“Sou fascinada pela literatura brasileira contemporânea, porque sinto que ela fala mais de mim do que a literatura do século XIX”

Regina Dalcastagnè, crítica literária, escritora e pesquisadora, visita a UFSC para lançamento de seu novo livro

Olívia Geleilete

Regina criou e editou, por mais de 20 anos, a revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea da UnB e é editora do site Praça Clóvis: Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea. Foto: Arquivo pessoal

A convite do Programa de Pós-Graduação em Literatura, Regina Dalcastagné, egressa do curso de Jornalismo da UFSC, retorna à universidade hoje, 6 de abril, às 19h, no Auditório Henrique Fontes para uma aula magna com o tema: “Pensar a literatura, narrar o Brasil”. Gratuito e aberto ao público, o evento faz parte da turnê de lançamento do seu novo livro  “Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa”, lançado oficialmente no final de março (25) pela editora Todavia, em Brasília. 

Professora titular da Universidade de Brasília, doutora em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas, crítica literária, escritora e pesquisadora, Regina dedicou sua carreira ao estudo da literatura brasileira contemporânea. Em conversa com o Caderno Expressões, ela contou sobre a idealização de seu livro, sua relação com a literatura brasileira e indicou livros e escritores relacionados ao seu novo livro. 

CADERNO EXPRESSÕES – O seu principal objeto de pesquisa é a literatura brasileira contemporânea. Como surgiu o interesse e a paixão por essa área da literatura?

REGINA – Eu comecei como jornalista. Em Florianópolis, trabalhava no setor de cultura do Diário Catarinense, lá tinha quem gostava de trabalhar com música, moda, teatro, e acabou que, por acaso, naquele momento, não tinha ninguém muito interessado em literatura e eu disse: deixa comigo. Rapidamente, enquanto ainda era estudante, eu estava fazendo entrevistas com escritores e resenhas de livros. Tive uma coluna semanal no Diário Catarinense, uma página só sobre literatura. Era muito legal, eu recebia os livros, fazia as resenhas e comentava. Acho que foi isso que fez eu me interessar mais ainda pela literatura. 

Eu sou do interior de Santa Catarina, lá tinha acesso a pouquíssimos livros. Havia apenas uma biblioteca precária, com livros do século XIX, os clássicos. Então, é claro que quando fui para Florianópolis fazer o curso, fui me aproximando cada vez mais e ficando fascinada pela literatura contemporânea e pela literatura brasileira contemporânea, porque eu sinto que ela fala mais de mim do que a literatura do século XIX. Fala do que está à minha volta, das minhas experiências e das relações que eu estabeleço com as pessoas. Eu acho que foi isso que me levou a construir minha carreira inteira.

CADERNO EXPRESSÕES – Qual foi a motivação inicial para você escrever seu novo livro?

REGINA – Eu tenho muitos livros publicados, mas esse tem uma intenção diferente. Já são 30 anos de pesquisa, entendi que eu já tinha material, informações, livros, leituras, inclusive um projeto para fazer isso que eu estou chamando de uma história da literatura brasileira contemporânea. O livro não tem objetivo cronológico, até porque a literatura contemporânea é muito ágil e fragmentada. 

Acho muito importante a ideia de deslocamentos, é isso que faz a nossa literatura tão rica, ela é movimentada, trata de várias coisas diferentes, vem de lugares diferentes e perspectivas sociais diferentes. Então, foi um pouco o que eu tentei consolidar no livro, que foi pensado especialmente para pesquisadores que trabalham com literatura contemporânea, mas não só. A ideia é que ele vá para a sala de aula, que chegue nas turmas de graduação e que possa, inclusive, atingir professores de ensino médio, que podem encontrar no livro informações sobre obras que interessem a eles.

O livro reflete sobre a literatura brasileira contemporânea a partir da década de 70, considerando o fim da ditadura e a intensificação da urbanização, como fatores que redirecionaram a escrita nacional.

CADERNO EXPRESSÕES – Seu livro é dividido em quatro temas maiores, que você chamou de Percursos: espaciais, políticos, íntimos e cotidianos. Como você definiu esses quatro Percursos?

REGINA – Antes de escrever o livro, eu escrevi um projeto dele. Mas ainda tinham algumas partes soltas e o livro acontece quando você está escrevendo, as coisas vão mudando e se recalculando.

