Marina Sena inspira curta de dança voltado para comunidade LGBTQIAPN+ de Florianópolis

Dividido em duas partes, o filme foi exibido no cinema Paradigma CineArte

Entrevista por Matheus Alves

Clipe “Lua Cheia”

A visão é clara — ilha, calor e desejo. Como um sonho de verão, o curta-metragem “Coisas Naturais”, de José Victor Rosa, se revela uma carta de amor à vida noturna de Florianópolis do ponto de vista de um homem apaixonado por outro. Dividido em dois videoclipes musicais, a produção estreou no dia 29 de novembro de 2025 no cinema Paradigma CineArte, em Santo Antônio de Lisboa. A exibição inédita e gratuita marcou o lançamento oficial do projeto, desenvolvido como trabalho de conclusão de curso de José, estudante de Design Gráfico da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). 

O curta utiliza as músicas “Lua Cheia” e “Numa Ilha”, do álbum “Coisas Naturais”, da cantora Marina Sena, escolhidas por dialogarem com os temas da obra: em um primeiro momento aborda o desejo e o mistério noturno, e então trata de uma paixão vivida em ambiente insular, paradisíaco.

Protagonizado pelo coletivo artístico Arcade, o filme funciona como um double feature — formato com duas partes que se complementam em uma única obra. A narrativa acompanha os personagens Oliver, Antônio e a própria Ilha de Santa Catarina, tratada como elemento central da história. 

Em conversa com o Caderno Expressões, José contou sobre a idealização do curta, sua vivência como homem gay na Ilha e como o projeto saiu de simples esboços para telona de cinema. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

“Coisas Naturais — Lua Cheia”

“Coisas Naturais — Numa Ilha”

CADERNO EXPRESSÕES — Em que época o projeto começou a ser idealizado? 

JOSÉ — Ele nasceu por volta de julho de 2024, mas tomou forma no começo do ano, em março de 2025. Queria fazer alguma coisa voltada para o jovem LGBT+ de Floripa. A princípio, ia ser um estudo fotográfico editorial que representaria vivências de verão. Eu não sabia exatamente o que ia trabalhar, mas com o lançamento da música “Numa Ilha”, da Marina Sena (2024), no final do ano passado, acabei definindo que ela seria usada como fonte. Em março, com a estreia do álbum “Coisas Naturais” (também de Marina Sena), decidi que faria um double feature utilizando duas músicas.

CADERNO EXPRESSÕES — Por que a escolha de classificar como “curta” ao invés de “videoclipe”? 

JOSÉ — É um projeto para ser consumido num formato maior. Ele funciona muito bem como um clipe, mas a ideia inicial é ter essas duas partes que são exibidas juntas. Achei interessante não chamar de clipe, apesar de ser a forma como as pessoas vão acabar consumindo, porque foi uma exibição única.

CADERNO EXPRESSÕES — De onde vieram as ideias para construir a identidade visual?

JOSÉ — O que conceitualizou esse projeto antes mesmo de ter o envolvimento dessas músicas da Marina foi a ideia de algo que representasse a vivência LGBT+ — e trazer a ilha como uma protagonista. Foi utilizada a criação de personas, análise de formulários e eu busquei definir quem seria o público que ia consumi-lo antes de seguir para a parte de criação. 

CADERNO EXPRESSÕES — E quem é o público LGBT+ de Floripa?

JOSÉ — Para fazer essa análise eu realizei uma uma apuração de dados voltados para quem consome esse material. O meu público é majoritariamente LGBT+, não dá para separar isso e também não dá para distinguir da minha própria identidade como um menino gay. O público que o projeto foi feito para atingir faz parte de uma faixa etária de 18 a 34 anos, masculino, formado por homens gays e bissexuais aqui de Floripa.

CADERNO EXPRESSÕES — Seguindo o conceito de manhã e anoitecer do curta, qual a sua relação com a noite na ilha?

JOSÉ — É uma vivência. E eu sinto que a experiência de um homem que gosta de homens é muito falada pelo desejo, por essa sensação um pouco mais carnal. É uma coisa muito comum para a gente, essa relação com a noite no geral. Inclusive, o clipe da noite foi pautado numa experiência real, a partir de uma noite que eu mesmo vivi dentro da Opium. 

CADERNO EXPRESSÕES — Como você enxerga o dia no segundo clipe?

JOSÉ — Ele tem uma pegada um pouco mais fantasiosa. Porque enquanto o primeiro eu considero uma vivência comum da vida de um homem que gosta de homens, o segunda é parte de um desejo, algo que às vezes a gente enxerga até como inalcançável. O sexo, essa questão carnal, é muito comum, mas a gente tem muita dificuldade em evoluir para um relacionamento sério, um relacionamento íntimo, um relacionamento afetuoso. E eu queria representar isso, materializar de uma forma positiva.

CADERNO EXPRESSÕES — Diferente da primeira parte, que é mais focada na performance e na dança, o segundo vídeo conta com algumas curtas falas no início e quase nenhuma coreografia. Por que a escolha de manter um diálogo apenas nesse trecho? 

JOSÉ — Enquanto a primeira parte é protagonizada pelo grupo de dança que eu coordeno, o Arcade, na segunda eu queria que fosse um pouco mais voltada para a interação entre os personagens. O primeiro clipe funciona muito mais como um número musical, com coreografia e dança. Já o outro, esse lado um pouco mais narrativo e íntimo.

