“O Brasil vive um atraso editorial, e a universidade corrobora para isso”: Nildo Ouriques tece críticas sobre a produção intelectual no país

O diretor executivo da EdUFSC discute os entraves editoriais brasileiros e rompe regionalismo

Ibrahim Khan

Nildo Ouriques participa de podcasts, escreve artigos de opinião e é ativo nas redes sociais, criticando figuras de todo o espectro político. (Foto de Ibrahim Khan)

Nildo Ouriques, diretor executivo da EdUFSC, falou nesta segunda, 6 de abril, sobre a editora da universidade e o novo livro lançado em março deste ano. “Capitalismo e Colonização: Extratos e Notas” de Marx.“Não estou preocupado com os acadêmicos, mas sim, com a tradição de diálogo do intelectual com o povo. Não quero falar para meus pares”, afirma. 

A fala remete ao pensamento de Darcy Ribeiro, especialmente às críticas que o antropólogo fez à elite intelectual brasileira e ao seu distanciamento do povo, após retornar de exílio em 1979. Ouriques converge com essa perspectiva e defende o papel do intelectual público como interlocutor da sociedade.

Natural de Joaçaba, no interior de Santa Catarina, Ouriques é professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC, com foco em economia política, ênfase no marxismo latino-americano e nacionalismo. Em 2006, participou da criação do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) e foi designado seu primeiro presidente pelo então reitor da universidade, Lúcio Botelho. Assumiu a direção da EdUFSC em 2024, após a aposentadoria de Waldir Rampinelli. Seu mandato no cargo está previsto para até julho deste ano.

O Caderno Expressões ouviu Ouriques no IELA, no final da tarde de segunda.

CADERNO EXPRESSÕES – Por que publicar essas notas de Marx?

Nildo – São várias razões para publicar esse livro. Primeira porque, em 46 anos de existência da editora, Marx nunca tinha sido publicado. Na universidade se fala sobre tolerância e pluralismo, menos Marx, então é preciso estimular uma tradição crítica. Segunda porque eu estou fazendo um esforço para fortalecer uma dimensão nacional na editora. Esse é um texto inédito em português, os lançamentos que fizemos no Rio de Janeiro e São Paulo deram bons resultados. O que eu estou fazendo na editora é publicar os inéditos em português, obras de alcance nacional e que entrem nas grandes polêmicas do nosso tempo. 

Marx faz comentários sobre duas obras de William Prescott nesse livro, uma sobre a história de conquista do Peru e outra da conquista do México. Ele analisou outros 13 autores que trabalham o tráfico de escravos. Há uma tendência pós-moderna e identitária, que acusa Marx de racismo, isso prospera, sobretudo, no meio universitário. A ignorância reina nas universidades com uma liberdade que é verdadeiramente impressionante, nunca vi ninguém da favela ou de um sindicato dizer algo parecido.

CADERNO EXPRESSÕES – Essa linha editorial, por priorizar obras inéditas, gerou alguma desavença na editora?

Nildo – Não, o conselho editorial apoiou todos e cada um dos meus projetos, foram todas as obras com plena aceitação. Tanto eu, quanto o Rampinelli, que me antecedeu, cuidamos para que participassem amantes de livros que não tomem isso para apenas satisfazer o plano de atividades de professor, mas que tem apreço. Nós voltamos para as feiras nacionais e organizamos a primeira feira da editora ano passado.

CADERNO EXPRESSÕES – Como foi essa feira da EdUFSC?

Nildo – Foi extraordinário, primeiro que a mídia espontânea explodiu, foram muitas matérias. Florianópolis não tem uma feira do livro. Agora temos esse propósito, ficou claro para nós, a feira do livro de Florianópolis é a feira da EdUFSC. Uma cidade sem isso é está condenada no sentido de manufaturação da opinião pública imposta pela mídia burguesa. A gente briga contra uma característica daqui que é esse ar intelectual e político muito provinciano. A linha da editora quer romper com isso.


CADERNO EXPRESSÕES – Você abre o prefácio do livro com uma citação de Darcy Ribeiro sobre a “sobrevivência” de Marx, por quê?

