Entrevista por Ana Quinto

Francisco Eller, o Chico Chico, se apresentou no domingo, 02, em Florianópolis, com show esgotado no Centro Integrado de Cultura (CIC), apresentando a turnê do seu último disco, “Deixa Arder / Let It Burn”.
O trabalho mais recente de estúdio do artista é transportado para o palco em um repertório que mistura composições próprias, músicas em inglês e a sua versão de clássicos brasileiros, como “Menino Bonito” de Rita Lee, e “Blues da Piedade”, faixa de Cazuza e Frejat.
Apesar da timidez e de não se levar muito a sério — o artista é despojado, se apresenta no palco de chinelo de dedo e camisa do seu time de coração, o Vasco, ele encontra trunfo na sua voz rouca, que interpreta muito bem os gêneros do rock e da MPB, e na sua capacidade de alcançar notas graves.
Os músicos que o acompanham são um destaque à parte. Com Pedro Fonseca (teclados), Fernando Nunes (baixo), João Viana (bateria), Walter Villaça (guitarra), Kadu Mota (guitarra), Thiaguinho Silva e Luiz Ungarelli (percussão), o vocalista consegue se concentrar nos seus momentos para brilhar no palco e cativar o público, enquanto transita por diversos gêneros.
Tem espaço até para o blues e o reggae, mostrando a versatilidade da “Banda Banda”, nome do grupo que se apresenta com Chico Chico.

Confira a seguir entrevista que o Caderno Expressões realizou com o músico antes da sua apresentação.
EXPRESSÕES — O seu último single é “Blues da Piedade”. Você se apresentou no Altas Horas, fez uma mudança na letra da música [“Ele tá na cadeia, aquele covarde”] e recebeu algumas críticas. Como é a sua relação como artista com a política?
CHICO — É inevitável. Qualquer ser humano que vive em sociedade é um ser político, então isso para mim não é uma questão. Agora, as críticas… eu acho divertido na verdade. Eu não paro para ler, mas eu recebo muito, as pessoas me mandam e tal. Mas não é uma questão pra mim.
EXPRESSÕES — Nesse ano vamos ter eleições, e existe uma dicotomia na mídia tradicional: “será que os artistas devem se posicionar politicamente?”
CHICO — Não se posicionar é tomar uma posição.
EXPRESSÕES — Você sente que a sua arte é influenciada pela política?
CHICO — É que não tem como não ser. E se abster é se colocar de uma certa maneira. Se eu estou falando de música, eu estou falando de política, de atuar na sociedade. Se eu estou falando de amor, eu estou falando de como eu atuo na sociedade.
EXPRESSÕES — O seu último álbum, “Deixa Arder / Let it Burn”, tem várias letras suas. Como é o seu processo de composição?
CHICO — É bem caótico. Não tem um processo exato. Depende de várias maneiras, às vezes vem, às vezes você senta e faz, não tem um jeito certo. Tem pessoas que devem ter uma relação melhor com a rotina, mas não é muito o meu caso. Eu dependo muito de ter uma ideia, mas também depende de uma inspiração, depende também da minha vontade, porque se você não quiser sentar e praticar e levar para o labor da parada, se você não levar por esse lado, você não vai fazer nada, você vai ter só uma porrada de ideia.
EXPRESSÕES — Você costuma trabalhar com o Pedro Fonseca, que é um dos seus produtores e também toca na Banda Banda. Quando você tem uma ideia ou compõe, leva para o produtor?
CHICO — É difícil não mandar uma música para ele, até porque ele já vai falando isso “aí é ruim, isso aí é bom.” Já vai me dando um norte. Eu dependo muito das pessoas nesse sentido.
EXPRESSÕES — E como foi misturar tantos gêneros musicais no último disco?
CHICO — Eu sempre compus vários gêneros. Nunca tive uma trava. Se eu tentasse fazer um disco só de rock, por exemplo, aí ia ser uma coisa meio forçada.
EXPRESSÕES — “Let it Burn” tem regravações de clássicos de artistas como Bob Dylan. Como é dar uma nova roupagem para essas músicas?
CHICO — Não sei, não pensei nisso nesse sentido, mas é porque são músicas que eu gosto de tocar. Aí já facilita muito o trabalho. Eu amo cantar essas músicas, eu adoro, é muito gostoso cantar as músicas que você gosta.
EXPRESSÕES — Você acaba colocando o seu toque nessas músicas?
CHICO — Então, eu não consigo não fazer isso, eu não sou um músico, eu não consigo tirar as músicas iguais, e eu toco do jeito que eu toco, às vezes até errado.
EXPRESSÕES — Então a sua história com a música começou mais pela voz do que pelos instrumentos?
CHICO — Pela escrita. Todos os discos que eu lancei são autorais, essa é a minha pegada, eu sou compositor.
EXPRESSÕES — A sua última passagem em Florianópolis foi em 2019. De lá para cá, o que mudou na sua carreira?
CHICO — Nada e muita coisa. Eu continuo trabalhando com pessoas que eu amo. Mudaram as músicas, você amadurece. Mas a essência continua a mesma.





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