As vidas que se salvem

Crônica e ilustração por Matheus Alves

Ilustração por Matheus Alves

O céu não é dos mais belos. O sol não é o mais encantador. O clima, pior. O dia é como viver dentro de um forno sendo pré-aquecido. Mas é carnaval. Festa, folia, azul do mar e marquinha de sunga – esse é o meu plano infalível para viver meu primeiro carnaval como um adulto. Se é que sou. 

Acordei Giovana logo cedo para não perdemos o ônibus, afinal, ir da Carvoeira para a Barra da Lagoa é uma viagem. Tomamos café e logo contei à ela nosso itinerário. Começaremos pela Prainha da Barra, vamos para as piscinas naturais, almoçamos e então voltamos para casa. Giovana nunca tinha ido às piscinas naturais. E eu também não, tinha medo de morrer. 

Morrer de que? Ora, morrer de mar. Afinal, era a combinação perfeita: ondas, pedras, pulos – um filme de terror, com direito à gore e tudo mais. Estava decidido, não iria entrar nas piscinas. 

Depois de desbravar o Morro da Lagoa na lotação, chegamos no terminal e fomos direto para à quilométrica fila do próximo ônibus, que ia demorar cerca de 15 minutos para sair. Dois homens conversavam absurdamente alto à nossa frente. Um altinho e um pequeno. O grandão ia e voltava do bebedouro com um copo de plástico, enquanto o outro esperava quase que imóvel. 

Giovana me encarou e imediatamente retribui com um olhar concordando com ela – eram dois malucos. O menorzinho estava tão chapado que mal conseguia abrir os olhos, e o maior jogava uma balinha misteriosa em seu copo toda vez que vinha do bebedouro com ele cheio. Definitivamente era carnaval. No meio tempo, eles brigavam entre si, brigavam com pessoas tentando furar a fila e também brigavam com um pobre segurança que foi avisar que era proibido fumar na plataforma. 

A gente escolheu manter três passos de distância e não encarar. Entramos no ônibus, nos sentamos na direção oposta e seguimos viagem à praia. Eles desceram no meio do caminho. O sol apareceu e junto com ele meu namorado. Leonardo e Giovana logo formaram um complô contra mim, estavam dispostos à pular nas piscinas naturais. E eu repeti um milhão de vezes o que minha mãe dizia para mim quando criança: 

– Não se pula em lugar que tem pedra. 

Fui vencido por voto popular e fizemos a trilha até lá. O alívio era que, ao menos, tinha um posto de salva-vidas. Mas durou pouco. 

O salva-vidas? Era o altinho sob efeito de bala. 

E as vidas? Que se salvem. 


Matheus Alves

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, adora moda, fotografia, R&B e gastronomia.

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