O que eu tinha muito claro era essa primeira parte dos percursos espaciais, que eu achava que era muito importante, e a questão política para mim também era muito evidente. Os percursos íntimos e cotidianos eram uma coisa só, algo relacionado à subjetividade, e foram sendo desenvolvidos enquanto eu estava vivendo o momento de escrever o livro.

Eu comecei a escrever durante a pandemia da Covid-19, e aquilo foi um choque muito grande. Um capítulo que surgiu nesse momento foi sobre o sofrimento e todos os seus vários desdobramentos. Quando começamos aos poucos a sair do isolamento, eu percebi que era preciso fazer também um capítulo sobre a alegria, porque não podemos excluir a alegria da literatura, é o que nos dá esperança. 

Então, são capítulos que foram surgindo conforme eu escrevia. É uma história da literatura feita dentro da vida, do dia a dia e das escolhas.

CADERNO EXPRESSÕES – Você acredita que existe algum tema ou assunto da literatura brasileira contemporânea que já se esgotou, que não possa mais ser abordado ou que perdeu espaço nas produções literárias? 

REGINA – É difícil. É uma boa pergunta, eu nunca tinha pensado nisso. 

Não, por mais que as coisas possam parecer esgotadas, você pode contorná-las, trabalhar de um outro jeito e mostrar outros problemas. Eu tenho a sensação, falando do Brasil, que muitas das coisas que a gente acha que acabou simplesmente foram escondidas. Elas voltam nos momentos assustadores. É o que a gente está vivendo hoje. Quem imaginava que veríamos gente na rua defendendo a ditadura, dizendo que mataram pouco e que a ditadura devia ter matado mais. 

De um modo geral, eu tenho a impressão que as coisas não se esgotam, porque elas se escondem. As coisas mais problemáticas estão só submersas. Elas voltam em qualquer momento. 

Por isso que eu acho importante a gente rever nossa literatura. Eu percebo, em sala de aula, que estamos esquecendo os autores e as obras escritas nos anos 70, 80 e 90. Estamos sempre procurando um novo lançamento. Só que isso faz com que a gente perca a dimensão. Então, acho que modos preconceituosos de dizer envelhecem. Mas os temas podem voltar de diferentes formas. Porque sempre vamos falar da nossa perspectiva, do nosso tempo, dos problemas que nos rodeiam. Esse olhar sempre vai ser novo, acho isso fascinante.

CADERNO EXPRESSÕES – Existe algum tema que você queria que fosse mais explorado?

REGINA – Eu acho que, de modo geral, o mundo do trabalho. Nós passamos a maior parte da nossa vida, dos nossos dias trabalhando. Eu sempre falo que o meu trabalho é maravilhoso, mas eu trabalho feito louca. Meu trabalho é privilegiado, eu posso trabalhar dentro de salas, com algum conforto térmico, conversando sobre livros numa sexta-feira pela manhã. Agora, a gente tem que pensar em todos os outros tipos de trabalho, porque eu não poderia estar sob um teto, protegida, com os meus alunos, se não fossem os pedreiros, os marceneiros, os engenheiros, as senhoras que fazem a limpeza da sala para nos receber. Então, esse universo inteiro do trabalho, que eu acho fascinante, justamente porque há uma variedade muito grande.

CADERNO EXPRESSÕES – Se você pudesse indicar  um livro ou autor, para cada um desses quatro percursos que você abordou no seu livro, quais seriam?

REGINA – Acho que nos percursos espaciais, talvez eu colocasse “Diário de Bitita” da Carolina Maria de Jesus. Nos políticos “Viva o Povo Brasileiro” do João Ubaldo Ribeiro. É maravilhoso, fala sobre a escravidão e como a sociedade brasileira vai se moldando em cima das coisas mais horríveis, na exploração e na violência. 

Nos íntimos, é mais complicado. Acho que “Os contos” de Lygia Fagundes Telles, porque fala sobre mulheres, ela passou décadas escrevendo sobre mulheres e é uma das minhas autoras preferidas. E nos percursos cotidianos, talvez Luiz Ruffato, no universo da preocupação dele, nessa pegada justamente, de observar o trabalhador brasileiro. Acho fantástico e importante o seu posicionamento.


Olívia Geleilete

Estudante de Jornalismo da UFSC. Apaixonada por ouvir histórias, conhecer pessoas e visitar lugares.

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