Texto por Alice Maciel

O Prêmio Brasileiro de Design chega à sua 15ª edição celebrando o design como agente de transformação, no qual inovação e coletividade se encontram para evidenciar o potencial criativo brasileiro. Entre os projetos finalistas, destaca-se “Era uma vez um Livro em Branco”, criado por Eduardo Reis, estudante de Design da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), como seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e indicado na categoria “Interatividade —Projetos Estudantis” uma criação que investe na ludicidade e no contato físico como caminhos para a formação de leitores.
O projeto é um jogo clássico analógico, pensado para ser ferramenta de incentivo à leitura literária entre crianças e jovens. Com cartas, dados e tabuleiro, a experiência conecta os participantes a obras da literatura infantil brasileira por meio do brincar, promovendo novas formas de interação longe das telas digitais. Inspirado pelos livros pop-up e o desafio de criar inovação física — e não apenas digital — o autor propõe um resgate da materialidade da leitura, ao mesmo tempo em que responde ao consumo excessivo de telas entre os mais novos.
Destinado a educadores, crianças e jovens, especialmente na faixa de 8 a 14 anos, o jogo apresenta regras alternativas para incluir faixas etárias ainda menores. A proposta busca responder a uma demanda pedagógica identificada no Núcleo de Desenvolvimento Infantil da UFSC, onde pesquisas mostram desafios persistentes no aprendizado da leitura e escrita, dificuldades que antes eram superadas por volta dos seis anos e que, agora, permanecem até os oito. O jogo cria situações para que a criança invente histórias, leia trechos e se expresse criativamente, facilitando o aprendizado com recursos visuais e fontes pensadas para estimular o prazer da leitura.
A gênese do projeto revela uma colaboração genuína entre professor e aluno. Segundo o orientador Douglas Menegazzi, a proposta partiu dele, mas encontrou terreno fértil no interesse de Eduardo, que já era seu aluno e monitor na disciplina de ilustração. “Sugeri que Eduardo criasse um jogo voltado para o estímulo à leitura na escola, alinhado com o repertório da ilustração e também com o grupo de pesquisa da professora Caroline Machado para a parte pedagógica. Isso fez com que o projeto fosse adaptado para o contexto real das escolas e se tornasse relevante para seu uso.”
Sobre o principal desafio de orientar um projeto que une design, literatura e educação, o professor é categórico: “Honestamente, não posso falar que há um desafio nisso, porque essa é justamente a intersecção de áreas onde eu trabalho. Tenho um repertório nessa área.” Segundo ele, o desafio dessa produção estava atrelado ao uso do jogo como ferramenta, desde as mecânicas de jogabilidade, a parte lógica e quantitativa. “Todo o mérito do Eduardo é sua trajetória dentro do curso, formando um grupo de pesquisa que estuda e desenvolve jogos, e isso foi muito interessante para euaprender junto com ele.”
Eduardo sublinha o valor nacional e o alcance acadêmico da premiação, que impacta positivamente na sua carreira agora que é um profissional formado. “É recompensador, porque pessoas do Brasil inteiro podem inscrever seus projetos. Estar entre os dez escolhidos pelo júri já é motivo de orgulho”. O reconhecimento impulsiona não só o desenvolvimento futuro como reforça o papel do design na pedagogia e no universo da literatura. “Para todo designer, empresa ou criador, ter o projeto visibilizado numa premiação dessas é uma porta para o conhecimento nacional.”
Caminho até o design

Natural de Uberlândia, Minas Gerais, Eduardo chegou a Florianópolis em 2020, quando passou pelo ENEM na UFSC. Ele relembra que teve apenas uma semana de aula antes de a pandemia estourar e a quarentena começar. Permaneceu na cidade por um ano, mas depois, em 2021, voltou para a casa dos pais. Somente em 2022, quando as aulas presenciais retornaram, ele voltou definitivamente para Florianópolis, onde mora até hoje.
A escolha pelo design surgiu de um interesse cultivado desde a pré-adolescência, época em que ele já sabia que gostaria de trabalhar com algo que envolvesse arte — fruto do seu interesse por desenho e ilustração. Acompanhando profissionais que compartilhavam seus trabalhos nas redes, com animações ou jogos, assistindo a canais sobre técnicas de desenho e como mexer em softwares de ilustração e pintura digital, ele foi trilhando seu caminho para área que queria seguir. Eduardo explica que, ao pensar qual curso estava mais próximo disso, viu que a grade de disciplinas em design levava para esse caminho. O curso fazia a conversa entre ilustração, arte e desenho com um produto que poderia aplicar essa arte para exercer alguma função social, uma função prática para alguém — seja uma colher, um móvel, um aparelho, um adesivo, um cartaz, uma interface de aplicativo ou uma arte promocional. “O design tinha essa capacidade de juntar o que poderia ser a arte com uma função prática social.”





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