, de uma das figuras mais impactantes e de maior influência da era moderna, inclusive para muitos artistas da música brasileira, principalmente dos anos 60 e 70.

Dylan começa jovem a entender os diferentes estilos musicais como armas pesadas de expressão dos diversos grupos étnicos e culturais dos Estados Unidos. Tem contato na infância e adolescência com o country, música caipira de temática rural, mas também com o blues negro que retratava o sofrimento em uma sociedade segregada. Ouve em 1956, aos 15 anos, a voz que mudaria sua vida, como ele mesmo descreve: “Ouvir o rock de Elvis Presley no rádio foi o momento em que eu soube que seria rebelde, que ninguém mandaria em mim enquanto eu vivesse”. Mais velho, conheceu um estilo de música originado no meio-oeste que mesclava country e blues, mas era marcado por letras de protesto com teor social e de denúncia. Foi aí que se encontrou, ou pelo menos soube por onde começar, na Folk Music.

Daí pra frente, Dylan foi um pouco de tudo na vida. Um inveterado fã da literatura Beat desde a adolescência, abraçou o espírito livre da poesia de Allen Ginsberg e Jack Kerouac em suas músicas, marcou toda uma geração dos anos 60 com suas letras de protesto que mais pareciam poemas acompanhados de violão e gaita, participou de marchas pelos direitos civis e colaborou com nomes como Joan Baez, Patti Smith, Martin Luther King, John F. Kennedy, dentre outros. Em 1965, passou pela sua transição mais ousada ao trocar o violão pela guitarra elétrica e abraçar a luta dos americanos para construir um Rock n’ Roll próprio, ao invés de aceitarem a invasão britânica de bandas como The Beatles, Rolling Stones, o Cream de Eric Clapton e Pink Floyd, algumas com as quais Dylan colaborou posteriormente.

Após perder fãs do folk enquanto conquistava o mundo com os discos Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde, sofreu um acidente de moto em 1966, passando a viver mais recluso e sem fazer shows. Nessa época, mesmo sendo um dos símbolos do efervescente movimento hippie, se envolveu com a música country, que naquele período caía no ostracismo e era tachada como conservadora demais. Foi quando conheceu artistas consolidados do gênero, alguns já seus amigos, como Johnny Cash, Willie Nelson e Ramblin’ Jack Elliott. Desse período nasce um de seus melhores discos, o Nashville Skyline (1969).

Bob Dylan e Joan Baez em 1975, durante a turnê Rolling Thunder Revue.
Foto: Reprodução Netflix/Martin Scorsese

Nos anos 70, consolida seu estilo próprio que misturava tudo pelo que havia passado até então. Depois do fim do casamento de 12 anos com Sara Dylan, compõe o álbum Blood on Tracks, tido por muitos como sua melhor obra. Junto com a The Band, lança o disco The Basement Tapes e embarca em duas turnês. A primeira delas com grande público, lotando estádios e vivendo a legítima Rock Life. A segunda, considerada um de seus melhores períodos, mistura folclore americano com denúncias sociais e misticismo artístico na maravilhosa Rolling Thunder Revue (1975/ 1976), que celebrava o bicentenário da independência americana, posteriormente terminando com o lançamento do disco Desire (1976).

Assim, seguiu nos anos 80 e 90 lançando discos e fazendo shows, destacando os celebrados Street-Legal (1978), Infidels (1983), Oh Mercy (1989) e, mais recentemente, três aclamados álbuns no período da virada do milênio: Time Out of Mind (1997), Love and Theft (2001) e Modern Times (2006). Em seus últimos dois discos, Rough and Rowdy Days (2020) e Shadow Kingdom (2023), já na casa dos 80 anos, surpreende com uma música madura, séria, com rigor instrumental e letras profundas que advém de uma vida inteira de dedicação à arte.

Hoje, Dylan segue na estrada, onde sempre viveu física e espiritualmente. Um artista que, na forma mais pura de se caracterizar quem vive de e para a arte, passou pelas mais diversas fases em matéria de estilo, musicalidade, foco literário e abordagem linguística em suas letras. Em quase setenta anos de carreira, só não largou uma coisa: a gaita de boca.

Bob Dylan pelo fotógrafo David Gahr.

Bob Dylan tem sido uma influência global por mais de seis décadas. No Brasil, claro, não foi diferente. Na incrível matéria da DW Brasil, André Bernardo conta com detalhes as passagens de Bob pelo país, além da relação de músicos e personalidades brasileiras com ele, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Vitor Ramil, Fagner, e outros.