Nildo – Eu reputo o Darcy Ribeiro como o maior antropólogo brasileiro. A antropologia brasileira atual, na perspectiva dele, ocupa-se com quinquilharias e com o umbigo das pessoas, é esse identitarismo que domina a cena universitária. Não entra no sindicato e nem na periferia, mas entra na universidade. Esse país tem acadêmicos que insistem em dizer que Marx está ultrapassado e morto, há ignorância nas ciências humanas e sociais, colocam no altar a influência francesa como Foucault e Deleuze que foi derrotada agora por uma influência estadunidense como Snyder.

A universidade é que capitaneia esse movimento de vulgaridade e de quinquilharias ideológicas importadas dos Estados Unidos e da Europa, que impedem que as grandes contribuições destes países cheguem aqui. Sobre a questão racial, por exemplo, Darcy, Jacob Gorender e tantos outros não são conhecidos, tampouco é conhecido o marxismo estadunidense dos anos 40, o que chega aqui é Angela Davis, que é do partido Democrata, e Panteras Negras, que já é um grito de agonia do protesto negro, mas tudo isso já foi dito por Abraham Harris, Franklin Frazier e tantos outros. Trazer Marx e a superação da sociedade capitalista pega mal, mas qualquer francês pós-moderno é festejado nas casas editoriais. Enquanto houver capitalismo, Marx é o autor mais fecundo para entender.

CADERNO EXPRESSÕES – Qual foi o papel da EdUFSC na publicação dessa obra?

Nildo – Muitas pessoas não entendem o processo de publicação de um livro. Uma vez aprovada no conselho editorial, o tradutor contratado por nós entrega a obra. Indicamos um revisor, que revisa essa obra em contato próximo com o tradutor, passa para o diagramador, volta para a revisora e chega nas minhas mãos, reviso junto e vai direto para a gráfica.

O desafio como diretor é pensar sobre o que o povo precisa ler. Se você for numa livraria de aeroporto a situação é de chorar. Os livros mais vendidos no Brasil, é de cortar os pulsos, não há mais literatura brasileira. O Brasil vive um atraso editorial, e a universidade é a que mais contribui para esse atraso. Há literatura feminista, negra, LGBT e de guetos, mas não uma literatura nacional. Tem gente que torce o nariz quando eu digo isso, mas eu falo na lata. Eu quero fazer uma coisa nova… nova e nacional.

CADERNO EXPRESSÕES – Como você avalia a situação das editoras universitárias hoje?

Nildo – Está uma catástrofe, estão todas acabando. As editoras universitárias enfrentam dois problemas graves. Um é o caráter provinciano que a maioria dos diretores das editoras assumem. O outro é a capacidade financeira das federais que está minguando. As grandes paulistas aguentam, por que elas mesmas são fundações, têm autonomia financeira e estão no coração capitalista do Brasil. O caso é diferente em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e em outras regiões do país. 

As editoras não possuem projetos ambiciosos, estou focando em obras inéditas para dar a EdUFSC status e capacidade de disputar com as grandes. Ser pequeno é um problema, mas agora pensar e agir como pequeno é muito pior. Então estamos agindo como grandes, investimos em audiobooks, que não é do meu agrado, mas cresce no mercado editorial. Com o crescimento das vendas, entra mais dinheiro e há mais possibilidades. Estou contente com o resultado até agora.

Este ano teremos a segunda feira do livro da EdUFSC, está marcada para agosto na primeira semana de aula do segundo semestre. Também está para sair a tradução de autores como William Prescott, o Imperialismo por Hobson, que foi importante para que Lênin escrevesse sua obra sobre o imperialismo no capitalismo, Propaganda por Edward Bernays, Humanismo Marxista de Ludovico Silva, Reforma de Córdoba de 1918 na Argentina. Muita coisa boa. Nós também estamos divulgando esses lançamentos. Quando eu assumi o cargo havia cerca de 80 mil livros guardados no depósito, professores muitas vezes publicam seus trabalhos e não fazem nada para divulgar, serve só para o Lattes. Estamos distribuindo, o livro tem que estar na mão do leitor.

Ibrahim Khan

Estudante de Jornalismo da UFSC. Interessado em política e pessoas.
















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