“Sou um músico frustrado, então passei a tocar piano na máquina de escrever”

No Dia do Tradutor, Jorge Wolff fala sobre sua prática, marcada por uma escuta rigorosa da linguagem e um ouvido afinado para a “música do texto”

Matheus Alves

Evento de lançamento das obras “daltontrevisan.com” e “Diário da Hepatite”, no último sábado (20). (Foto: Dirce Waltrick)

Hoje, 30 de setembro, celebra-se o Dia Internacional da Tradução. A data convida à reflexão sobre o ofício de quem dedica a vida a mover palavras entre mundos, recriar sentidos e fazer com que histórias cruzem fronteiras linguísticas e culturais. Poucos encarnam esse gesto de travessia com tanta liberdade quanto Jorge (ou apenas Joca) Hoffmann Wolff, ensaísta, crítico, tradutor de literatura latino-americana e também professor do Departamento de Língua e Literatura e Vernáculas do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da UFSC. 

Na última semana, dia 20, Wolff lançou dois livros publicados pela Editora Papéis Selvagens: o ensaio “daltontrevisan.com: ensainhos a partir da vida-obra de Dalton Trevisan” e a tradução de “Diário da Hepatite”, do argentino César Aira. Embora muito distintos, ambos os títulos têm algo em comum: são exemplos de leitura como experiência radical — e da tradução como sua extensão natural. Em Diário da Hepatite, Aira transforma a mazela — sujeito oculto na narrativa — e a suposta crise de escrita em matéria narrativa, num diário ficcional e, ao mesmo tempo, íntimo. Já nos cinco ensaios reunidos em “daltontrevisan.com”, Wolff relaciona a obra de Dalton à de Paulo Leminski e à de Manuel Bandeira, este último por meio do cinema de Joaquim Pedro de Andrade, diretor de O poeta do Castelo (1959) e de Guerra conjugal (1975). 

Ao longo de sua carreira, Joca tem se dedicado a tornar a literatura hispano-americana mais próxima do leitor brasileiro. Refletindo sobre tradução e cultura, brasilidade na escrita e reconhecimento, Joca compartilha um pouco da sua visão em entrevista para o Caderno Cultural Expressões

CADERNO EXPRESSÕES – Que autores ou experiências literárias marcaram o seu aprendizado como tradutor? 

WOLFF – Qualquer tradução implica — e muitas vezes é fruto — do interesse por diferentes línguas faladas no planeta. Fiz experiências de tradução do inglês e do francês primeiro, pra depois me encaminhar pro espanhol, especialmente o espanhol falado na região do Rio da Prata. Ao longo desses 25 anos de prática, dois autores foram muito desafiadores por experimentarem com a linguagem em diferentes contextos históricos: Pablo Palacio, vanguardista equatoriano do início do século XX, e Luis de Lión, poeta da Guatemala dos anos 1970-80. Mas, tirando essas e outras exceções, mantenho à tona o sonho impossível de traduzir toda obra de César Aira, que tem mais de cem títulos. Aira escreve um tipo de prosa ficcional que bebe na fonte do surrealismo, dos quadrinhos, da filosofia e das literaturas de diversas línguas, inclusive o português brasileiro (Aira foi ele mesmo tradutor de diversas línguas). Dele já traduzi muitas novelitas e alguns ensaios, e sigo traduzindo.

CADERNO EXPRESSÕES –
Você passou por universidades no Brasil e no exterior. O que esse trânsito te ensinou sobre a tradução como prática cultural? 

WOLFF – Quando você se interessa por outras línguas e culturas, é preciso mergulhar nelas por um tempo. Foi o que fiz na França, nos Estados Unidos e em diferentes cidades do Uruguai, do Paraguai e sobretudo da Argentina. Na verdade, o intercâmbio universitário é que me fez encarar a tarefa da tradução, ao ler intensamente, além da poesia e da prosa, a crítica e o ensaio latino-americanos desde os meus tempos de formação no mestrado e doutorado em Literatura na UFSC. Traduzir do espanhol era uma forma de conhecer as entranhas de um texto e de colocá-los para circular no Brasil: apesar da proximidade das línguas portuguesa e espanhola, ainda persiste o famoso abismo cultural entre nosso país e os vizinhos hispano-americanos, de tal modo que a tradução é uma forma de estabelecer pontes com estes vastos mundos que estão logo ali.

CADERNO EXPRESSÕES – Que tipo de desafios você considera mais instigantes: traduzir estilos literários muito diferentes, lidar com contextos culturais distantes, ou encontrar soluções para expressões aparentemente simples? 

WOLFF – Como tanta gente, sou um músico frustrado. Então passei a tocar piano na máquina de escrever. A primeira versão de uma tradução de César Aira é, pra mim, como tocar uma peça inteira no piano. Depois vem o trabalho de correção e lapidação, mais árduo e lento. A tentativa é sempre fazer com que os textos traduzidos não soem a espanhol ou portunhol, que eles falem português brasileiro, mesmo sabendo que o contexto narrativo é necessariamente argentino ou hispano-americano (Aira tem novelitas ambientadas no Panamá e na Venezuela). Então, o que me instiga em primeiro lugar é a música do texto, seja qual for.

CADERNO EXPRESSÕES – Nos últimos anos, o Centro de Comunicação e Expressão (CCE) tem ganhado destaque com traduções reconhecidas pelo Prêmio Jabuti. Esse tipo de reconhecimento muda a forma como a tradução é percebida dentro e fora da universidade, ou ainda existe uma subvalorização do trabalho do tradutor? 

WOLFF – Nosso centro tem se destacado nesse aspecto realmente, com a professora Dirce Waltrick do Amarante e os colegas André Cechinel e Pedro Falleiros Heise à frente. E isso gera um justo prestígio para esses professores e para os departamentos e programas que representam. O que não muda a situação do tradutor em relação ao mercado editorial, que é de subvalorização, como você mencionou. Mas como nenhum desses colegas tradutores é “profissional”, no sentido de se dedicar exclusivamente a esse tipo de trabalho, as coisas são diferentes. Como ocorre no meu caso, são professores que escolhem a dedo os textos que irão traduzir, e não o contrário.

CADERNO EXPRESSÕES – Como as novas tecnologias de Inteligência Artificial têm influenciado no trabalho de tradução? Há benefícios em utilizá-las ou é uma ferramenta que ameaça a profissão? 

WOLFF – A tradução em geral mudou radicalmente com a tecnologia, as formas de pesquisa se ampliaram e se aceleraram vertiginosamente, e isso desde o advento da internet, muito antes do surgimento da chamada IA. Então, quem traduz profissionalmente pode se beneficiar mas também ser atropelado pela IA; já, quem traduz por gostar (ou considerar importante traduzir determinado texto), não tá nem aí pra IA.


Matheus Alves

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, adora moda, fotografia, R&B e gastronomia.

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