Todos esses artistas expressaram admiração e homenagearam Dylan com versões de suas músicas, mas existem três que foram mais longe. Três músicos nordestinos que, por ironia do destino ou não, transformaram a vida do autor que vos escreve, beberam da fonte de Bob Dylan e, sentindo a mesma transformação, criaram muito do melhor que se pode ouvir da música brasileira. Os três foram considerados “Dylan’s brasileiro”, cada qual à sua maneira.

Belchior nos anos 1970. Foto: Paulo Salomão

Belchior, ao que se sabe, foi o único dos três que conheceu Dylan. Foi apresentado a ele por Gilberto Gil em um dos camarins do Hollywood Rock, no estádio do Morumbi, São Paulo, em 1990. Gil teria dito que Belchior era o “Bob Dylan brasileiro” e Dylan respondido “É mais provável que eu seja você na América”. 

Belchior carrega a marca de Dylan principalmente na forma poética que sempre usou para compor e cantar. O estilo “falado”, quase literário de pronunciar os versos, somado a uma capacidade singular de compor músicas de denúncia, condensando o dia a dia brasileiro em poesia musical, marcaram o cearense como um dos grandes músicos da MPB. Direta ou indiretamente, Belchior cita Dylan em pelo menos quatro de suas músicas: Velha Roupa Colorida (1976), Corpos Terrestres (1978), Onde Jazz Meu Coração (1984) e Lira dos Vinte Anos (1988).

Raul Seixas. Reprodução/CNN Brasil

Se Belchior incorporou Dylan na forma, Raul o fez pelo comportamento. Também  influenciado desde jovem pelo rock de Elvis, decidiu cedo que viveria fora da linha, um rebelde indomável por conta própria. Assim fez, incorporando ao Rock N’ Roll os elementos da música brasileira e regional nordestina, criou desde o começo um estilo tão único que se tornaria marca registrada jamais repetido novamente. Misturando os ritmos e as influências culturais de sua vida, tal qual Bob fez no começo da carreira, Raul disse diversas vezes que “não tinha nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira”.

Por conta da proximidade na postura e na afirmação do individualismo e da independência artística, ambos criaram, quase de forma inconsciente, uma aura mística em torno de suas músicas e de si mesmos. Esse misticismo rendeu a Raul no Brasil o mesmo status de profeta que Dylan havia recebido mais de 10 anos antes nos Estados Unidos, rótulo este que ambos se recusaram a abraçar. 

Na singular letra de “Eu também vou reclamar”, música na qual Raul critica os artistas que diziam fazer “músicas de protesto” na época da abertura econômica, o baiano faz questão de ressaltar que passou por tudo aquilo muito antes deles, dizendo “Eu já passei por Elvis Presley, imitei Mr. Bob Dylan, you know?”.

Zé Ramalho no início da carreira. Reprodução/LetrasBR

Com Belchior usando a forma de compor e cantar e Raul Seixas encarnando o comportamento rebelde e roqueiro, Zé Ramalho fecha o ciclo com ambas as características e vai mais longe, usa explicitamente a influência de Dylan em suas obras.

Com uma voz de trovão que lembra a fonética cavernosa de Bob Dylan, Zé Ramalho se permitiu navegar pelos estilos e ritmos que iam desde o rock psicodélico e o baião até o frevo e a música popular brasileira. Com maestria, misturava os estilos em uma maneira tão própria que, assim como o americano, o cearense e o baiano anteriormente analisados, se tornaria impossível de imitar.

Ramalho teve inclusive uma trajetória semelhante à de Dylan. Ativo com suas músicas de protesto na época da ditadura militar brasileira, consolidou seu nome na música nacional e envelheceu sem nunca parar de fazer shows e compor novas músicas. Desde o começo dos anos 2000, lançou uma série de discos em que homenageia e regrava grandes sucessos de seus ídolos, dentre eles os Beatles, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, e o próprio Raul Seixas, por quem Zé nunca deixou de demonstrar inspiração e devoção artística.

Logicamente, de todos os álbuns em que o paraibano regravou versões de seus ídolos, aquele que mais fez sucesso e onde melhor se encaixou seu estilo foi o disco Zé Ramalho Canta Bob Dylan (2007).

Capa do álbum Zé Ramalho Canta Bob Dylan, de 2008 . Créditos/EMI Music Brasil Ltda

Assim, fica difícil bater o martelo em quem seria o nosso Bob Dylan. Na realidade, é melhor que fiquemos assim, afinal de contas, que outro país tem em sua música três “Dylan’s”?

Acho que essa façanha é só do Brasil.

Victor Hugo Viegas

Estudante de Jornalismo na UFSC, pesquiso e escrevo sobre história, música, cinema e jornalismo.

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