CADERNO EXPRESSÕES — Como foi o processo de organizar a produção dos clipes, desde cenários, coreografia e escolha de figurinos?   

JOSÉ — Foi um processo logístico de um ano, um projeto longo. Já conhecia as pessoas que estariam trabalhando naquele projeto comigo fazendo as fotos e filmando. Eu tinha esse network. Mas o que mudou nessa vez foi a ambição. Acho que era um projeto muito mais ambicioso do que a gente estava acostumado. Fomos ignorados por alguns possíveis parceiros para locações. Foi caro, bancado pelas minhas próprias economias, então tinha um limite de até onde eu poderia chegar e com isso teve as negociações. Consegui descontos para o aluguel dos espaços, tanto para o Opium, quanto no cinema para o lançamento. Quando as pessoas pensam em design, elas pensam muito em um processo criativo e artístico, mas também há uma metodologia estabelecida e estruturada. 

CADERNO EXPRESSÕES — Apesar de ser reconhecida como uma cidade farol para o público LGBTQIAPN+, essa realidade não se reflete no cotidiano da ilha e também do entorno, em outras cidade de Santa Catarina que já barraram eventos relacionados a essa comunidade. Como os curtas se apresentam em frente ao conservadorismo bem anunciado da região? 

JOSÉ — A gente sabe que vivemos num contexto de direita, conservador. Trazer o protagonismo para dois meninos que se amam é uma forma de protestar e exportar isso como um local de resistência. Quando o público de fora do estado fala sobre Santa Catarina, as pessoas LGBT+ e racializadas daqui acabam se tornando um pouco invisibilizadas. Meu objetivo era mostrar que existe essa vivência, há muita beleza, amor LGBT+. Existe muito amor — apesar de não ser visto, obviamente, pelo crescente da direita e por tudo de terrível que acontece aqui.

CADERNO EXPRESSÕES — Quem são esses personagens criados para dar vida a obra? 

JOSÉ — O Oliver e o Antônio — acho muito curioso falar sobre isso, na verdade — foram criados como os dois lados da minha própria pessoa. Digo que os dois me representam de uma certa forma. Inclusive, uma curiosidade, é que os nomes deles são nomes que eu já utilizei. A primeira vez que eu me chamei de Antônio foi dentro do fumódromo da Opium. Imaginei o Oliver como sendo um personagem um pouco mais expansivo, voltado para o meu lado criativo, impulsivo e apaixonado. Enquanto Antônio representa uma parte de mim que é um pouco mais fechada, introvertida. São os dois lados da moeda. É óbvio que tem separações muito grandes entre entre eu e eles, tem coisas que são exageradas, nenhum é exatamente eu, mas os dois vieram de mim.

CADERNO EXPRESSÕES — Onde você identificou uma linha que não poderia ser cruzada ou que você queria cruzar em relação ao erotismo apresentado em ambos os clipes?

JOSÉ — Eu queria provocar. Queria que fosse algo sugestivo e sensual. Não quis cruzar para níveis explícitos, essa nunca foi a intenção. Tudo foi pensado e conversado com o outro ator, o Marlon. Por exemplo, me sinto muito mais confortável em aparecer em situações, com menos roupa, enquanto o Marlon preferia estar vestido. Foi algo trabalhado, pautado na questão do conforto, do que poderia ser feito para funcionar essa ideia de uma forma que não ultrapassasse nenhum limite para nós. 

CADERNO EXPRESSÕES — Sendo artista, produtor e membro da universidade pública, qual o sentimento de ter um projeto deste tamanho, abordando tantas temáticas, sendo exibido em um cinema que, hoje, é um clássico de Florianópolis? 

JOSÉ — Algo que eu enxergo entre a Udesc e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é que, apesar das duas serem universidades públicas, elas têm políticas que são muito diferentes. Enquanto a UFSC é mais militante, tem essa voz mais forte, eu diria que a Udesc ainda vive de um certo liberalismo que chega a conversar um pouco com a direita. Como um estudante da Udesc — que é mais elitista, tem menos permanência e conversa menos com classes marginalizadas — eu tive que lutar muito para ser visto pela banca avaliadora, porque até o lançamento da primeira metade, “Lua Cheia”, lançada antecipadamente em setembro, tinha muita dúvida do que poderia acontecer. Exibir esse filme no cinema foi como falar “Ó, tá aqui, vocês duvidaram, mas tá aqui. Eu consegui”. Dá para realizar uma produção desse nível. As pessoas não estão mais no lugar de duvidar.  E eu lidei muito bem com essa questão da dúvida. 

CADERNO EXPRESSÕES — E agora, depois do lançamento, o que que vem aí?

JOSÉ — Desde julho, eu estou planejando ir para São Paulo. Quero seguir criativo, dançando e produzindo. Crescer cada vez mais. Eu nunca vou esquecer meu tempo em Floripa. Eu nasci aqui, a minha família mora aqui e eu quero sempre estar falando e divulgando a cena artística da Ilha — que eu acho um pouco subestimada. Tem muito talento aqui, muito talento. E as pessoas têm uma certa dificuldade em ver Floripa como um polo cultural. Quando falamos de dança em Santa Catarina, vem muito Joinville na cabeça. E, realmente, Joinville tem o maior festival de dança do mundo. Mas quando a gente fala de danças urbanas, de vivências urbanas, Floripa é o lugar. 


Matheus Alves

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, adora moda, fotografia, R&B e gastronomia.

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